Elayne Pontual

Idealizou o Vidas Anônimas porque acredita que as histórias mais extraordinárias ainda não foram contadas e que as pessoas mais incríveis nunca foram ouvidas.

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Espalhando um forte cheiro de tinta por onde passa, Seu Zezinho é um artista diferente. Ele não pinta em telas de tecido dependuras em chassis de madeira, suas telas são feitas de tijolo e concreto. É ele o responsável por dar vida às paredes de diversas casas alagoanas. Em sua assinatura trêmula não há espaço para Portinari, da Vinci ou Picasso, pois José Lourenço Muniz de Melo já é um nome volumoso demais pra quem tem o vocabulário tão pequeno quanto o corpo. Sua miudeza é tanta que de José, passou pra Zé e de Zé, passou pra Zezinho.

Apesar de ter nascido numa das regiões metropolitanas de Alagoas, em Rio Largo, José Lourenço Muniz de Melo é o típico sertanejo de Euclides da Cunha, um verdadeiro Hércules-Quasímodo: desgracioso, desengonçado. Torto torto. A famosa antítese formulada pelo escritor carioca descreve com perfeição o jeito Zezinho de ser: andar desaprumado, sem firmeza, postura abatida, dorso curvado. No entanto, apesar da aparência de fadiga constante, sua coragem e vigor são de fazer inveja a muitos jovens acomodados pela ideia de eternidade. Com a idade que carrega nas costas curvas, Zezinho já não se sente imortal e precisa provar para si mesmo, diariamente, que ainda está vivo.

Aos 63 anos, com a pele dobrada e os cabelos envelhecidos, Seu Zezinho, como é mais conhecido pela clientela, assobia pelos cantos do mundo como se não houvesse amanhã. Vez em quando encosta no muro pra tragar um cigarro e soltar fumaça. Fios e mais fios de fumaça. Sua natureza pacata desafia o temperamento agitado da nossa geração. Parece até que ele vive em outro mundo, num lugar avesso à urgência, ao imediatismo. A verdade é que Zezinho está em paz com o tempo e os dois caminham juntos, sem pressa.

Enquanto as horas passam calmas, ele arrasta as chinelas até a lata de tinta, molha o pincel e volta toda sua atenção para a parede, mofada, esburacada. Feia. Analisando qualquer possibilidade de fazer um trabalho bem feito, sem medo algum de ser ultrapassado pelos instantes, ele deixa a vida passar enquanto as cores melam suas mãos.

Até aí, Seu Zezinho poderia ser considerado o homem mais corajoso do mundo, afinal, o tempo, o tão temido tempo, não lhe mete medo. Mas existe algo que anula seu lugar no Livro dos Recordes e que deixa as pernas bambas de Zezinho ainda mais bambas. É a altura.

Zezinho garante que o medo de altura não chegou na porta de sua casa embrulhado num lindo papel de presente. A verdade é que, certa vez, quando foi contratado para impermeabilizar a caixa d’água da Infraero, no aeroporto de Rio Largo, Zezinho sentiu a morte alisar seus cabelos finos. Sem que ninguém tivesse a decência de lhe avisar, abriram as válvulas da caixa de 23 metros de altura e, nesse momento, litros e mais litros de água foram jorrados com uma força brutal, sacudindo cada centímetro daquela estrutura monstruosa. E Zezinho estava aonde? Lá no topo, lutando como um peão para se manter em cima do touro feroz.

– O rebuliço foi tão grande que eu senti vontade de pular. Mas me aguentei. Pensei que a caixa ia cair e que eu ia junto.

Traumatizado, agora seu Zezinho se arma de um cuidado exacerbado quando é chamado pra pintar prédios ou fazer qualquer trabalho que exija “enfrentar muita altura”.

Fobias à parte, com mais de quatro décadas se dedicando a embelezar paredes – ele é da época em que os pintores faziam as próprias tintas –, Zezinho ama sua profissão. Mesmo não sendo devidamente reconhecido, trabalha com entusiasmo e não abre mão do grau de excelência. Cuida dos mínimos detalhes. Nenhum buraco. Nenhum defeito. Nada pode ficar torto. Só sua coluna e as pernas cangalhas. Quando identifica um erro, logo articula os mais variados xingamentos contra a falha exposta. Quem vê de longe acha que ele está cantando, tamanha serenidade.

