Se me perguntassem como eu definiria seu Valdomiro, em uma palavra, eu diria sem muito pensar: Simplicidade. Há no gesto, nas vestes e na fala desse homem corpulento e vertical, uma leveza certeira e transparente. Maior que ele até, que beira seus quase 2 metros, arrisco.

Valdomiro Ferreira do Santos é representante dos Pescadores da Vila do Jaraguá e completará 50 anos no próximo dia 11 de novembro. Nunca pensou em ser outra coisa, senão pescador, assim como fora o pai. Ele diz que nem quando se aposentar, vai parar de pescar. “Pescarei até meus últimos dias”, garante. Quando me cedeu esta entrevista, tinha apenas um mês como representante dos moradores da Vila.

De instante em instante, uma mão tamborila a porta da casa dele ou algum grito no estilo “Ô de casa!” ecoa entre a pequena sala, cozinha, banheiro e dois quartos no condensado andar de cima. “Sei apontar por dedo cada morador da comunidade”. Não duvido. Em geral, os moradores estão sempre por lá para saber “como é que tá a situação” (o processo de desapropriação da área travado entre municipalidade e os homens do mar).

Nascido no arquipélago de Fernando de Noronha, em Pernambuco, Valdomiro chegou à Vila quando tinha aproximadamente 14 anos, lá pelos idos de 1979. O pai dele veio primeiro. Oito meses depois, Valdomiro, a mãe (pescadora de um tipo de “sargaço que japonês compra”) e os 5 irmãos vieram também. Ele era o mais velho. “Filho bem quisto”, como os irmãos, garante. Nunca cogitou em sair da Vila. Foi de lá que deu, e dá!, “possibilidades” aos filhos. “Nunca chegou a hora do café pra não ter o pão”, orgulha-se Valdomiro. “Cresci com a consciência de que poderia ajudar a família com a pesca”, conta o pescador, que desde menino já era o segundo homem da casa.

Não se recorda de ter sofrido preconceito por ser morador da Vila dos Pescadores, mas acrescenta que a visão de “quem são eles” é distorcida. “Eu vejo que a comunidade alagoana, por ser mal informada, enxerga algumas coisas com maus olhos. Nós da Vila, não somos uma classe marginalizada. Somos uma classe de trabalhadores”, afirma o avô de 12 netos e pai de 6 filhos, que são divididos assim: dois com a esposa Nanci, dois filhos de um primeiro casamento dele e mais dois de outro casamento da esposa. No final das contas, são todos filhos.

Para seu Valdomiro, o cotidiano na Vila é tranquilo. Muito diferente da época em que morava no bairro Vergel do Lago. Confessa, em voz enérgica, que chegou a entrar em depressão, quando morava no Vergel. “A morte era de instante em instante [batendo à porta]. Eu tinha medo pelos meus filhos”, falou num tom de voz atemorizado. Não demorou muito por lá. Voltou para o bom e velho barraco na Vila, que nada tem de sujo, como é o aspecto geral da Comunidade. “Como é possível [a Prefeitura] desativar uma área com mais de 50 anos de pesca?”, questiona-se com olhos de tristeza.

A rotina de Valdomiro é ir para o mar, entre 15h e 16h da tarde. Chega em casa costumeiramente 1h-2h da manhã. E tem dias até que só retorna 24h depois! Perguntei se ele não tinha medo daquela água toda o cercando. (Eu só de me imaginar rodeada de tanta água sinto uma fisgada de desespero!) Ele disse de prontidão que “não”. “Nem quando menino?”, indaguei. “Nem quando menino. Meu pai sempre me incentivava a não temer o mar. Desde pequeno ele sabia que era de lá que eu tiraria o meu sustento”, rememora o coração em brisa de Valdomiro, que aprendeu a nadar “desde a idade de 9 anos”.

“Eu vivia dentro de uma jangada, já pescando!, em uma praia chamada de Ponta do Mato, lá em Cabedelo [município paraibano].” Pela noite, Valdomiro pescador estudava. E estudou só até a 3ª série. O nome do primeiro barco dele era “Rio Formoso”.

Eu sempre tive a curiosidade de saber como é essa coisa de por nome em barco. Seu Valdomiro tratou logo de explicar com exemplo, gosto e tudo: “Quando você compra uma embarcação, pra Capitania você tem que denominar e também fazer toda a documentação. Número de inscrição, zona… É o mesmo documento do carro”, compara. Quando ele comprou o Rio Formoso, o barco já tinha esse nome. E o que era formoso, agora é recordação. O barco já não existe mais.

Há 34 anos ele e Dona Nanci, 48, estão juntos. Ou melhor dizendo, foram noivos durante todo esse tempo, como ela costuma brincar. “Eita que seu Valdomiro apurou mesmo a senhora, Dona Nanci!”, brinco. Eles oficializaram a união há uns 6 meses. Foi um momento especial. Ele conta que no dia dos pais a amada disse: “Já que não tem como lhe presentear mais, [os filhos foram o maior presente que Nanci poderia ter dado] agora é hora da gente casar.” E casaram perante os amigos, os filhos já grandes e os netos. Prova do quão foi importante esse acontecimento na vida deles, é o porta-retratos com uma foto desse dia, enquadrando num retângulo só!, toda a família em destaque no rack da sala-de-estar. “Eu tava ali, diante de Deus, assumindo um compromisso pro resto da vida”, sorriu comigo.

Nanci morava na casa da mãe, quando eles se conheceram e “resolveram juntar as tralhas”, como disse seu Valdomiro. Cada um já tinha dois filhos pequenos. Aos 15, o pescador já era separado. A maior qualidade dele “é ser pela família” e a de sua amada, aos seus olhos, também. Alegria mesmo, para seu Valdomiro, é uma coisa múltipla: “quando vai nascendo meus netos…”

– O que significa o mar pro senhor, Seu Valdomiro?, mergulho na espera da última resposta simples e profunda, feito as águas de pescador.

– O mar sempre me ajudou em tudo. Significa muito pra mim: a minha sobrevivência e a sobrevivência dos meus filhos, porque é de lá que eu tiro todo meu sustento. É de lá…

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Glória Damasceno

É uma das, muitas!, pessoas que não está na deselegante lista das 100 personalidades mais influentes do mundo, segundo a Forbes. Outro dia sonhou que era esposa do Jon Bon Jovi e acredita que isso é prenúncio para essa vida, ou para a próxima. Sabe-se lá. Escreve também, quando quer, no blog Apenas uma Fresta.

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