Glória Damasceno

É uma das, muitas!, pessoas que não está na deselegante lista das 100 personalidades mais influentes do mundo, segundo a Forbes. Outro dia sonhou que era esposa do Jon Bon Jovi e acredita que isso é prenúncio para essa vida, ou para a próxima. Sabe-se lá. Escreve também, quando quer, no blog Apenas uma Fresta.

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Independente de onde venho ou para onde vou, ela sempre está lá. Sentada no banco da padaria, ao lado da inseparável bengala, fazendo crochê, acompanhando com os olhos dezenas de gente passar e a vida também. Às vezes, quando vou comprar pão, deixo um “boa tarde!” com ela. Dona Francisca, por sua vez, deseja-me igualmente uma tarde boa. Mesmo ela me desejando um final do dia bastante afável, acabo sempre em estado de melancolia.

Outro dia a encontrei no ponto de ônibus. Ia ao médico. Sozinha. Perguntei se não tinha alguém para acompanhá-la. Dona Francisca respondeu que a filha era muito ocupada. No mundo, era só Chica, Deus e a solidão.

Nascida em Matriz do Camaragibe, município situado ao leste de Alagoas, faz mais de 30 anos que se mudou para Maceió. Veio morar na capital alagoana por intermédio da irmã, que tinha uma pensão na Rua do Sol, Centro de Maceió. Morou com ela durante 15 anos, até a vida lhe arrancar mais esse elo.

“Derradeira” de uma leva de quatro irmãs, a aposentada diz com a lágrima escorrendo pelos cantos das palavras que só sobrou ela “pra sofrer no mundo”.

Mãe de quatro filhos, ela tem duas netas: Jaqueline, 12, e Ana Quíria, 6. A Francisca que aprendeu a fazer crochê aos sete anos de idade, e graças a esse dom espantava todo mundo por tamanha habilidade, só estudou até o 4º ano. Dos filhos de Dona Francisca, restou apenas a mãe das suas netas.

A arte do crochê aprendeu com a tia. “Quando ela saía, eu desfazia os pontos. Um dia ela me deu uns cascudos, me colocou num canto e disse que da mesma forma que aprendi a desfazer, aprenderia a fazer”, rememorou ela, sem disfarçar saudade. No tempo de Dona Francisca, não tinha colégio na sua cidade natal, Matriz do Camaragibe. Mas se tivesse, teria se formado “para professora”. Me garantiu.

Baixinha dos olhos claros, sempre que pode reforça o desejo de viver num pensionato ou asilo para idosos. Não sabe direito onde fica o Abrigo Luisa de Marilac, onde ela sonha morar. A única coisa que Dona Francisca sabe é que no Luisa de Marilac até festejam o aniversário dos idosos, além de que seria um bom lugar para tecer os últimos dias de vida.

Morrer parece ser o segundo desejo de Francisca, depois de fazer do Asilo seu derradeiro lugar no mundo. “Eu acho lindo quando dizem que fulano de tal morreu. Quando eu morrer, vou de gosto e vontade”, desata, numa mistura de amargor e tristeza infinita por sentir que já viveu demais, enquanto os olhos se perdem na imagem fria e entardecida da rua. Eu me arrepio.

O crochê tem sido a salvação. O ponto de intersecção com o colorido dos dias. Tricota roupa, saia, “vestido de criança”, “chapéu de gente grande”, “toalha pra mesa de comer”, mochila, cocha de casal. “Mês passado entreguei uma. Tem até uma cocha encomendada por um rapaz solteirão”, conta meio surpresa. Pergunto se ele é solteiro mesmo ou disse ser apenas para abater o preço. “Bom, ele diz que é, né?!”, a gente ri da minha desconfiança tola.

Ela gosta muito de passear. Admite que é “andeira”. E tem mesmo que ser, apesar de uma atrofia no pé esquerdo. Quando menina, dona Francisca teve paralisia infantil. Agora, depois de velha, sofreu um derrame. “O médico disse que se eu não andar, vou parar numa cadeira de rodas, mas Deus não quer isso”, afirma Chica, crente na vontade divina.

