Vidas Anônimas

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Cineasta do sexo

Francisco Ribeiro

É jornalista. E-mail: chicoribeiro@msn.com

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Anivaldo Luiz da Silva, 37, é um rosto conhecido por todos que cruzam diariamente pela Rua das Árvores, no Centro de Maceió, onde trabalha. Entre as dezenas de vendedores autônomos que disputam com seus carrinhos um espaço na movimentada rua, Anivaldo, conhecido como Lobão, já detém um território cativo.

Lobão ganhou notoriedade após ser o pioneiro em investir no comércio erótico autoral na capital. Em 2004, ele teve a ideia de dar início a uma produção independente de vídeos pornôs. Sem apoio ou patrocínio, o músico já conseguiu rodar nove filmes.

“Estava em busca de um projeto que tivesse satisfação de tocar, empreender, em paralelo com a minha banda. Até que um dia, folheando uma revistinha pornô me questionei: Será que o vídeo teria mais aceitação? Visitei algumas videolocadoras para fazer uma pesquisa e me deparei com uma produção amadora. Pensei que essa opção seria possível para minhas condições, estrutura”, lembra.

Para realizar seu primeiro filme, Anivaldo contou com a colaboração de um amigo. Após enfrentar certa resistência de profissionais para atuarem na produção, a equipe gravou todo o material em um único dia. “A primeira gravação não ficou boa e tivemos que refazê-la. Foi daí que nasceram o Pânico nas Xoxotinhas Alagoanas e o Bimbadinhas de Maceió”.

Com o material em mãos, buscou vendê-lo nas videolocadoras. “Mas elas estavam começando a sofrer com a questão da pirataria. Então algum tempo depois foram praticamente extintas. Também não tinha o capital inicial para reproduzir mil cópias com capa, tudo certinho. E acabei usando o meu computador para fazer as cópias e comecei vendendo por conta própria”.

A solução para comercializar seus vídeos foi improvisar um ponto de vendas no Centro capital e na Praça Guedes de Miranda, periferia da Levada. Anivaldo imprimiu dois cartazes com a frase “Filme pornô alagoano aqui”, e os colou em sua mobilete vermelha. Apesar da simplicidade, a iniciativa deu certo.

As produções, que custaram entre R$ 300 a R$ 400, logo foram reembolsadas. Segundo ele, os DVDs vendidos a R$ 4, tem uma grande procura. “Há dias que vendo todo o estoque”, assegura.

A BOA E A MÁ FAMA
Em 2006, um cineasta veio à Maceió para rodar seu mais recente filme erótico, o Loucuras no Nordeste. O diretor usou como locação para suas filmagens um ônibus, em plena luz do dia. As pessoas dos outros automóveis que perceberam a movimentação dentro do transporte coletivo espalharam o boato de que o já famoso Lobão era quem estava à frente do projeto. “Levei a boa e a má fama”.

“Eu respeito à produção, mas é um formato que não se encaixa na forma de trabalhar. Pois pode envolver pessoas que não têm nada a ver. É um atentado ao pudor. Um formato que eu não trabalharia e nem trabalharei. Os meus filmes são em ambientes fechados para só envolver quem está trabalhando”, comenta.

Outro episódio foi a sua inesperada participação no extinto programa Agora é Tarde, da Band, e apresentado na época pelo humorista Danilo Gentili.

“No início de 2012, fui para São Paulo e tive a ideia de me inscrever no site do programa para integrar a plateia. Fui aceito e pensei: ‘Na plateia vou ficar perto dos produtores e tal. É a minha chance’. Como senti um ambiente propício a ousar divulgar o meu trabalho, entreguei uma cópia dos meus vídeos a um produtor que a encaminhou para o Gentili. Aí ele me chamou para dar uma entrevista. O resultado está no Youtube, basta procurar ‘Danilo Gentili bate um papo com um vendedor de filme pornô’. A repercussão da entrevista foi bastante positiva. Eu colho os frutos até hoje”.

LUZ, CÂMERA E AÇÃO
“Meus vídeos são um namoro filmado”. É dessa forma como Lobão se refere ao processo de produção dos seus filmes eróticos. “É um negócio tão simples. Às vezes elaboro uma historinha ou os atores se guiam por um tema”, diz.

“A ideia surge de repente. O que importa é que seja engraçada. Isso você pode ver nos títulos dos meus filmes, que provocam mais o riso nas pessoas do que a excitação. Na hora da gravação, eu digo apenas: ‘Pessoal, nós vamos seguir essa ideia aqui’. Mas nem sempre rola, aí tenho que dizer: ‘Não se preocupem. Fiquem à vontade, namorem aí, que eu vou filmar e pronto’. Foram poucos os filmes que eu consegui seguir o roteiro”.

