Vidas Anônimas

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O tempo de Edvan Cupertino

Elayne Pontual

Idealizou o Vidas Anônimas porque acredita que as histórias mais extraordinárias ainda não foram contadas e que as pessoas mais incríveis nunca foram ouvidas.

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No centro de Maceió existe uma rua chamada Tibúrcio Valeriano, conhecida em outras épocas como Beco São José. Lá trabalha Edvan Cupertino, um homem esguio, de cabeleira esbranquiçada e dono de uma pequena relojoaria.

O proprietário simpático e a lojinha de número 265 destacam-se de tudo ao redor, apesar da simplicidade de ambos. Entrar na Relojoaria Movado é como voltar, pelo menos, 100 anos. Quase todos os ponteiros apontam horas romanas. A madeira maciça, envernizada e limpa, indica cuidado com o passado. Os cucos e pêndulos são silenciosos e as divisórias do estabelecimento são enfeitadas, como diria Mario Quintana, pelos mais ferozes animais domésticos: os relógios de parede.

É assim que Edvan Oliveira Cupertino passa seus dias: reparando as horas. Sua primeira instalação ficava próxima ao Edifício Brêda, também no Centro da cidade, mas se mudou para o Beco São José em 5 de janeiro de 1962, porque o antigo dono do estabelecimento, também relojoeiro – profissão considerada de alto escalão no Segundo Reinado – foi vencido pelas horas e morreu incapaz de consertar o tempo do mundo todo.

A rotina de Edvan Cupertino “se chama trabalho”, como ele mesmo costuma dizer. Chega às 6h para abrir as portas da lojinha e só fecha às 14h. Não abre mais cedo porque tem medo de assalto. “A violência tá tomando conta”, ele diz. Uma ótica que fica em frente à sua relojoaria, por exemplo, já foi assaltada duas vezes.

No segundo horário Edvan Cupertino vai para casa, mas não com a intenção de descansar. Contraditoriamente, ele tenta matar o tempo para poder manter-se vivo. No lar, dedica-se aos relógios de parede e só encerra os trabalhos a meia noite, às vezes uma hora da madrugada.

— Eu tenho 75 anos, mas não sou velho não. Eu sou novo. Eu corro, ando ligeiro… Sou um sujeito prevenido. Já fui operado quatro vezes, mas estou aqui ainda em forma. Espero viver, pelo menos, mais vinte anos.

Nasceu em 21 de maio de 1939, no Prado, mas mudou-se para bebedouro há 54 anos e de lá não saiu mais. Filho de Wangueth Oliveira Cupertino e José de Oliveira Araújo Cupertino, teve três irmãos, mas um deles morreu aos quatro anos, porque, segundo Edvan Cupertino, o pobre menino, inocente de seu destino, sentou sem preocupação alguma na calçada quente de sua casa.

— A calçada tava tão quente que ferveu meu irmão por dentro — recorda, em tom de lamúria.

Edvan Cupertino é bom com datas. Os dias marcados no calendário funcionam como relógios que empacaram no tempo, mas que, pelo menos uma vez por ano, fazem algum sentido. Lembra-se muito bem a data de seu matrimônio. Casou em 1959, com Maria José Cupertino. Maria tinha 15 anos e Edvan 19. Hoje deveriam ser pais de 11 filhos, mas perderam nove por conta de aborto natural. Os dois filhos sobreviventes são José Edvan Oliveira Cupertino, 54 anos, e Wangueth Oliveira Cupertino, 51 anos.

Um de seus três irmãos, que morreu há quatro meses por conta de um câncer na próstata, era relojoeiro e serviu de inspiração para Edvan Cupertino, que seguiu a profissão como quem segue seu melhor destino. As lições do irmão não foram suficientes e por isso ele teve que estudar à distância na Escola Universal do Relojoeiro, sediada no Rio de Janeiro, para aprender a mexer com o tempo de pulso e parede. A duração do curso foi de cinco meses, mas em um único mês Edvan Cupertino já sabia fazer o que muitos consertadores de relógio da época não conseguiam.

Passou a vida quase toda obtendo sustento com a venda e conserto de relógios, mas trabalhou também com serviços gerais numa firma instalada na Rua Boa Vista. Começou a exercer a profissão de relojoeiro em 1968. O primeiro medidor de tempo que pegou para consertar foi um fortíssimo automático, mas não sabia montar, nem desmontar. Na época, ele usava no próprio pulso um Cônis, adquirido com o salário de 22 cruzeiros.

— Eu era magrinho e ele parecia um prato no meu braço fino — lembra, achando graça.

Se pudesse, Edvan Cupertino seria um Rolex, considerado por ele o melhor relógio do mundo. Mas não pode ser, nem pode ter. O máximo que pode fazer de um relógio caro é consertá-lo e devolvê-lo para seu dono. O relojoeiro está concluindo o conserto de um Tempus Fugit que pesa seis quilos e será vendido pelo valor de 5 mil reais.

