Vidas Anônimas

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Um tal Galego do Veneno

Elayne Pontual

Idealizou o Vidas Anônimas porque acredita que as histórias mais extraordinárias ainda não foram contadas e que as pessoas mais incríveis nunca foram ouvidas.

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Sentado com uma das pernas apoiada na cadeira, ele anuncia: “Eu sou o maior matador do Estado. Mato rato e barata. Sou o galeguinho do veneno!”.  O papo de Genésio Rodrigues dos Santos, o tal Galego do Veneno, é tão entusiasmado que por um longo momento a gente até esquece o odor incômodo e o barulho perturbador, típicos do Mercado da Produção, localizado no centro da cidade.

— Sou do interior. Fui criado na mata que nem batata. Dentro do mato, que nem um bicho.

Aproveito a oportunidade e pergunto se ele não sente falta de sua terra. Da mesma forma que deu a primeira resposta, soltou a segunda, quase sem pensar:

— E eu sinto falta de morar dentro do mato? E eu sou raposa, menina? Se eu tivesse dinheiro lá, uma fazenda… Eu até que queria um gado, um cercado bom, uns dois cavalos bonitos, mas pra não ter nada, é melhor ficar aqui.

Entre atender aos clientes e responder às minhas perguntas, Genésio por um momento se distrai e, sem afastar a boca do microfone, com a voz já gritante ampliada pelo eletrônico, ele fala para qualquer um que queira ouvir:

— Sou casado e bem casado. A mulher gosta que só de mim. Só me chama de “fio”, ou “fio da peste”, a depender do dia e do momento. E assim a gente vive até hoje.

“Genésio, olha o microfone!”, tento alertá-lo sem sucesso. Passados alguns minutos, ele mesmo percebe a gafe e ri sem jeito da própria situação, agora com parte da vida íntima exposta aos quatro cantos daquele pedaço de Maceió.

Em raríssimos momentos, Galego do Veneno deixa o riso preso. Quando pergunto sobre sua infância e como se sucedeu a vida de menino no interior, ele junta as mãos e baixa a cabeça; parece por alguns segundos voltar ao passado e catar cuidadosamente as memórias de criança, como goiabas caídas do pé.

— A gente tinha um pedaço de terra, mas naquele tempo não existia brincadeira pra moleque. Pelo menos não pra mim e meus irmãos. Foram tantos filhos que meus pais fizeram, que não consigo nem contar nos dedos. De todos, já morreu dois e o resto ainda tá vivo.

Por conta da dureza dos primeiros anos de sua vida, sem tempo para brincadeiras e estripulias, Genésio hoje, “cabra veio” como gosta de dizer, conserva alguns hábitos que quem vê de longe, sem conhecer seu passado de trabalho, custa a acreditar. Imagine só: Um homem corpulento, pele enrugada e cabelos brancos, sozinho, brincando com um avião elétrico que sobrevoa desembestado os móveis da casa. Agora imagine esse mesmo homem sentado ao chão, dessa vez vendo seu carrinho de brinquedo dar voltas pelo imóvel, ziguezagueando por debaixo da mesa e assustando o gato, que arrepia os pelos da espinha exibindo as garras enquanto o mini conversível corre e tromba, eventualmente, nas canelas de sua dona.

— Mas no meu tempo de menino não tinha isso não! Quando sobrava tempo, a gente fazia umas rodinhas e apregava num pedaço de pau. Aquela coisa ficava rodando e era essa a brincadeira da gente dentro do mato.

69 anos se passaram desde que Genésio despontou no mundo recebido com um molhado e mudo beijo materno. Enfrentou “Deus e o diabo”, mas nada disso o impediu de compensar a meninice perdida, que os anos não trazem mais. Cada passo dado até aqui, até à tábua cheia de veneno pra bicho, foi realizado também com a intenção de conquistar o que jamais pôde acrescentar à sua existência. Genésio, depois de tantos anos, apoderou-se não só de aviões e carrinhos de brinquedo, mas também de uma vida que nunca foi sua. Tenta remontar, perto do fim, o seu começo.

Buscando recriar etapas da vida, Genésio tomou uma decisão que alguns anos atrás não poderia sequer imaginar. Matriculou-se numa escola próxima a sua casa.

— Estudei até o 4º ano, mas agora tô fazendo a 8ª série.

— E como está sendo a experiência?

— É ruim que só a gota. Papagaio véio pra aprender a falar dá um trabalho danado.

