Ana Cecília da Silva

Ela não sabe chutar uma bola e era sempre eliminada nas olimpíadas de matemática na escola. O destino a fez jornalista, afinal a única coisa que sabe fazer bem é contar histórias. Ela podia estar fazendo terapia para se tornar uma pessoa melhor, mas escolheu o jornalismo como divã para as aventuras e desventuras da vida. Ana Cecília escreve também no jornalistaeprafalarmal.blogspot.com.br.

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A estrutura e os cenários são improvisados. O chão é de pedra e o palco é um tapete vermelho desgastado pelo tempo. A luz do sol é sua ribalta, que ilumina os sonhos de criança todas as segundas e quartas feiras. No fim, o espaço era o que menos importava diante do brilho nos olhos das crianças e adolescentes recém-apresentados às artes cênicas.

Em seu “picadeiro” estava ela, Peronilda Batista de Andrade, a idealizadora da ONG Sua majestade, o circo, que trouxe às crianças da Vila Emater II a possibilidade de enxergar outros caminhos. Peró, como gosta de ser chamada, já atravessou 61 primaveras e 15 delas foram dedicadas a seu projeto.

Natural de Maceió, Peró já morou no Rio de Janeiro, no Peru e em Belo Horizonte, onde fez escola de artes plásticas. Formada em Teatro pela Universidade Federal de Alagoas, ela nunca pensou em se aproximar do circo, até que conheceu o ator global Marcos Frota. Marcos a convidou para ser produtora de seu espetáculo Grande Circo Popular do Brasil. Ela iria produzir cenários, figurinos e dirigir o espetáculo por 15 dias, que se transformaram em 15 anos sem que Peró percebesse.

O circo de Marcos Frota estava em uma turnê no estado do Maranhão quando Peró recebeu um telefonema que mudaria sua vida. Do outro lado da linha, alguém anunciava que o Cirque Du Soleil viria para o Brasil e que precisava de voluntários para participar de um projeto de circo social chamado Jovens do Mundo. Era a chance de sua vida, mas antes de se atirar nessa nova oportunidade ela precisava resolver algumas questões.

“Eu fiquei preocupada com meus filhos, Pablo tinha 12 anos e Rafael 4, que mora com o pai, e eu me preocupava com os estudos deles, mas Pablo me apoiou e disse que eu não me preocupasse, que corresse atrás do meu sonho”, conta.

Peró deixou tudo para trás, inclusive seu trabalho com Marcos Frota. O projeto Jovens no Mundo ficou na cidade de Recife onde Peró passou dois meses trabalhando como voluntária no circo social, conceito que ela nunca tinha ouvido falar antes, mas que agora sabia que essa era a resposta para o anseio que há muito tempo tinha, o de conseguir transformar vidas através da arte. “Apesar do pouco tempo que passei lá, aprendi muito e hoje posso ajudar jovens a trilhar caminhos melhores para suas vidas”, conta.

O projeto veio para Maceió, mas não teve o apoio e incentivo governamental que precisava para permanecer na capital alagoana. Quando o projeto acabou na cidade, Peró não sabia o que fazer para continuar transmitindo conhecimento para os meninos que tanto precisavam de iniciativas como aquelas. Foi aí, reunindo muita coragem decidiu que fundaria sua primeira escola de circo, para ajudar as crianças carentes da região da Vila Emater II, antigo lixão de Maceió.

Desde 2000, a ONG desenvolve trabalhos de arte-educação, construindo cidadania e resgatando a cultura do circo na cidade. Peró resgata vidas esquecidas em meio ao lixo, dando a cada uma delas a possibilidade de sonhar e serem protagonistas de seu espetáculo.

“Através do lúdico mostramos que outro tipo de vida é possível, que o estudo é importante, pois não trabalhamos só com circo, mas também com música, dança, canto, além de desenvolver atividades como oficinas de leitura e matemática”, comemora.

Peró com os olhos marejados já se sente recompensada por ver aqueles meninos que ela educou e que anos atrás não tinham nenhuma perspectiva de vida. Alguns hoje são bons pais, mães, educadores, reconhecidos na vida profissional, elogiados e, sobretudo, devolvem para os mais jovens no projeto, por meio de trabalho voluntário, tudo aquilo que aprenderam.

Ela conta que no início,  o projeto já sofreu muito preconceito de pais e mães das crianças que achavam que circo era “coisa de veado e sapatão”, mas os frutos da ONG foram aos poucos dissolvendo o véu de preconceito que cegava esses olhos.

Peró garante que seu principal aprendizado ocorre diariamente com as histórias de vida das crianças assistidas pela Sua Majestade ,O Circo. “Esses meninos não reclamam da vida como nós, eles moram em uma região sem saneamento, de difícil acesso, sem médico e mesmo assim não reclamam de nada. eles são felizes e eu aprendo com eles isso diariamente.”

Quando vê aquelas crianças correndo e sorrindo debaixo das árvores, Peró se lembra de um passado distante onde seus filhos que tinham a mesma idade daqueles pequeninos. Hoje, Pablo, o mais velho, está com 33 anos e Rafael com 26 e que assim como a mãe, doam um pouco de seu tempo oferecendo sorrisos àquelas crianças que veem ali um pedaço do paraíso, onde era possível ser feliz. Pablo ensina informática e Rafael matemática. Peró se sente satisfeita por eles também representarem esse parêntese no mundo daqueles pequenos seres. “Eu ensinei que todos devemos dar um pouco do que temos para aqueles que não têm nada”.

Atualmente, Peró está afastada da ONG por problemas de saúde, mas não se preocupa com a direção da Sua Majestade, O Circo, pois confia nos meninos que formou e que participam do projeto desde pequenos.

Pergunto quem é Peró e ela faz questão de dizer que sua vida é dedicada à ONG, que há 15 anos abraça com a ternura e a garra que só os fortes têm.