– Até nas horas de estresse, Zezinho?

– A vida deve ser assim, pacata. Faço tudo pensando sempre em seguir um caminho certo que é pra ter um lugar no céu.

Homem de fé e praticante da autoanálise, diz Seu Zezinho que falar sozinho é como uma terapia. Foi a forma que arranjou pra expulsar os demônios do passado de trabalho, do presente de trabalho e do futuro de trabalho. Hoje seus familiares podem e lhe oferecem ajuda, mas ele nega. Pudera. Quem passa a vida inteira na labuta, nada mais sabe fazer além de labutar. Verdade seja dita.

Aos 7 anos, quando seu pai morreu, Zezinho já auxiliava no sustento da família. Ele e suas duas irmãs tinham que sair de casa antes de o sol nascer pra ajudar a mãe a vender mangalhos na feira de Rio Largo. Para os que não sabem, mangalho, no interior do Nordeste, é todo produto caseiro ou agrícola vendido em feiras livres e mercados populares. Quer dizer… acho melhor Zezinho explicar:

– Naquela época se chamava “mangaio”, mas hoje tem outros nomes. Com o tempo, as coisas vão ficando mais sofisticadas, sabe? É assim mesmo. Acho pura besteira, porque, se juntar tudo, no fim vai ter o mesmo significado. Você não acha?

E quem vai duvidar de uma pessoa que já pintou casas, apartamentos, shoppings e até mansões? Seu Zezinho é pintor de mão cheia e tem clientes espalhados em toda Alagoas. Não se duvida de alguém com sua importância.

A depender do tempo que lhe dão pra entregar o trabalho, o senhor baixinho de andar arrastado promete virar o dia alisando paredes. Às oito horas da matina já está batendo ponto e só sai no alvorecer do dia seguinte. Polivalente, ele trabalha também como marceneiro, carpinteiro, eletricista, pedreiro e encanador. Além disso, o pintor faz todo tipo de aplicação de textura: espalmada, escamada, brilhante, rústica, diamante. Aplica tinta Epóxi e ainda pinta azulejos. A concorrência que se cuide!

E não para por aí. Zezinho ainda conseguiu tempo pra formar um filho engenheiro civil, que hoje trabalha para a Petrobrás, e o outro médico clínico geral, graduado também em Farmácia. Os dois, Alexandre e Luciano, são a prova de que o grande Zezinho – não em tamanho, mas em humanidade – realizou um trabalho perfeito, como sempre buscou fazer. Um trabalho que honrou e dignificou a vida de seus filhos e, consequentemente, a sua.

Zezinho talvez não soubesse, mas, enquanto pintava as paredes alheias, sempre com honestidade e dedicação, cuidava também de sua própria casa. Não é à toa que hoje ele olha para trás e se sente feliz, realizado por suas conquistas. Conquistas construídas com atitudes, as mais nobres atitudes e quase nenhum dinheiro. Ainda assim não se considera superior a ninguém. Ele é apenas um homenzinho moreno de voz aguda que, se lhe fosse permitido, pintaria o mundo com as melhores tintas, usando as cores mais vivas e pincéis de cerdas mais macias.

Quem conhece sabe que, se permitido fosse, Zezinho pintaria os aromas mais suaves e as canções mais estonteantes pra não correr o risco de se apagarem da memória. Cobriria de azul turquesa todos os momentos de consolo no colo de sua querida mãe e as “conversas de homem” com o falecido, e não menos querido, pai. Zezinho pincelaria delicadamente cada sílaba do primeiro “eu te amo” e acentuaria a cor rosada das maçãs do rosto de sua amada. O cheiro do café quentinho e o barulho da chuva que reúnem toda família também seriam alvos de seu pincel mágico.

Se lhes permitissem, o pequeno homem de passos mansos daria cor à invisibilidade de sua alma e rebocaria cada falha que o entristece e angustia. Envernizaria sua ignorância e aplicaria cores fortes às mais longínquas e enfraquecidas lembranças. Se possível fosse, seu Zezinho consertaria o mundo a seu modo, colorindo de vermelho vivo todos os corações desbotados.