— Mas sabe ler e escrever?

— Sei escrever alguma besteirinha. Eu tenho a carteira do estudante, quer ver? — tira do bolso e mostra, cheio de um orgulho contido, um documento plastificado com direito a foto, data de nascimento, nome completo e um Nelson Mandela sorridente.

— Por que o senhor resolveu voltar para o colégio?

— Porque eu não fazendo nada de noite, aí vou estudar. Estudo a noite também porque não tem escola de dia pra velho, não.

— A sua mulher te apoia?

— Ela apoia. Não diz nada que atrapalhe, não. Mas também tá aposentada, eu tô aposentado. Tem o salário, arrumo qualquer coisa aqui no mercado e pra mim tá bom. Os meus filhos estão todos criados. Não tem mais menino, eles já têm os negócios deles.

— O senhor trabalha pela manhã e pela tarde, e ainda arrumou o que fazer durante a noite?

— Eu não trabalho pela tarde, não. É só o primeiro horário. Até uma ou duas da tarde, no máximo, porque eu não sou de trabalhar muito. Sou preguiçoso! – solta aquela gargalhada costumeira.

— Mesmo assim foi arrumar escola pra estudar…

— Mas estudar é outra coisa! — ele ri sem jeito, como criança quando é pega na mentira.

Casado há quase 40 anos, Genésio tem filho com três mulheres diferentes. Começou atrapalhado no mundo, e não se importa com as censuras. Seus genes perambulam não só pelas ruas de Maceió, mas também pelas avenidas e logradouros de Mato Grosso e São Paulo. Tem filho jornalista, filósofo e historiador.

— Se eu disser o tanto de filho que tenho, tu vai dizer que é mentira minha. Tenho dois numa mulher, tenho um em outra e em casa, com essa de agora, tenho mais três. Mas casei uma vez só. Eu era metido a doido naquela época, pior do que hoje. Sem vergonho todo.

Genésio desembarcou em Maceió aos 13 anos. Primeiro veio a mãe, depois o pai, ele e os irmãos. Desde então se vira como pode, e assim, crescido no mato, quase sem estudo, decidiu vender veneno como seu ganha-pão. Começou comercializando verdura e carvão para só depois montar o negócio que é o terror dos ratos e baratas da cidade.

Há quase trinta anos trabalhando no Mercado da Produção, Genésio chamou atenção e conquistou seu espaço na capital procurando sempre fazer diferente dos concorrentes. Seu jeitinho todo desenfreado atraiu fregueses e hoje, apesar de não ser bem quisto por alguns roedores e artrópodes maceioenses, ele é uma figura conhecida e querida na cidade. Já foi até candidato a Vereador e a Deputado Estadual.

— Só que nunca ninguém votou em mim. Nem minha mulher votou em mim, porque antes da eleição cheguei em casa bem empolgado e disse: “Mulé, eu já tô é eleito”. Quando foi no dia da eleição fui tomar umas cachaças, fiquei bêbado e não voltei. No tempo de contar o voto não tinha nenhum, nem o meu, nem o da mulher, nem do pessoal. Eu perguntei: “Mulé, por que você não votou em mim?”, ela disse: “E você num já tava eleito?” – ele desata a rir e até agora não sei se foi mais uma de suas piadas. Fico com cara de boba.

Genésio adora o que faz. Para ele, vender veneno é um passatempo e não lhe rende momentos de estresse como quando comercializava verduras. Ele explica:

— Com esse negocinho de vender veneno, ninguém nem chega aqui pra pedir tira-gosto. Porque quando eu vendia verdura, o cara chegava e dizia: “Me dá um tomate pra eu botar no meu feijão?” Quando fui vender amendoim quase me lascava, o pessoal todo só pegando e comendo. Duvido alguém botar a mão aqui pra comer. Não ganho esse dinheiro todo, mas ganho qualquer coisa e pra mim tá bom. Com a idade que estou, pra que gota quero mais dinheiro?

— Você já teve algum problema de saúde por conta de todo esse tempo em contato com veneno?

— Nunca. Veneno só faz mal se o cara comer! — tomei a resposta como lição para a vida.

Otimista, Genésio acredita que esse mundo é bom para quem não busca só o lado ruim das coisas.

— Se o homem vive pensando no que é ruim, só acontece o que não presta.

