Francisco Ribeiro

É jornalista. E-mail: chicoribeiro@msn.com

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Um homem corpulento e de pele negra, Pedro Ferreira Auta (1929-2001) mantinha uma espécie de “ritual” para confeccionar suas fantasias carnavalescas. Para evitar ser incomodado pelos comentários alheios sobre os trajes que produzia, ele buscava se isolar do contato com as pessoas. “Não queria ouvir a opinião de ninguém”, confessou ao cineasta alagoano Pedro da Rocha, no documentário Memórias de um herói de carnaval (1988).

Não era segredo para ninguém. Bastava perguntar para Pedro Ferreira de onde vinha a inspiração para criar as suas fantasias que ele revelava sem nenhum rodeio: “Através dos filmes que vinha assistindo, como O Grande Guerreiro, com Victor Matuse, Um Passo da Morte, com Kirk Douglas, Talhado em Granito, com Randolph Scott e O Último Guerreiro, com Jack Palance”. Desfilando pelas ruas durante as festas momescas vestido de heróis dos épicos hollywoodianos, ele logo se tornou “o rei do Carnaval alagoano”.

Nascido no município sergipano de Malhador, ainda jovem o folião fixou residência em Maceió, por volta de 1952. “Viemos para a miséria, para a cidade… penar”, lembrou. Antes, morou alguns anos em Aracaju e, em seguida, no pequeno povoado alagoano de Riacho Velho. Descendente de índio e de negro, cresceu ao lado de 18 irmãos. “Mas morreram um bocado. Eu não sei a quantia” (sic), pontuou, afirmando que teve a sorte de, desde criança, se destacar entre os demais: “Parecia que eu tinha um espírito elevado”.

Em Maceió, Pedro trabalhou como funcionário da prefeitura até aposentar-se. A primeira vez em que desfilou, vestiu uma fantasia de índio, mas confessou não ter achado “muito adequado”. Numa avaliação crítica de si mesmo, disse: “Eu tenho que me aperfeiçoar”. Para tanto, assistiu a diversos filmes e fez releituras dos figurinos dos personagens. Em 1956, iniciou suas atividades como carnavalesco “de carteirinha”, apresentando-se como Comanche, inspirado no filme O Grande Guerreiro (1955), fantasia confeccionada com penas de peru e pavão, lantejoulas, galões, papelão e areia brilhante.

Após a leitura do livro Força e Saúde e com o objetivo de assemelhar-se fisicamente à figura do gladiador romano, interpretado por Kirk Douglas, no filme Spartacus (1960), o folião começou a praticar halterofilismo. A prática esportiva lhe rendeu a alcunha de “Pedro Tarzan”, ao vencer um concurso de força em Maceió, na década de 1950. “Na época, estava passando Tarzan, com Johnny Weissmuller. Aí o apelido pegou”, rememorou.

Suas fantasias sempre bem elaboradoras e o corpo atlético renderam tamanha fama entre os foliões que Pedro desfilava protegido por um cordão de isolamento. Ao longo dos anos 70, ele viveu seu apogeu. Foi durante esse período que frequentou o Museu Théo Brandão, então administrado pela museóloga Carmen Lúcia Dantas. “Ele era um homem de muita paz, voz mansa, pausada. Ao mesmo tempo que tinha um físico extraordinário, com os poderes masculinos tão aflorados, ele parecia ser predestinado para as mulheres se afastarem dele. E a gente se divertia e também tinha pena das mágoas amorosas que ele nutria”, conta Carmen.

Aos 71 anos, debilitado e sem desfilar havia quase uma década, Pedro “apareceu na TV e explicou o verdadeiro sentido da festa popular através dos microfones de uma emissora derádio. Foi a última vez”, noticiou o extinto O Jornal (06/07/1999). Impossibilitado de falar e de andar, o velho folião, que sofria com artrite e artrose, teve seu quadro de saúde agravado após um acidente vascular cerebral.

Pedro Ferreira Auta faleceu em 2001, aos 72 anos de idade, “na mais absoluta miséria”, segundo afirmou seu filho, Gerson Ferreira Mamede, que permanece na luta pelo reconhecimento do seu pai, “o rei do Carnaval alagoano”.

Trecho da matéria ‘Cortejo Fantástico’, publicada na revista Graciliano nº 20.