Vidas Anônimas

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Entrevista: Uma prosa com Tainan

Elayne Pontual

Idealizou o Vidas Anônimas porque acredita que as histórias mais extraordinárias ainda não foram contadas e que as pessoas mais incríveis nunca foram ouvidas.

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Apesar de não ser fruto de um ambiente de leitura, Tainan Costa escolheu para a sua vida o caminho das letras. Hoje, com um pouco mais de trinta anos, é professor e escritor, mas só começou a ler e escrever após os oito anos de idade: “Ser analfabeto quando criança acabou me ajudando a ver o mundo pelos sentidos. Eu lia o mundo, não as palavras”, diz, citando Paulo Freire.

Ele conta que começou com Monteiro Lobato e, logo depois, devorou a enciclopédia Grandes Personagens da História Universal, onde teve contato com a biografia de figuras como Galileu Galilei, Goethe, Bismarck e tantos outros. Com o passar do tempo, foi conhecendo autores que ajudaram na sua formação, como Gabriel Garcia Márquez, Jorge Amado e Jorge de Lima.

Tainan é alagoano e cresceu nos bairros Ponta da Terra e Jatiúca. A primeira biblioteca frequentada por ele foi a do Sesc Poço e a primeira obra completa que leu foi a de Graciliano Ramos. “Li muito Manoel de Barros, agora estou relendo Graciliano Ramos. Interessante perceber como coisas lidas por mim aos 15 e 16 anos, hoje, parecem diferentes” reflete, acrescentado: “É natural que assim seja. Há livros para cada circunstância vivida.”

“A melhor professora que já conheci.” É assim que Tainan se lembra de Aurea Marinho, professora de Literatura presente em sua vida da 8ª série ao 1º ano do Ensino Médio. “Todo o crédito é dela. Não fui criado em um ambiente de leitores”, revela, lembrando o incentivo de Aurea para que ele continuasse escrevendo.

Um pássaro, uma pedra ou uma pessoa passando são exemplos de elementos que “inspiram” o autor. Por não considerar a escrita um produto daquilo que costumamos chamar de “inspiração”, Tainan prefere dizer que escreve com base em observações do cotidiano. “Sabe a visão da janela, a estupidez de um comentário preconceituoso, as infinitas pequenas coisas pelas quais a maioria passa sem parar e notar? É sobre elas que escrevo”, revela.

Criatividade

Foi dentro da atmosfera da liberdade e da vontade de ler e escrever que Tainan desenvolveu seus dotes literários. Não dá para saber se ele buscou a ficção ou se ela que foi ao seu encontro. Dessa forma, nada mais natural que, enquanto professor, ele procurasse incentivar a leitura falando sobre literatura, sem falar, necessariamente, de livros. E que, enquanto escritor, se utilizasse de várias possibilidades dentro do universo literário/poético para construir seu alento.

Em 2004, Tainan publicou seu primeiro livro de poesia, o DUO, em parceria com o também professor Beto Brito. O plano era que os dois reunissem seus escritos, editassem, diagramassem e revisassem com a ajuda de amigos. Quando tudo estava pronto, fizeram o projeto de divulgação e a festa de lançamento. “A inciativa do DUO me fez perceber o quanto é necessário sair do marasmo e publicar por si mesmo. Ainda que essa seja uma iniciativa de curto alcance (o DUO não existe mais em impresso)”, diz.

A partir dessa experiência, o escritor começou a nutrir o desejo de se tornar editor, abrir uma empresa e publicar com ISBN, fundando, assim, a Edições Canárias, por onde lançou seus dois livros: DUO e Açougue. Segundo Tainan, a ideia que originou o DUO foi a de tornar a poesia um remédio para “curar a insensibilidade”. Daí surgiu a expressão “poeticamento”.

Em 2007, o escritor participou do Alagoas em Cena, Programa de Incentivo à Cultura do Estado – do qual já havia participado em 2003 –, e ganhou cinco mil reais para a publicação de Açougue, seu segundo livro. Em 2012 Tainan se dedicou à elaboração de um projeto inédito, de poesia. Pode parecer estranho, mas o livro não seria composto por páginas, pelo menos não por aquelas com as quais estamos familiarizados.

Numa tentativa de retirar o poema do papel, Tainan resolveu escrever – e, logo após, fotografar – em várias partes dos corpos de outras pessoas, como cabeça, joelhos ou costas. “Trata-se de uma performance poética onde cada pessoa é uma página”, explica. Atualmente o “pelema” (pele+poema) tem 150 pessoas-páginas. “Um dia, quem sabe, publico”, diz.

