Vidas Anônimas

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Uma Vila, várias vidas, um lar

Elayne Pontual

Idealizou o Vidas Anônimas porque acredita que as histórias mais extraordinárias ainda não foram contadas e que as pessoas mais incríveis nunca foram ouvidas.

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É o que sonhamos e desejamos
Nessa construção:
Ser seu habitante já no anteprojeto
Pois da casa somos a matéria-prima
O operário humilde e seu arquiteto.
|Gonzaga Leão|

Era sexta-feira e a tarde estava quente, meio agitada. Com o sol inflamando o juízo, desci na praça da Liberdade, em frente à Vila dos Pescadores, no bairro de Jaraguá. Por todo o lado se viam cartazes, tambores e faixas de tecido. Professores, estudantes e moradores da Vila se organizavam para iniciar o segundo ato popular em apoio à permanência da comunidade de pescadores naquele ponto da cidade.

Eu, por minha vez, estava ali para conversar com meu segundo personagem para o Especial deste blog. Naquele momento, já tinha um nome em mente: Josivan Bezerra de Azevedo, um carpinteiro naval, morador da Vila e responsável pela construção de diversas embarcações ancoradas na Praia da Avenida. Para encontrar a casa de Josivan, precisei da ajuda de uma das moradoras que, prontamente, me guiou Vila adentro.

No caminho, vi crianças brincando e catando os piolhos de seus irmãos. Os cachorros nos espiavam curiosos e alguns moradores conversavam nas portas. Em meio aos esgotos abertos como feridas, por algum motivo, aquelas pessoas pareciam realmente felizes. Talvez por conta do dia ensolarado ou simplesmente por terem umas às outras. Não sei.

Enquanto matutava sobre a vida que desconheço, a senhora com lenço sufocando os cabelos – admito não recordar seu nome –, conduzia-me cumprimentando a todos que cruzavam nosso caminho. “É aqui”, situou-me apontando uma casa bem arrumada em relação à maioria dos lares da Vila. Agradeci a gentileza e nos despedimos.

Josivan abriu a porta com cara de sono – estava cochilando na sala. Apresentei-me e perguntei se ele aceitaria conversar sobre como é seu dia a dia na Vila. Apesar de parecer um pouco tímido, ele topou de imediato, convidando-me a entrar. Quando passei da porta, a primeira coisa que me saltou aos olhos foi Branca, a gata parideira. Já em sua terceira cria, Branca amamentava os filhotes enquanto olhava para mim com seus olhos azuis e muito desconfiados.

– Ela é uma boa mãe. É carinhosa e cuidadosa – afirma Josivan, ao perceber minha troca de olhares com Branca.

Aproveito o assunto “maternidade” e pergunto se ele tem filhos. “Um, apenas”, responde com os olhos cintilando. “Seu nome é Isac e ele tem seis anos”, completa. Apesar de Isac ser seu primeiro e único filho, Josivan, aos 47 anos, já está no 10º casamento.

– Mas só casei no papel mesmo três vezes e a quarta será agora. Eu não gosto de estar só. É bom ter sempre uma companheira… Melhor do que viver só com gato – direciona o olhar para Branca, que devolve com antipatia.

Josivan mora na Vila desde seus 22 anos. Mas começou a frequentar a comunidade pesqueira aos onze, para trabalhar com carpintaria e pesca. Ele aprendeu a construir barcos com o falecido José Calisto, irmão de seu pai. Na Vila, moram outros homens que trabalham com carpintaria, como Josafá, Pedro e o Galego.

– Aqui não existe concorrência. Se precisar, um ajuda ao outro. Empresta ferramenta, dá um pedaço de madeira, qualquer coisa.

O dia de Josivan é de trabalho, mas a noite é reservada ao culto na Assembleia de Deus, localizada no bairro do Verde, próximo à Vila de Jaraguá. Betânia, sua atual esposa, também é evangélica.

Até então, Josivan se mostrou um homem de poucas palavras, mas quando pergunto se ele gosta de morar na Vila, a resposta é longa e cheia questionamentos:

– Pra gente [carpinteiros] é muito melhor morar aqui. Se sairmos daqui, como iremos trabalhar? Eu vou levar uma embarcação dessa como? – aponta para um barco recém montado. Como vou construir barcos em outro lugar? A gente aqui tem controle quando, por exemplo, é maré alta… recuamos as embarcações e ficamos de olho.