Com o aparecimento das câmeras digitais e a popularização dos celulares que gravam vídeos, o valor gasto para realização dos seus filmes diminuiu significativamente.“Esses equipamentos são melhores do que um equipamento profissional. Os últimos trabalhos (Pânico nas Xoxotinhas Alagoanas 3 e Anal total) foram rodados com uma câmera fotográfica”.

As estrelas pornôs de seus filmes são, na maioria, profissionais do sexo e até mesmo casais voluntários. “Alguns namorados chegam junto de mim e dizem que desejam atuar nos meus vídeos”.

No currículo, Lobão também traz o primeiro pornô gay masculino produzido em Alagoas. “O Senhor dos Anéis é só com rapazes. Esse deu um resultado bastante competente”, ressalta.

Sobre as novas produções, o cineasta do sexo afirma que pretende investir mais na qualidade. “Quero que tenham mais erotismo. Nos filmes que eu já fiz, há muito sexo explicito. Nos próximos irei tentar dosar mais isso, para que tenha uma história melhor, que envolva mais o espectador”.

POR TRÁS DAS CÂMERAS
Morador ilustre da Brejal, comunidade carente da Ponta Grossa, Lobão, na verdade, ainda espera que a sua carreira de músico ganhe mais projeção. Formada em 1996, a banda Cheiro de Calcinha, na qual é o vocalista, tornou-se conhecida pelas letras irreverentes, que misturam rock e humor. Nos primeiros anos, ele conciliava os ensaios do grupo musical com os estudos, pois almejava prestar o vestibular para o curso de Filosofia, na Universidade Federal de Alagoas (Ufal).

O apelido veio quando Anivaldo ainda era adolescente, após assistir pela tevê uma das edições do festival Rock in Rio. Fã do músico carioca Lobão, que se apresentou no evento, ele deixou o cabelo crescer. Isso o deixou fisicamente muito parecido com o artista. Mas, Anivaldo confessa que, no início, não aprovava tal comparação: “Eu não gostava que me chamassem assim, mas isso só piorou a situação. Me apelidaram também de Prince. Mas o que pegou mesmo foi Lobão.”

Com o propósito de atingir um público maior e industrializar o material que produzia, criou a empresa Lobão Produções. “O advogado do roqueiro soube e me enviou uma carta pedindo que eu não usasse mais o nome. Desde então, uso só Lobo.”

DO CINEMA À POLÍTICA
Atento aos problemas sociais do bairro onde reside, Anivaldo decidiu se filiar ao Partido Socialista Brasileiro (PSB), em 2004. “Um grande amigo meu foi quem me apresentou a juventude do partido. A partir daí surgiu um interesse ainda maior de fazer parte da luta”, diz.

Lobão chamou mais uma vez a atenção da população alagoana, após aparecer no horário eleitoral concorrendo ao cargo de Deputado Estadual, em 2010. Com apenas R$ 1 mil de verba para financiar a campanha, teve um resultado expressivo nas urnas: 2.115 votos. Já em sua segunda eleição, para vereador, em 2012, obteve 3.759. “Não atingi o número suficiente para me eleger, mas hoje sou o segundo suplente da minha coligação”.

Entre as suas propostas, estão a melhoria da infraestrutura dos mercados e feiras livres, e a organização dos pontos de ônibus da Rua do Comércio, no centro da cidade. “E eu não vou parar por aí. Tenho outros projetos tanto na política como música e no cinema para serem desenvolvidos”, garante Lobão, que já é considerado por muitos como “uma lenda viva” de Maceió.

Matéria publicada no jornal O Dia Alagoas, em abril de 2013.

Foto: Jonathan Lins.

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O Picadeiro de Peró

Ana Cecília da Silva

Ela não sabe chutar uma bola e era sempre eliminada nas olimpíadas de matemática na escola. O destino a fez jornalista, afinal a única coisa que sabe fazer bem é contar histórias. Ela podia estar fazendo terapia para se tornar uma pessoa melhor, mas escolheu o jornalismo como divã para as aventuras e desventuras da vida. Ana Cecília escreve também no jornalistaeprafalarmal.blogspot.com.br.

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A estrutura e os cenários são improvisados. O chão é de pedra e o palco é um tapete vermelho desgastado pelo tempo. A luz do sol é sua ribalta, que ilumina os sonhos de criança todas as segundas e quartas feiras. No fim, o espaço era o que menos importava diante do brilho nos olhos das crianças e adolescentes recém-apresentados às artes cênicas.

Em seu “picadeiro” estava ela, Peronilda Batista de Andrade, a idealizadora da ONG Sua majestade, o circo, que trouxe às crianças da Vila Emater II a possibilidade de enxergar outros caminhos. Peró, como gosta de ser chamada, já atravessou 61 primaveras e 15 delas foram dedicadas a seu projeto.