Outro trabalho alternativo do escritor é a “poesia de copo e caixa”, um experimento com poesia visual produzido em parceria com a atriz Ivana Iza, sua esposa. O trabalho consiste numa instalação poética, na qual poemas são colocados em móbiles feitos com copos presos em caixas suspensas, iluminadas por dentro. Para ler os poemas, é preciso olhar o fundo dos copos e interagir com os móbiles. A poesia de copo e caixa já esteve exposta no aniversário do curso de Letras, na extinta Saudável Casa Subversiva, no Jaraguá, e na Semana de Artes da antiga Faculdade Esamc, hoje Maurício de Nassau.

O escritor ainda criou o Manual da Bigodagem, um way of life (modalidade comportamental desenvolvida no século 18 e praticada até hoje), que, segundo Tainan, é um misto de pilantragem, denúncia social, Corel Draw e cafonice. Para entender melhor o universo inventivo e enérgico de Tainan Costa, entrevistei o professor e escritor, que falou de literatura, da sua obra e da alegria de ser lido.

Primeiro, gostaria que você se apresentasse. Quem é Tainan Costa?

Eu gostaria de saber falar de mim em terceira pessoa e assim montar um retrato de mim mesmo, mas o Tainan é incapaz disso. O Tainan Costa Canário é escritor, ainda que não sobreviva unicamente de escrever. É o que ele acha que sabe fazer, até que se prove o contrário.

Para você, enquanto professor de interpretação textual, qual a melhor maneira de incentivar a leitura?

Essa é uma discussão instigante. Como fazer para que um aluno do ensino médio compreenda que Machado de Assis é um gênio? Explicar que Pelé era grande jogador ou que Dali era grande pintor é fácil, basta mostrar um vídeo. Difícil é transpor um aluno do segundo ano para a genialidade de Machado de Assis. A melhor maneira de fazer alguém gostar de livros é falar do conflito vivido na obra, da grandeza da trama, sem sequer citar o livro. Estranho? Ao que me consta, para fazer alguém gostar de barcos não é preciso construir um, mas falar da grandeza do ato de navegar, das aventuras e conflitos vividos no oceano. E no caso dos livros, o oceano é o universo do escritor.

Os pais costumam culpar a televisão, o consumismo, a escola ou a ineficiência dos professores, mas como você explicaria o comportamento daqueles que não gostam de ler?

Acho que as pessoas são construídas por hábitos. A rotina guarda em si certas virtudes. No hábito estão as virtudes e os vícios. Eu não gosto de fazer tricô, como muitos não gostam. Não tenho esse hábito. Não gostar de ler não qualifica ninguém como melhor ou pior pessoa. Também não acho que a atual geração é a que menos lê.

É preciso definir primeiro de que tipo de leitura nós estamos falando. É da leitura de romances? Da leitura dos clássicos? Nunca se leu tanto na história. Tudo que se faz na frente de um computador, por exemplo, é ler e escrever, interagir com textos, paratextos, hipertextos. Há uma revolução acontecendo no ato da leitura, assim como aconteceu no ato de ouvir música. Nós vivemos num país que tem grandes editoras, pipocam as bienais e as pessoas estão lendo muito, sim. Se o que elas leem é literatura, se possui qualidade, eu não sei. Mas que é falsa a ideia de que se lê pouco em comparação a outras épocas, isso é. Assim como também é falsa a ideia de que a tecnologia é inimiga dos livros.

O que você acha da afirmação de que “a leitura humaniza e aquele que não lê pode ser considerado rude”?

É o pseudo-status do ato de ler. Essa postura é bem aristocrática, diga-se de passagem. Depende da leitura, tanto forma quanto deforma. A leitura humaniza? A juventude alemã da década de 30 lia Minha Luta, de Adolf Hitler. Tornou-se mais humana por isso? Um terrorista islâmico lê o Corão antes de explodir uma creche judaica, alguns pastores praticam estelionato em rede nacional lendo belíssimas passagens da Bíblia sobre amor e caridade cristã. Definitivamente não creio que a função da leitura seja salvar o mundo ou as pessoas.

Quais livros você indicaria pra uma criança de 10 anos?

Alexandre e outros heróis, de Graciliano Ramos. O Menino do Dedo Verde, de Maurice Druon. E toda a obra do norueguês Josten Gaadner.

De que forma a leitura se faz presente em Alagoas e o que você acha da ausência de livrarias no Estado?