Apesar de tantas indagações e preocupações, na Vila, Josivan é um privilegiado. A porta de entrada de sua morada fica em frente à praia. Dali, ele pode espreitar o que acontece no mar e observar, por exemplo, os barcos que repousam na água mansa ou agitada, a depender do tempo que faz.

A casa do carpinteiro é dividida em três cômodos. A porta é de madeira e as paredes, nuas, mostram seus tijolos. Josivan tem também sua própria oficina, anexada à residência. Tijolo por tijolo, ele fez florescer, mais que um abrigo, um lar.

Ali, o carpinteiro construiu não só paredes, mas também relações, vínculos, lembranças. O cheiro de madeira e maresia, o lado preferido da cama, a luz que entra pela fresta da porta, tudo isso faz parte do que ele chama de “casa”. Cada cantinho tem seus jeitos e trejeitos. Josivan é teto, paredes e chão. Para ele, aquela casa abre as portas como quem abre os braços para receber a pessoa que se ama.

Os móveis são organizados a sua maneira. Na sala, uma mesa, algumas cadeiras e a cama da Branca, a gata. Cada coisa em seu canto, em seu lugar. Lá ele caminha livremente, até mesmo de olhos fechados, se for preciso.

Ao observar essa relação entre homem e casa, encontrei então uma resposta para as perguntas que havia feito alguns momentos atrás, enquanto a senhora de lenço me guiava até a casa de Josivan: aquelas pessoas não parecem felizes, elas são felizes. E são simplesmente por terem um lar, mesmo que a fome seja a argamassa ou que as janelas não tenham cortinas.

Ao sair da Vila, o sol já beijava o horizonte, apaziguando o calor. Com mais calma e já com saudades, então pude perceber. Os moradores da Vila realmente vivem, sentem e amam aquele lugar. Eles são a Vila e por isso a Vila é a morada deles.

Nunca me esquecerei de Josivan, Mané Bandeira, Valdomiro, Marina, as irmãs Francineide e Francinete, a marisqueira Mariluse, como também Fabiana, Vilma, Bob, além dos cachorros Negão e Paloma e os gatos Galego, Filó e Branca. Sempre que o acaso me levar àquele pedaço de Maceió, lembrarei de cada um deles e espero encontrá-los não apenas nas lembranças, mas em forma sólida, palpável.

Agora sinto como se todos, de alguma maneira, fizessem moradia não só na Vila, mas também em mim.

 

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Sobre o Especial Vila dos Pescadores, veja também: 

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Senhora do Mar

Ana Cecília da Silva

Ela não sabe chutar uma bola e era sempre eliminada nas olimpíadas de matemática na escola. O destino a fez jornalista, afinal a única coisa que sabe fazer bem é contar histórias. Ela podia estar fazendo terapia para se tornar uma pessoa melhor, mas escolheu o jornalismo como divã para as aventuras e desventuras da vida. Ana Cecília escreve também no jornalistaeprafalarmal.blogspot.com.br.

Últimos textos de Ana Cecília da Silva (veja todos)

Ao atravessar a rua e entrar na Vila já posso ouvir as crianças correndo por todos os lados. São risos e gritos de felicidade. Alguns homens conversam no bar e as mulheres separam o camarão que acabou de chegar da pesca.

Ela está sentada na porta do seu barraco, com um avental sujo e olhar perdido, como se pensasse em alguma coisa que a levasse para distante. Os cabelos brancos não deixam mentir sua idade e todas as lutas que travou para chegar até ali.

Com 66 anos nos ombros já cansados, Mariluse Alves dos Santos, marisqueira desde os 10, abre um sorriso quando me aproximo e se oferece para compartilhar comigo um pouco de sua história, que se mistura à história da Vila dos Pescadores, morada de seu coração.

Para ela, a Vila é fonte de sentimentos contraditórios, amor e medo. O embate com a municipalidade tem lhe tirado o sono, pois não sabe quando terá que sair do lugar onde criou laços e raízes que não podem ser desfeitos.

Há 56 anos na Vila, Mariluse, filha de mãe marisqueira e pai estivador, conta que desde cedo aprendeu o ofício da mãe, que perdeu de forma prematura, aos 10 anos de idade.  Aos 14 anos, sem rumo, resolveu casar e construir sua própria família. Diógenes, seu ex-marido, lhe deu 10 filhos e 30 netos.

