Glória Damasceno

É uma das, muitas!, pessoas que não está na deselegante lista das 100 personalidades mais influentes do mundo, segundo a Forbes. Outro dia sonhou que era esposa do Jon Bon Jovi e acredita que isso é prenúncio para essa vida, ou para a próxima. Sabe-se lá. Escreve também, quando quer, no blog Apenas uma Fresta.

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FOTO: GLÓRIA DAMASCENO

FOTO: GLÓRIA DAMASCENO

 

Ela, há cerca de um ano, vive batendo a cabeça dura nas paredes e nos móveis da casa, como muitos de nós quando em estado de ira máxima chuta uma cadeira aqui, a perna do sofá acolá.  Vai-se a raiva inerente ao momento, ficam os estilhaços de vidro pelo chão, as dores da alma e os machucões nos dedões dos pés e nas falanges das mãos.

A velhice chegou para Mile, hoje com 16 anos. Além de ter um sopro no coração, que a livra de cortar as unhas e tomar banho com a frequência do “dever ser”, uma vez que essas tarefas a estressam muito, e é aconselhável evitar que ela ponha-se em nervosismo, Mile também sofre de catarata, razão dos tombos introdutórios desta narrativa. E motivo de seus passos limitados, quase que em câmera lenta. Como se não bastasse, ela conta ainda em seu prontuário médico com uma artrite – inflamação nas articulações dos ossos. Mais um “quê” do porquê de passos tão debilitados.  Mas Mile é valente… Em todos os sentidos.

Não só tem a coragem para seguir caminhando pela cozinha, e seus arredores, como não permite que ninguém a toque. Quando isso acontece, é um Deus nos acuda! Dona Rosa, empregada doméstica da casa, sempre amarra uns panos nos braços ao ter que pegá-la para dar banho, caso contrário, Mile trata de deixar algumas mordidas como marca de sua resistência e… Gênio difícil, por assim dizer.

A “brabeza” é tanta que se tornou uma de suas características fortes. Depois da solidão, não se fala em outra coisa em se tratando de Mile. Desde quando Amanda (21), filha de Tânia (50) e José Luiz (46), entendia-se por adolescente, que a cachorrinha é assim, “antissocial”, define. Ela e o irmão, João Victor (20), brincavam com Mile, mas nada de pegar, abraçar, sacudir… Triscar. A geniosa cachorrinha leva a cabo a filosofia de vida “cada um no seu quadrado”.

Com o passar dos anos, desaprendeu a fazer xixi no lugar certo. Faz na hora que é vontade, já que seus olhos não a guiariam a tempo de urinar no “banheiro improvisado”. Apesar do estresse de um tapete amarelado, todo mundo, no fundo, entende.

Quando Mile, ainda bebê, chegou à casa da família Nunes Farias, no tempo em que eles ainda viviam em São Luiz (MA), foi uma grande surpresa e motivo também de desaprovação por parte de Tânia, esposa de José Luiz. Ele a havia comprado no intuito de realizar um desejo antigo de menino: criar um animalzinho, coisa que sua mãe nunca deixou. Nem ela, nem a esposa, eram adeptas de criar bicho em casa, mas aí veio a Mile, e junto a ela na época, dois pássaros, para transformar o não em sim.

Para aplacar a solidão de Mile, e também lhe dar a possibilidade de ser mãe, Zé Luiz comprou um cachorrinho. Mas ela batia nele. Não quis saber do focinho, a raça. Então o cachorrinho foi vendido. Era ele ou Mile. Ficou Mile até hoje.

Fez de “seus filhotes” uns bonecos que certa vez a mãe de Zé Luiz levou para ela brincar. Como ela, as pelúcias também eram intocáveis. Ninguém podia pegar. Eram suas crias, quem cuidava era ela, como uma mãe protetora afinal.

“Ela é um membro da família. É a ‘ovelha negra’, mas tá ali”, brinca Amanda ao completar a fala dizendo que todo mundo que a conhece, conheceu com Mile, nome dado, inclusive, em razão da Chiquitita que pintava na TV sempre que se fazia noite na infância.

Amanda diz não saber como será, quando Mile não estiver mais ao pé da porta para fazer da vida que resta, e do tempo, espera e companhia. Só tem a certeza de que a ausência, e o silêncio de seus gritinhos famintos, será triste.