A leitura não se faz presente em Alagoas. Aqui livraria é banca de revista. Há o trabalho esporádico de gente boníssima, como Ricardo Cabús e Maria Luiza Russo, mas a verdade é que estamos décadas atrás de outros estados em propagação da leitura por qualquer veículo ou instituição oficial.

Você concorda que a leitura não é tirânica e defende o direito, por exemplo, de pular páginas?

Eu defendo o direito de rasgá-las, se necessário. Não tenho o menor apego à coisa-livro. O objeto em si, o cheiro das páginas, o amor tátil tão louvado, comigo não voga. Eu tenho rinite, cheirar livros me faz espirrar.

Você teria afirmado que participar de um projeto de alfabetização de jovens e adultos, o Sesc Ler, foi uma das experiências mais emocionantes da sua vida. Por que?

Fui à Palmeira dos Índios, onde pude ver pessoas aprendendo a ler com meus poemas. Isso foi grandioso. Nem sei se o projeto continua, mas ali vi o poder que a poesia tem enquanto instrumento didático. Meus textos sendo lidos em voz alta, por jovens e adultos em fase de aprendizado da leitura, que autor não acharia isso lindo?

 

*Entrevista publicada inicialmente no Blog Graciliano On-line.

FOTO: GLÓRIA DAMASCENO

Está escrito: Benedito Destemido e Zizi Cabocla

Glória Damasceno

É uma das, muitas!, pessoas que não está na deselegante lista das 100 personalidades mais influentes do mundo, segundo a Forbes. Outro dia sonhou que era esposa do Jon Bon Jovi e acredita que isso é prenúncio para essa vida, ou para a próxima. Sabe-se lá. Escreve também, quando quer, no blog Apenas uma Fresta.

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Em uma escala de 0 a 10 mandacarus, a probabilidade de eu avistá-los sentados na cadeira de balanço, sentindo o vento fresco do sertão no rosto, é de nove. Maria Ezequiel Santana (94) e Benedito Geraldo da Silva (84) passam a maior parte do tempo emoldurando a paisagem interiorana do Caboclo, povoado do município de São José da Tapera, no alto Sertão de Alagoas. Eu sempre os encontro com os olhos, quando meu final de semana é visita aos meus avós, e meu lugar é no banco do carona.

Dona Zizi, como todo mundo a conhece no povoado onde mora há 7 anos, está sempre com uma fralda atando os cabelos e com um vestidinho florido, apoiando a ociosidade e os pés no chão. É filha de um “magote” de irmãos. Acredita que tudo está marcado por Deus, como coisa de destino: está escrito na eternidade dos céus e da terra seca do Sertão.

É de costume ver Seu Benedito bem à vontade, sem camisa e de bermuda, tendo apenas sobre o peito um colar com a imagem de uma santa e outro colar verde-limão. Dos 5 irmãos, é o único vivo, para alegria não confessa de Dona Zizi.

Zizi aparenta não ter muita intimidade com a paciência e com a doçura. Com ela, a resposta é na “moringa”. Sem delongas ou polvilho de rapadura. Sobre esses aspectos da personalidade de Dona Zizi, Seu Geraldo ri. Ri de tudo. Parece achar linda toda a “brabeza” incontida da esposa. Parece que quanto mais ela se pinta de ira, mais ele acha graça.

Puxei um banco, desejei uma “boa tarde”, disse de quem eu era neta e logo minha companhia pelos próximos 40 minutos foi aceita. (Seu Dimuriê e Dona Aparecida, meus avós, são carta na manga!). Perguntei há quantos anos eles estavam casados e Seu Benedito não se demorou a responder: “A vida toda!” E “a vida toda” é a mais de 30 anos. Mas parece pouco para Dona Zizi. Para ela “já tá pegando uns 100 anos [de matrimônio]…” Eu também diria o mesmo. A pele acidentada pelo tempo é prova de que o ponteiro não deu trégua.

Seu Benedito é agricultor. Estudou até a 3ª série. Mas até já foi professor “de menino”. Dona Zizi é costureira. “Eu fazia umas roupinhas. Hoje em dia, me esqueci [como faz]. Pessoal só quer roupa com muita boniteza. Às vezes faço lençol. Nem perguntam o preço, fica aí de monte. Aí dou a quem meu coração pede”, desabafou Zizi, a morena de Seu Benedito. E emendou, feito os retalhos de seu ofício: “Naquele tempo, minha fia, a gente estudava o ‘A’ com o ‘B’ para saber como era. Eu chegava na casa de uma tia minha e aí ela me ensinava uma letra ou duas. Eu fui aumentando, aumentando [as letras]… Mas não foi por causa da escola, não”, cozeu explicação.