Reflito, então: “Será essa a fórmula para tanta alegria?”, e sinto um nó no peito só de imaginar Genésio se deixando levar pelas adversidades, pelos momentos de tristeza que parecem raros e, por isso mesmo, metem medo nas pessoas que se afeiçoaram ao seu sorriso. Nesta altura da conversa, não me restam dúvidas de que é preciso muito fôlego para acompanhar seu ritmo, mas compreender seu coração é tão empolgante quanto encontrar uma poesia favorita, guardada na caixinha de lembranças que cheira a papel envelhecido e perfume desgastado.

Antes de me despedir, faço uma última pergunta:

— O que você espera da vida, Genésio?

— Só o que é bom. Não sou sertanejo que espera pela seca. Eu faço o caminho até a fartura antes mesmo da amolação chegar.

francisca croche

Francisca do Crochê

Glória Damasceno

É uma das, muitas!, pessoas que não está na deselegante lista das 100 personalidades mais influentes do mundo, segundo a Forbes. Outro dia sonhou que era esposa do Jon Bon Jovi e acredita que isso é prenúncio para essa vida, ou para a próxima. Sabe-se lá. Escreve também, quando quer, no blog Apenas uma Fresta.

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Independente de onde venho ou para onde vou, ela sempre está lá. Sentada no banco da padaria, ao lado da inseparável bengala, fazendo crochê, acompanhando com os olhos dezenas de gente passar e a vida também. Às vezes, quando vou comprar pão, deixo um “boa tarde!” com ela. Dona Francisca, por sua vez, deseja-me igualmente uma tarde boa. Mesmo ela me desejando um final do dia bastante afável, acabo sempre em estado de melancolia.

Outro dia a encontrei no ponto de ônibus. Ia ao médico. Sozinha. Perguntei se não tinha alguém para acompanhá-la. Dona Francisca respondeu que a filha era muito ocupada. No mundo, era só Chica, Deus e a solidão.

Nascida em Matriz do Camaragibe, município situado ao leste de Alagoas, faz mais de 30 anos que se mudou para Maceió. Veio morar na capital alagoana por intermédio da irmã, que tinha uma pensão na Rua do Sol, Centro de Maceió. Morou com ela durante 15 anos, até a vida lhe arrancar mais esse elo.

“Derradeira” de uma leva de quatro irmãs, a aposentada diz com a lágrima escorrendo pelos cantos das palavras que só sobrou ela “pra sofrer no mundo”.

Mãe de quatro filhos, ela tem duas netas: Jaqueline, 12, e Ana Quíria, 6. A Francisca que aprendeu a fazer crochê aos sete anos de idade, e graças a esse dom espantava todo mundo por tamanha habilidade, só estudou até o 4º ano. Dos filhos de Dona Francisca, restou apenas a mãe das suas netas.

A arte do crochê aprendeu com a tia. “Quando ela saía, eu desfazia os pontos. Um dia ela me deu uns cascudos, me colocou num canto e disse que da mesma forma que aprendi a desfazer, aprenderia a fazer”, rememorou ela, sem disfarçar saudade. No tempo de Dona Francisca, não tinha colégio na sua cidade natal, Matriz do Camaragibe. Mas se tivesse, teria se formado “para professora”. Me garantiu.

Baixinha dos olhos claros, sempre que pode reforça o desejo de viver num pensionato ou asilo para idosos. Não sabe direito onde fica o Abrigo Luisa de Marilac, onde ela sonha morar. A única coisa que Dona Francisca sabe é que no Luisa de Marilac até festejam o aniversário dos idosos, além de que seria um bom lugar para tecer os últimos dias de vida.

Morrer parece ser o segundo desejo de Francisca, depois de fazer do Asilo seu derradeiro lugar no mundo. “Eu acho lindo quando dizem que fulano de tal morreu. Quando eu morrer, vou de gosto e vontade”, desata, numa mistura de amargor e tristeza infinita por sentir que já viveu demais, enquanto os olhos se perdem na imagem fria e entardecida da rua. Eu me arrepio.

O crochê tem sido a salvação. O ponto de intersecção com o colorido dos dias. Tricota roupa, saia, “vestido de criança”, “chapéu de gente grande”, “toalha pra mesa de comer”, mochila, cocha de casal. “Mês passado entreguei uma. Tem até uma cocha encomendada por um rapaz solteirão”, conta meio surpresa. Pergunto se ele é solteiro mesmo ou disse ser apenas para abater o preço. “Bom, ele diz que é, né?!”, a gente ri da minha desconfiança tola.