A Relojoaria Movado é morada de relógios mais velhos que Edvan. Seu relógio mais antigo é um de parede, preto, da marca Ansônia. Ele, com todo respeito e dedicação, faz e desfaz marcadores de tempo de cem anos. Manda buscar materiais de fora, pede a ajuda de seus melhores contatos profissionais e, finalmente, consegue fazer o que mais ama: rejuvenescer relógios. Edvan Cupertino renova o tempo, como quem reconstrói a si mesmo.

— Eu trabalho com Mirvaine, Montane, Hernavin, Rolex, Mido, Eterna Matic, todos relógios de classe. Trabalho também com o “omega”… Uns chamam “ômega”, mas na minha concepção o nome é o-m-e-g-a.

O sistema que usa para identificar o relógio e seu respectivo dono é um boleto timbrado com o nome da relojoaria, mas nem todos voltam para buscar. Os mais de 500 relógios abandonados ficam lá esperando o dia em que seus donos voltarão para tê-los novamente em seu domínio. Edvan Cupertino não vende, não dá de presente, nem leva para casa. Deixa-os ali, onde foram largados, alguns há mais de 40 anos.

Ironicamente, o que mais Edvan Cupertino sente, é saudades. Saudades da época em que os minutos não pareciam tão curtos, cabendo até mesmo nos bolsos. Fala nostalgicamente sobre um passado em que não existia tanta pressa. Deve ser mesmo tentador para um homem que conserta o tempo, dia e noite, não poder dominá-lo e fazer dos minutos o que bem entender.

— Eu não gosto do tempo, porque estou ficando velho. O relógio perfeito para mim seria aquele onde os ponteiros não giram sempre na mesma direção.

Mas na lojinha de número 265 os ponteiros continuam inertes e despreocupados, a maioria esperando pela cura de seus compassos monótonos, de repertório invariável, para continuar voando sempre em direção ao futuro. No íntimo, o relojoeiro sente vontade de romper todos os espelhos e libertar os ponteiros-pássaros de suas gaiolas mecânicas, deixando as horas voarem soltas, livres e perdidas. Quem sabe assim, todos poderiam viver o tempo da poesia, que não se mede em relógios.

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Acolhendo Vidas

Elayne Pontual

Idealizou o Vidas Anônimas porque acredita que as histórias mais extraordinárias ainda não foram contadas e que as pessoas mais incríveis nunca foram ouvidas.

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Neste exato momento, Maria sente frio num quarto de hospital, acompanhada apenas de seus 83 anos e das lembranças que a idade acumulou. Desolada, procura uma mão que a sustente quando a dor aperta, mas encontra apenas a aspereza dos lençóis. Ela só está em paz quando pensa na morte. Tão temida por algumas pessoas, a morte para ela é quase uma amiga. É sua verdadeira companheira.

Maria é uma personagem fictícia. Diria que ela é um espelho. Um espelho que reflete a vida de tantas outras Marias. Mulheres reais que, neste minuto, estão sendo abandonadas em hospitais e abrigos. Há também as Marias que são encontradas e acolhidas, como Dona Luzinete – resgatada no mercado da produção. E são porque existem pessoas como Cícera, Cleonice e Dilma que, movidas pela vontade de ajudar e pela capacidade de encarnar na pele do outro, uniram forças e fundaram um abrigo para acolher pessoas que precisam e que não podem contar com mais ninguém. 

Assim como o mundo abriga gente que escolhe abandonar, existem aquelas que decidem acolher. Cícera, Cleonice e Dilma decidiram acolher. E é através da voz de uma das acolhedoras que iremos contar esta história.

Cícera conta que tudo começou com um grupo de oração formado por 20 mulheres. Entre as 20, uma tinha câncer e foi curada do tumor após alguns encontros com as colegas. Durante as reuniões, era rotina pedir às forças divinas que trouxessem de volta a saúde de Dilma Pereira de Morgado Santos. Se foi pelo poder da fé e da amizade, não se sabe, mas a doença saiu do cenário deixando o sentimento de gratidão enraizado na xará da recém reeleita presidenta do Brasil que, assim como a Dilma alagoana, curou-se de um câncer.

Como forma de agradecimento, Dilma — a Santos, não a Rousseff — decidiu usar uma pequena casa para construir com as amigas Cícera Lisboa e Cleonice Bezerra Pimentel a entidade filantrópica Acolhimento Mãe das Graças, localizada no conjunto habitacional Village Campestre II, próxima a um canavial. No início a entidade era composta por dois cômodos e uma árvore. Hoje tem quartos maiores, banheiro, cozinha, jardim, sala de jantar e até mesmo uma capela.  Agora as amigas estão planejando um cantinho para que suas hóspedes possam praticar fisioterapia.

As mudanças na estrutura do local foram alcançadas com esforço. Foi necessário que as três abrissem mão de alguns bens para que conseguissem expandir a casa. Na época, Cícera tinha uma butique de roupas, e Dilma e Cleonice eram proprietárias de uma lojinha de aviamentos. Elas venderam tudo, pagaram suas dívidas e começaram o trabalho que há pouco mais de seis anos acolhe vidas abandonadas. Algumas vidas amparadas por elas permanecem aos seus cuidados desde o início, outras deram as mãos à morte e foram embora deixando saudades.