O amor não foi suficiente para manter o casal junto quando as dificuldades começaram a aparecer. “Eu sempre trabalhei com peixe e camarão e foi com isso que criei meus filhos. Meu ex-marido não queria trabalhar, só queria ficar em casa de vida boa e eu não sou mulher disso, não contei conversa e me separei. Vivo até hoje sozinha e sou feliz assim”.

Todos os dias, Mariluse sai às 3 horas da manhã para o mercado do Jacintinho, onde vende seus produtos. Às 13 horas, volta para casa. “Ontem vendi 150 quilos de camarão”, conta orgulhosa. Foi com o pescado que conseguiu criar os filhos. Todos seguiram seus passos, sendo pescadores e marisqueiras. Nesse momento, ela se lembra do filho caçula, que aos 23 anos ficou paraplégico depois de ter ingerido veneno.

A senhora do mar conta, com tristeza, o episódio. “Ele ficou assim, porque três meninos daqui colocaram veneno na bebida dele. Os nervos dele encolheram, quase morre, passou três meses em coma. Já foi desenganado pelos médicos, mas o céu não me enganou. Deus trouxe meu filho de volta”, disse com um brilho de esperança nos olhos.

Graças à fisioterapia, o filho de Mariluse já consegue comer, falar e sentar. Sobre os rapazes que praticaram o ato, ela prefere não falar em vingança, por maior que seja sua dor. “Um deles foi assassinado, o outro está preso e o terceiro não sei onde anda. A vida está se encarregando de mostrar para eles que o mal que fizeram um dia volta”.

Enquanto conversávamos, um rapaz nos observava encostado na parede. Era Naldo, um morador da Vila. Mariluse conta que Naldo, aos 26 anos de idade, não tinha documentos, apenas há alguns dias havia tirado sua carteira de identidade. Perguntei como eles faziam para saber da idade. “Um bocado de gente não sabe a idade, nem tem documento. A gente só sabe quando viu nascer. Fora isso, apenas deduzimos”.

Mariluse não conseguiu terminar os estudos, pois a pesca ocupava todo o seu tempo, mas garante que tudo que sabe hoje aprendeu sozinha. Lê algumas coisas, faz conta das embarcações, calcula preços e conhece seus direitos e os da coletividade como ninguém. A senhora do mar confessa que já passou por muita discriminação por ser marisqueira, moradora da Vila dos Pescadores e analfabeta, mas reforça também que nunca baixou a cabeça para ninguém, adquirindo respeito dos moradores da comunidade. Em 2001 e 2007 foi presidente da Colônia dos Pescadores de Jaraguá.

“No dia em que o ministro da pesca veio pra cidade fui chamada para representar a colônia. Conheço governador, secretário, trabalho com tudo. Disseram que eu não podia fazer nada porque não sabia ler, mas provei que tenho mais conhecimento que muita gente”, conta.

Sobre a possível mudança de local, Mariluse diz se sentir um peixe fora d’água, pois o trabalho dela é ali, junto com seu povo e suas raízes. O trabalho da pesca é dividido em dois turnos, um pela manhã e outro pela madrugada. A marisqueira questiona como eles vão guardar suas embarcações e materiais de trabalho de maneira segura.

“Não temos sono pra dormir e fome pra comer. Dia e noite só pensamos nisso. Eu fui contemplada com um apartamento, mas meus filhos não. E é neles que eu penso, assim como penso nos filhos de todos daqui”.

Com a voz embargada, a senhora do mar confessa que muitos ali não têm mais família e que os outros moradores da Vila são seu sustento afetivo, o fio invisível que os liga a um sentimento muito próximo daquilo que é chamado de afeto. O sofrimento dos outros é o seu sofrimento. Ela tem medo do amanhã, como nunca teve antes.

Mariluse, forte como um timoneiro, não se entrega e garante que, enquanto houver vida pulsando em suas veias, não deixará que morra dentro dela a compaixão e a solidariedade com que ela se dedica a seu povo e suas raízes. “O ser humano tem que pensar no bem comum, pois só assim pode ser chamado de humano”.

Sobre o Especial Vila dos Pescadores, veja também: 

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