Natural de Maceió, Peró já morou no Rio de Janeiro, no Peru e em Belo Horizonte, onde fez escola de artes plásticas. Formada em Teatro pela Universidade Federal de Alagoas, ela nunca pensou em se aproximar do circo, até que conheceu o ator global Marcos Frota. Marcos a convidou para ser produtora de seu espetáculo Grande Circo Popular do Brasil. Ela iria produzir cenários, figurinos e dirigir o espetáculo por 15 dias, que se transformaram em 15 anos sem que Peró percebesse.

O circo de Marcos Frota estava em uma turnê no estado do Maranhão quando Peró recebeu um telefonema que mudaria sua vida. Do outro lado da linha, alguém anunciava que o Cirque Du Soleil viria para o Brasil e que precisava de voluntários para participar de um projeto de circo social chamado Jovens do Mundo. Era a chance de sua vida, mas antes de se atirar nessa nova oportunidade ela precisava resolver algumas questões.

“Eu fiquei preocupada com meus filhos, Pablo tinha 12 anos e Rafael 4, que mora com o pai, e eu me preocupava com os estudos deles, mas Pablo me apoiou e disse que eu não me preocupasse, que corresse atrás do meu sonho”, conta.

Peró deixou tudo para trás, inclusive seu trabalho com Marcos Frota. O projeto Jovens no Mundo ficou na cidade de Recife onde Peró passou dois meses trabalhando como voluntária no circo social, conceito que ela nunca tinha ouvido falar antes, mas que agora sabia que essa era a resposta para o anseio que há muito tempo tinha, o de conseguir transformar vidas através da arte. “Apesar do pouco tempo que passei lá, aprendi muito e hoje posso ajudar jovens a trilhar caminhos melhores para suas vidas”, conta.

O projeto veio para Maceió, mas não teve o apoio e incentivo governamental que precisava para permanecer na capital alagoana. Quando o projeto acabou na cidade, Peró não sabia o que fazer para continuar transmitindo conhecimento para os meninos que tanto precisavam de iniciativas como aquelas. Foi aí, reunindo muita coragem decidiu que fundaria sua primeira escola de circo, para ajudar as crianças carentes da região da Vila Emater II, antigo lixão de Maceió.

Desde 2000, a ONG desenvolve trabalhos de arte-educação, construindo cidadania e resgatando a cultura do circo na cidade. Peró resgata vidas esquecidas em meio ao lixo, dando a cada uma delas a possibilidade de sonhar e serem protagonistas de seu espetáculo.

“Através do lúdico mostramos que outro tipo de vida é possível, que o estudo é importante, pois não trabalhamos só com circo, mas também com música, dança, canto, além de desenvolver atividades como oficinas de leitura e matemática”, comemora.

Peró com os olhos marejados já se sente recompensada por ver aqueles meninos que ela educou e que anos atrás não tinham nenhuma perspectiva de vida. Alguns hoje são bons pais, mães, educadores, reconhecidos na vida profissional, elogiados e, sobretudo, devolvem para os mais jovens no projeto, por meio de trabalho voluntário, tudo aquilo que aprenderam.

Ela conta que no início,  o projeto já sofreu muito preconceito de pais e mães das crianças que achavam que circo era “coisa de veado e sapatão”, mas os frutos da ONG foram aos poucos dissolvendo o véu de preconceito que cegava esses olhos.

Peró garante que seu principal aprendizado ocorre diariamente com as histórias de vida das crianças assistidas pela Sua Majestade ,O Circo. “Esses meninos não reclamam da vida como nós, eles moram em uma região sem saneamento, de difícil acesso, sem médico e mesmo assim não reclamam de nada. eles são felizes e eu aprendo com eles isso diariamente.”

Quando vê aquelas crianças correndo e sorrindo debaixo das árvores, Peró se lembra de um passado distante onde seus filhos que tinham a mesma idade daqueles pequeninos. Hoje, Pablo, o mais velho, está com 33 anos e Rafael com 26 e que assim como a mãe, doam um pouco de seu tempo oferecendo sorrisos àquelas crianças que veem ali um pedaço do paraíso, onde era possível ser feliz. Pablo ensina informática e Rafael matemática. Peró se sente satisfeita por eles também representarem esse parêntese no mundo daqueles pequenos seres. “Eu ensinei que todos devemos dar um pouco do que temos para aqueles que não têm nada”.

Atualmente, Peró está afastada da ONG por problemas de saúde, mas não se preocupa com a direção da Sua Majestade, O Circo, pois confia nos meninos que formou e que participam do projeto desde pequenos.

Pergunto quem é Peró e ela faz questão de dizer que sua vida é dedicada à ONG, que há 15 anos abraça com a ternura e a garra que só os fortes têm.