Ela gosta muito de passear. Admite que é “andeira”. E tem mesmo que ser, apesar de uma atrofia no pé esquerdo. Quando menina, dona Francisca teve paralisia infantil. Agora, depois de velha, sofreu um derrame. “O médico disse que se eu não andar, vou parar numa cadeira de rodas, mas Deus não quer isso”, afirma Chica, crente na vontade divina.

A senhora do tricotado passa a maior parte do tempo sozinha. “Minha filha tem os problemas dela pra resolver”. O preço dessa vida tão corrida, quem quita ao final de cada dia, é dona Francisca. Ela já perdeu quase tudo e quase tudo na vida é pai, mãe, irmãs e o marido. Quando conheceu o pai de sua filha, ela já tinha 40 anos. “Donzela honrada, virgem”. Ri, sem demonstrar acanhamento por conta daquela condição.

O marido tinha lá seus 60 anos de idade quando se conheceram. Até aposentado era. “Fui dá um passeio na casa da Tia Júlia no Rio de Janeiro, quando cheguei lá, eu gostei dele, ele gostou de mim e vivemos 15 anos juntos só”. O companheiro de Francisca partiu cedo demais. Não deu tempo de completar sequer as Bodas de Crochê.

“Antes tivesse ido eu. Ele era meu pai, minha mãe. Tudo pra mim!”, lamenta. “Eu tô aqui vivendo, já devia ter indo mimbora pra lá- pro cemitério. Não tô fazendo nada aqui, se não fosse esse crochê”, chora como se isso fosse a única coisa que ela podia fazer por ela mesma àquela altura do tricô.

Já passava da tardinha quando Jandira Cavalcante, 70, aparece em cena trazendo consigo uma boa notícia. Na última segunda-feira, dia 9, Francisca teria uma entrevista no Abrigo Luisa Marilac. A filha da ex-funcionária pública contribui há mais de 5 anos com o abrigo. Me ocorreu, naquele instante, que se passassem mais uns dias eu teria perdido a chance de conhecer os pontos que tecem a vida daquela mulher. Fiquei feliz por vê-la sorrir com a mesma vontade que diz não querer mais viver.

Jandira mora nas proximidades, assim como eu; e reclama do abandono em que vive dona Francisca. Disse já ter tentado falar com a filha dela, mas nunca a encontra em casa. Disse, inclusive, que Dona Francisca já caiu da escada duas vezes. Ela mora no segundo andar. Diante disso, resolveu ajudar a senhorinha dos tricores a realizar esse que parece ser seu último pedido.

– “Dona Francisca, o que sua filha diz sobre isso? Ela quer que a senhora vá?”, indago.

– “Não, ela é do contra. Mas eu sou a mãe dela, ela é minha filha. Quem manda nela sou eu. Filho não me governa, só Deus!”, responde altiva. “Se eu não gostar, saio.”

Vaidosa, as orelhas nunca ficaram despidas dos brincos bonitos. “Minha irmã mais velha que me deu e colocou há 40 anos… Quando eu morrer é da Ana!”. Ana é a neta mais nova de Dona Francisca. É esse o tipo de lembrança que ela quer deixar para a menina: duradoura e resistente ao tempo, como os brincos cobertos de afeto e que um dia serão de Ana.

A escuridão da noite já era pano de fundo pra nossa conversa. As luzes agora eram de padaria. O tempo de relógio já anunciava que era hora de Dona Francisca entrar e assistir as “notícias da Globo”. A neta mais nova brinca com a toca no cabelo grisalho da avó.

Antes de nos despedirmos, assegura não amargurar nenhum arrependimento. “Tudo que fiz foi bom”.

Ela elogia meu nome. Revelo que é uma homenagem de minha mãe a minha bisavó. Chica achou bonito esse gesto. Roga aos céus que ele me abençoe e me promete que amanhã mesmo comprará uma linha só para fazer uma lembrança de crochê para mim. Qualquer cor menos branca, pontua. “Porque suja muito” e já bastam as nódoas que a tessitura da vida deixa no tecido-pele da gente. “Não sei o que vou fazer ainda pra você, mas vou”, me garante.

Agradeço antecipadamente pelo presente. Não sabe ela que já havia me regalado em quase duas horas de Francisca, que chora no banco da vida como se fosse um bordado desfeito ou cozido de pontos quebrados.

São muitos os desalinhos naquele tricô. Talvez, segunda-feira seja um dia de bordar contentamento. Eu fui embora torcendo para que ao menos esse ponto seja inteiro.