O casal tem neto, bisneto e até tataraneto. “Só não vou contar [quantos são], porque cansa a língua”, gracejou Dona Zizi.  São pais de 8 filhos, mas 3 morreram ainda “criança”. Hoje estão vivas 3 mulheres e dois homens, que tiveram pouco estudo e só os visitam aos pedidos do pai. “Só veem aqui quando eu chamo”, disse em tom de conformismo Seu Benedito, que carrega no peito um amuleto-crucifixo.

A pareia nasceu e se criou em Olivença, municipalidade alagoana. Mas depois foram “morar em todo canto por aí.” Enumeraram então onde já residiram as cadeiras de balanço: “Santana do Ipanema, Juazeiro, Piau, Delmiro Gouveia, Tapuio, aqui [Caboclo] e na roça.” Segundo Dona Zizi, eles são como “passarinho avoando pra lá e pra cá.” Pela lista, alguém aí tem alguma dúvida disso?

Quando se casaram, Seu Benedito tinha 30 e poucos anos. Já Dona Zizi, de acordo com as contas dele, uns 40 e outros tantos. Contudo nem no tempo que era para namorar, Zizi facilitava, como sorridente disse o esposo. “Era na lei do apulso.” Achando pequena a cutucada, Seu Benedito insistiu, como quem realmente gosta de ver a esposa arretada da vida: “Ela espiava no buraco da parede pra ver o noivo.” Como esperado, Dona Zizi esbravejou: “Quem espiava? A frieira!” Gargalhou Seu Benedito. “Eu espiava pelo buraco das cercas, quando passava a pé pro Tapuio. Eu via ele passando. Deus marcou ele [na minha vida].” E rogou: “Deus queira que marque você com uma pareia só. Nós [ela e Seu Benedito] nunca dissemos que um é feio e o outro é bonito depois de tantos anos de casados”, disse a mim o que não é segredo na sua caixinha de linhas, agulhas e lembranças.

Geralmente, Seu Benedito acorda às 5h da manhã. Vai logo colocar feijão no fogo. Enquanto isso, a linha de seus pontos, Dona Zizi, costura tempo livre na cama. “Eu fico deitada. Num tem o que fazer. Quando tem, me levanto mais cedinho”, justificou Zizi para que ninguém pense que ela é preguiçosa, afinal de contas quem lava, passa, cozinha é ela. “Às vezes, a mais velha [a filha que mora no povoado] faz alguma coisa.” E completou: “Quando eu era moça, eu pegava no cabo da inchada, todo trabalho pesado eu fazia. Eu nunca me escorei em nada na minha vida.”

Com inquietação, contou: “Eu gosto de ter o que fazer. No dia que não tem, eu fico doente. A casa é lambida, os pratos é lambido. O que eu vou fazer? Correr na rua?”, eu disse que não era uma boa ideia. Ela riu e concordou comigo.

Moram sozinhos “com Deus, Maria Santíssima” e com todos os porta-retratos da família e quadros de imagens de santos, do tempo que Seu Benedito viajava ao Juazeiro. “Toda vez que eu viajava, eu trazia 1-2.” Por conta desses quadros espalhados pelas paredes brancas da casa, há quem pense que Dona Zizi é “macumbeira”. “O pessoal passa por aqui e pergunta se é a casa da senhora que reza macumba. Eu fico mordida”, contou-me enfurecida, suspendendo as penas no ar. E me garantiu duas coisas: “Nunca me esqueci das palavras de Deus. De reza, minha fia, eu só sei a que a gente faz antes de comer.”

“Eu acredito em Jesus Cristo.” “Do mesmo jeito” disse Seu Benedito. “Somos duas pessoas num corpo só: eu e ela.” Zizi olhou de soslaio, sem muito dar valor à declaração do marido. Ele gargalhou da malcriação. Ela não é fácil, nem Seu Benedito é de desistir.

Para eles, a vida é boa, porque nunca faltou o pão. Mas ambos esperam pela salvação divina. Aos olhos de Seu Geraldo, a maior alegria da vida dele é a mulher. Poder viver com sua cabocla até “quando Deus quiser”. Virtude para Seu Geraldo é a pele morena de Zizi. (Benedito não sabe conjugar desistência!) E penso que amolecer o coração bruto da esposa é seu dever-de-casa aqui na terra. No fundo, deve ser amor todos os “nãos” disfarçados de sim de Dona Zizi. Como ela diria, está escrito no céu que seria assim, até que tudo seja eternidade.