“Hélio, ô Hélio!”, brada a senhorinha franzina, de olhar negro e perdido, ao sentir fome ou sede. Os gritos por Hélio, seu neto de 18 anos, são roucos e constantes e, apesar de toda a vizinhança poder ouvi-la, apenas ele parece escutá-la de verdade. “Eu chamo muito meu neto porque só ‘me acho com ele’, já que os filhos trabalham o dia todo longe daqui”, conta Luzinete Paz de Lira, sentada na costumeira cadeira branca de plástico, encostada no muro cinzento de seu quintal.

“Hélio, ô Hélio! Hélio, Ô HÉLIO! HÉLIO…” Hélio ouve, do outro lado da rua – onde trabalha numa lojinha de artesanato – e corre em socorro da figura materna. O rapaz tem licença para ajudar a avó sempre que a entonação e frequência dos gritos aumentam. “HÉLIO, Ô HÉLIOO!” E o menino põe as pernas longas e finas para funcionar em disparada ao encontro da matriarca.

Aos 91, Dona Luzinete quase não lembra de seu passado, parece ignorar o presente e não demonstra qualquer interesse pelo futuro. “Se nesse instante passar alguma coisa aqui e você me perguntar, eu não vou saber dizer o que era, vou esquecer. Tô desequilibrada, minha filha”, explica com um angustiante tom de fadiga, e completa: “Eu não estou louca, Deus me livre! Mas estou de um jeito que não consigo mais fazer nada em casa.” Mãe solteira, Dona Luzinete alimentou os três filhos trabalhando como doceira. Hoje, não consegue colocar comida em seu próprio prato.

Os filhos Gilson, Paulo e Vicente, não sabem a causa do esquecimento da mãe, mas o motivo para ela não conseguir mais andar, eles acreditam compreender: “É trauma”, afirma Paulo, o caçula. Luzinete parou de andar depois que a própria mãe levou uma queda, quebrou o fêmur e não levantou mais da cama. “A minha avó morreu de uma queda. Então acho que minha mãe criou um trauma. Há mais de dez anos que ela só vive assim, sentada, com um medo horrível de andar”, explicou. Luzinete, que até então parecia completamente desinteressada no que o filho falava, repreendeu: “Eu não tenho medo de andar, meu filho, eu tenho medo de cair.” E assim ela vive, evitando despencar da altura de seu próprio corpo.

Luzinete mora há muito tempo no bairro da Pescaria, Litoral Norte de Alagoas e, segundo Paulo, ela sempre gostou de andar “para tudo quanto é canto”: “Minha mãe ia pra procissão de Santa Maria, em Paripueira, e toda madrugada íamos ‘de pé’ pegar caju, próximo a Riacho Doce.” O caju servia para Luzinete fazer seus doces, “desejados por muitos que moravam aqui. Era a melhor doceira do bairro”, conta uma vizinha. “Eu fiz muito doce de caju. Mas agora eu não consigo fazer nem pra eu mesma comer. Sinto saudades do meu trabalho. E da minha mãe, que cuidava da casa enquanto eu preparava as encomendas.”

Hoje a ex-doceira mora com o neto Hélio e com o filho Gilson. Os dois são responsáveis pela limpeza do lar e da própria Luzinete. Apesar de nunca ter caído desde que começou a evitar dar novos passos, ela faz de Hélio suas pernas e sempre que pensa em levantar da cadeira, imagina seu corpo se encontrando violentamente contra o chão. Então desiste.

A dor de Luzinete é relativamente simples de entender, porque de uma forma menos literal, lidamos com um medo semelhante todos os dias. Quantos de nós declinam socialmente, psicologicamente ou financeiramente e tentam se reerguer temendo tombar de novo? Lutamos, cada um a seu modo, fazendo o possível para as pernas não fraquejarem. A diferença é que Luzinete desistiu de levantar.

O coração cheio de amor pela mãe partiu em pequenos pedaços e todos os dias Luzinete tem que lidar com o medo paralisante. Encontrou a sua própria forma de evitar a dor da imobilidade, da incapacidade de tornar sua existência doce, como fora outrora. Mas enquanto houver voz para gritar por “Hélio”, haverá vida. Luzinete quebrou, mas há quem recolha seus cacos todos os dias.

Elayne Pontual

Idealizou o Vidas Anônimas porque acredita que as histórias mais extraordinárias ainda não foram contadas e que as pessoas mais incríveis nunca foram ouvidas.

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