A senhora do tricotado passa a maior parte do tempo sozinha. “Minha filha tem os problemas dela pra resolver”. O preço dessa vida tão corrida, quem quita ao final de cada dia, é dona Francisca. Ela já perdeu quase tudo e quase tudo na vida é pai, mãe, irmãs e o marido. Quando conheceu o pai de sua filha, ela já tinha 40 anos. “Donzela honrada, virgem”. Ri, sem demonstrar acanhamento por conta daquela condição.

O marido tinha lá seus 60 anos de idade quando se conheceram. Até aposentado era. “Fui dá um passeio na casa da Tia Júlia no Rio de Janeiro, quando cheguei lá, eu gostei dele, ele gostou de mim e vivemos 15 anos juntos só”. O companheiro de Francisca partiu cedo demais. Não deu tempo de completar sequer as Bodas de Crochê.

“Antes tivesse ido eu. Ele era meu pai, minha mãe. Tudo pra mim!”, lamenta. “Eu tô aqui vivendo, já devia ter indo mimbora pra lá- pro cemitério. Não tô fazendo nada aqui, se não fosse esse crochê”, chora como se isso fosse a única coisa que ela podia fazer por ela mesma àquela altura do tricô.

Já passava da tardinha quando Jandira Cavalcante, 70, aparece em cena trazendo consigo uma boa notícia. Na última segunda-feira, dia 9, Francisca teria uma entrevista no Abrigo Luisa Marilac. A filha da ex-funcionária pública contribui há mais de 5 anos com o abrigo. Me ocorreu, naquele instante, que se passassem mais uns dias eu teria perdido a chance de conhecer os pontos que tecem a vida daquela mulher. Fiquei feliz por vê-la sorrir com a mesma vontade que diz não querer mais viver.

Jandira mora nas proximidades, assim como eu; e reclama do abandono em que vive dona Francisca. Disse já ter tentado falar com a filha dela, mas nunca a encontra em casa. Disse, inclusive, que Dona Francisca já caiu da escada duas vezes. Ela mora no segundo andar. Diante disso, resolveu ajudar a senhorinha dos tricores a realizar esse que parece ser seu último pedido.

– “Dona Francisca, o que sua filha diz sobre isso? Ela quer que a senhora vá?”, indago.

– “Não, ela é do contra. Mas eu sou a mãe dela, ela é minha filha. Quem manda nela sou eu. Filho não me governa, só Deus!”, responde altiva. “Se eu não gostar, saio.”

Vaidosa, as orelhas nunca ficaram despidas dos brincos bonitos. “Minha irmã mais velha que me deu e colocou há 40 anos… Quando eu morrer é da Ana!”. Ana é a neta mais nova de Dona Francisca. É esse o tipo de lembrança que ela quer deixar para a menina: duradoura e resistente ao tempo, como os brincos cobertos de afeto e que um dia serão de Ana.

A escuridão da noite já era pano de fundo pra nossa conversa. As luzes agora eram de padaria. O tempo de relógio já anunciava que era hora de Dona Francisca entrar e assistir as “notícias da Globo”. A neta mais nova brinca com a toca no cabelo grisalho da avó.

Antes de nos despedirmos, assegura não amargurar nenhum arrependimento. “Tudo que fiz foi bom”.

Ela elogia meu nome. Revelo que é uma homenagem de minha mãe a minha bisavó. Chica achou bonito esse gesto. Roga aos céus que ele me abençoe e me promete que amanhã mesmo comprará uma linha só para fazer uma lembrança de crochê para mim. Qualquer cor menos branca, pontua. “Porque suja muito” e já bastam as nódoas que a tessitura da vida deixa no tecido-pele da gente. “Não sei o que vou fazer ainda pra você, mas vou”, me garante.

Agradeço antecipadamente pelo presente. Não sabe ela que já havia me regalado em quase duas horas de Francisca, que chora no banco da vida como se fosse um bordado desfeito ou cozido de pontos quebrados.

São muitos os desalinhos naquele tricô. Talvez, segunda-feira seja um dia de bordar contentamento. Eu fui embora torcendo para que ao menos esse ponto seja inteiro.