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Até hoje Cícera recorda cada segundo daquele momento, tão vivo quanto a sua vocação para a caridade. Era um dia feio, chuvoso, e quem chegava da rua vinha com lama subindo pelas canelas. Foi assim que um homem entrou na casa de acolhimento, molhado dos pés à cabeça, com os olhos arregalados e tão tempestuosos quanto o dia. Sem perder tempo com cumprimentos, o desconhecido manifestou os motivos para estar ali: “Olhe, dona Maria, eu tive no Frei e ele disse que lá era apenas pros homens e que aqui é pra mulher. Tome essa mulher que eu não quero vê-la nunca mais.” Entregou os documentos da irmã indesejada à Cícera, girou nos calcanhares, saiu pela porta e nunca mais voltou.

O porquê de o homem ter agido daquela forma, não se sabe. As possibilidades são tão numerosas quanto os pontinhos que iluminam o céu noturno. Cícera se questiona diariamente sobre os motivos e nunca encontrou respostas, por mais que as procurasse. “Aqui não há espaço para julgamentos, mas os porquês são bem-vindos”, pensa em voz alta.

92, 94, 101, 110. A idade das hóspedes varia, mas a maioria, com exceção de quatro, já não consegue contar as primaveras.  E o que esses quatro brotinhos estão fazendo no meio de tanta maturidade? “Estão descansando a mente”, é o que responde Cícera observando o movimento circular de uma de suas hóspedes portadora da juventude.

Descoberta pela imprensa, a menina que rodopia em seu próprio eixo se chama Sandra e foi encontrada amarrada por detrás da penitenciária masculina Baldomero Cavalcanti. Passado o tumulto, quando a garotinha amarrada já não servia mais como notícia, levaram-na para o Hospital Psiquiátrico Portugal Ramalho. “Ela foi amarrada pelo pai alcoólatra num coqueiro. Eles moravam numa barraca de lona. Quando ela chegou aqui não andava, se arrastava. Comia papel, mato e o que aparecesse, como um animal”, lamenta Cícera.

Foi nessas condições que Sandra Pereira atravessou as portas do Acolhimento Mãe das Graças. Uma pessoa que trabalhava no Portugal Ramalho, ia devolver a criança ao lugar em que foi encontrada e decidiu ligar para Cícera contando o caso. Apesar de ser voltada apenas para idosos, Sandra foi acolhida na entidade.

— A gente criava um cachorro aqui, daí a gente colocava comida pra ele e ela se arrastava até a vasilha pra comer a comida do cachorro. Quando alguém chegava na porta e ela via que era homem, ela se arrastava até lá e abaixava a calcinha — lembra Cícera.

Sandra fez 24 anos e sua grande companheira é uma boneca que ganhou de um dos visitantes da entidade. “Meus pais vêm me visitar?”, “Tem pipoca?”, “Quando vou ao dentista?”, “Que horas vamos passear?”, faz as mesmas perguntas duas ou três vezes seguidas, irritando constantemente as outras hóspedes que, no fastio da vida e na flor da pele, cutucam a menina com o que podem. Afinal, elas não entendem que a memória é curta para quem só apreciou uma paisagem durante muito tempo.

Outra hóspede acolhida pelas três amigas foi Tereza Barbosa, retratada por nós do Vidas Anônimas no texto A bela da Tarde. Cícera garante: “Aqui, todo mundo é bem-vindo, mas a nossa responsabilidade é muito grande. Não é fácil. Por sorte podemos contar com pessoas que conhecem e confiam em nosso trabalho. Elas ajudam bastante.”

Cícera, Cleonice e Dilma sentem como se estivessem nas entranhas de cada mulher abandonada no mundo e, por esse motivo, as três colhem essas vidas que foram jogadas como frutas em decomposição, impróprias para o consumo. Elas reconhecem, por trás de cada rosto enrugado, o valor inestimável da existência. Suas hóspedes têm a carne viva como prova de que ainda estão aqui. São lembranças, dor e vontade.

Algumas dessas vidas são encontradas num estado lamentável, fragilizadas não só pela falta de saúde ou de discernimento, mas pela ausência de família, de afago. Cheias de piolhos, violentadas sexualmente, sujas, elas rastejam debilitadas pela carência de ternura, porque foram anuladas antes mesmo de partirem. Antes do descanso eterno, enfrentam ainda o abandono que chega quando mal há forças para se manter em pé, e chega com tudo, sem pedir licença. Invade com brutalidade os minutos já tão raros, quem sabe os últimos minutos.

Mas Cícera e suas amigas estão determinadas:

— Nós não vamos parar e não vamos deixar de pedir por elas e por quem está precisando.

 


Deseja visitar o Acolhimento Mãe das Graças? A entidade fica na Rua Cristina Braga, Nº 49, Loteamento Cidade Universitária, Village Campestre II. Caso tenha interesse em ajudar com doações ou trabalhos voluntários, pode ligar para (82) 4141-4513 ou 8861-3979 (Cícera).

 

FOTO: Fecomércio/AL