Jornalismo

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Senhora do Mar

Ana Cecília da Silva

Ela não sabe chutar uma bola e era sempre eliminada nas olimpíadas de matemática na escola. O destino a fez jornalista, afinal a única coisa que sabe fazer bem é contar histórias. Ela podia estar fazendo terapia para se tornar uma pessoa melhor, mas escolheu o jornalismo como divã para as aventuras e desventuras da vida. Ana Cecília escreve também no jornalistaeprafalarmal.blogspot.com.br.

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Ao atravessar a rua e entrar na Vila já posso ouvir as crianças correndo por todos os lados. São risos e gritos de felicidade. Alguns homens conversam no bar e as mulheres separam o camarão que acabou de chegar da pesca.

Ela está sentada na porta do seu barraco, com um avental sujo e olhar perdido, como se pensasse em alguma coisa que a levasse para distante. Os cabelos brancos não deixam mentir sua idade e todas as lutas que travou para chegar até ali.

Com 66 anos nos ombros já cansados, Mariluse Alves dos Santos, marisqueira desde os 10, abre um sorriso quando me aproximo e se oferece para compartilhar comigo um pouco de sua história, que se mistura à história da Vila dos Pescadores, morada de seu coração.

Para ela, a Vila é fonte de sentimentos contraditórios, amor e medo. O embate com a municipalidade tem lhe tirado o sono, pois não sabe quando terá que sair do lugar onde criou laços e raízes que não podem ser desfeitos.

Há 56 anos na Vila, Mariluse, filha de mãe marisqueira e pai estivador, conta que desde cedo aprendeu o ofício da mãe, que perdeu de forma prematura, aos 10 anos de idade.  Aos 14 anos, sem rumo, resolveu casar e construir sua própria família. Diógenes, seu ex-marido, lhe deu 10 filhos e 30 netos.

O amor não foi suficiente para manter o casal junto quando as dificuldades começaram a aparecer. “Eu sempre trabalhei com peixe e camarão e foi com isso que criei meus filhos. Meu ex-marido não queria trabalhar, só queria ficar em casa de vida boa e eu não sou mulher disso, não contei conversa e me separei. Vivo até hoje sozinha e sou feliz assim”.

Todos os dias, Mariluse sai às 3 horas da manhã para o mercado do Jacintinho, onde vende seus produtos. Às 13 horas, volta para casa. “Ontem vendi 150 quilos de camarão”, conta orgulhosa. Foi com o pescado que conseguiu criar os filhos. Todos seguiram seus passos, sendo pescadores e marisqueiras. Nesse momento, ela se lembra do filho caçula, que aos 23 anos ficou paraplégico depois de ter ingerido veneno.

A senhora do mar conta, com tristeza, o episódio. “Ele ficou assim, porque três meninos daqui colocaram veneno na bebida dele. Os nervos dele encolheram, quase morre, passou três meses em coma. Já foi desenganado pelos médicos, mas o céu não me enganou. Deus trouxe meu filho de volta”, disse com um brilho de esperança nos olhos.

Graças à fisioterapia, o filho de Mariluse já consegue comer, falar e sentar. Sobre os rapazes que praticaram o ato, ela prefere não falar em vingança, por maior que seja sua dor. “Um deles foi assassinado, o outro está preso e o terceiro não sei onde anda. A vida está se encarregando de mostrar para eles que o mal que fizeram um dia volta”.

Enquanto conversávamos, um rapaz nos observava encostado na parede. Era Naldo, um morador da Vila. Mariluse conta que Naldo, aos 26 anos de idade, não tinha documentos, apenas há alguns dias havia tirado sua carteira de identidade. Perguntei como eles faziam para saber da idade. “Um bocado de gente não sabe a idade, nem tem documento. A gente só sabe quando viu nascer. Fora isso, apenas deduzimos”.

Mariluse não conseguiu terminar os estudos, pois a pesca ocupava todo o seu tempo, mas garante que tudo que sabe hoje aprendeu sozinha. Lê algumas coisas, faz conta das embarcações, calcula preços e conhece seus direitos e os da coletividade como ninguém. A senhora do mar confessa que já passou por muita discriminação por ser marisqueira, moradora da Vila dos Pescadores e analfabeta, mas reforça também que nunca baixou a cabeça para ninguém, adquirindo respeito dos moradores da comunidade. Em 2001 e 2007 foi presidente da Colônia dos Pescadores de Jaraguá.

“No dia em que o ministro da pesca veio pra cidade fui chamada para representar a colônia. Conheço governador, secretário, trabalho com tudo. Disseram que eu não podia fazer nada porque não sabia ler, mas provei que tenho mais conhecimento que muita gente”, conta.

Sobre a possível mudança de local, Mariluse diz se sentir um peixe fora d’água, pois o trabalho dela é ali, junto com seu povo e suas raízes. O trabalho da pesca é dividido em dois turnos, um pela manhã e outro pela madrugada. A marisqueira questiona como eles vão guardar suas embarcações e materiais de trabalho de maneira segura.

“Não temos sono pra dormir e fome pra comer. Dia e noite só pensamos nisso. Eu fui contemplada com um apartamento, mas meus filhos não. E é neles que eu penso, assim como penso nos filhos de todos daqui”.

Com a voz embargada, a senhora do mar confessa que muitos ali não têm mais família e que os outros moradores da Vila são seu sustento afetivo, o fio invisível que os liga a um sentimento muito próximo daquilo que é chamado de afeto. O sofrimento dos outros é o seu sofrimento. Ela tem medo do amanhã, como nunca teve antes.

Mariluse, forte como um timoneiro, não se entrega e garante que, enquanto houver vida pulsando em suas veias, não deixará que morra dentro dela a compaixão e a solidariedade com que ela se dedica a seu povo e suas raízes. “O ser humano tem que pensar no bem comum, pois só assim pode ser chamado de humano”.

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A dama da liberdade

Francisco Ribeiro

É jornalista. E-mail: chicoribeiro@msn.com

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Esta é a imagem-síntese da história de Marina Oliveira de Souza. A mais de uma década, ela abre a janela do barraco onde mora pra Liberdade. O monumento de bronze, uma réplica da estátua símbolo dos Estados Unidos, carrega consigo a contradição da sua vida. Repousando sobre um pedestal, bem ali, em frente ao imponente prédio que abriga o Museu da Imagem e do Som (Misa), desde a década de 1990 a figura acompanha indiferente o drama das famílias que residem na comunidade pesqueira de Jaraguá. A oposição entre a liberdade versus a coerção serve como alegoria para o conflito travado entre os moradores da Vila e a municipalidade. Isto é, a permanência versus a remoção. “Uma ironia do destino”, observa Marina.

A dama da liberdade é a primeira imagem que Marina se depara, todas as manhãs, quando coloca os pés fora de casa. Moradora da Vila há mais de três décadas, a marisqueira de 40 anos de idade fala sobre passado e futuro demarcando a sua existência no tempo. “Dos meus nove anos pra trás eu não tinha história.” Foi nessa idade em que chegou a Vila dos Pescadores trazida pelo seu pai, o pescador hoje aposentado Dioclécio, 74.

Antes de fixar residência em Maceió, a família Oliveira de Souza vivia no Rio Grande do Norte. Dioclécio veio para cá a convite do seu irmão. Na bagagem, além de alguns trapos, levava o sonho de uma vida melhor para sua esposa e seus filhos – um garoto e cinco meninas. O mar, segundo Marina, foi bom pro seu pai. Assim como recompensa a todos da comunidade que daquelas águas tiram o sustento.

Nick, o vira-lata, é o primeiro a recepcionar os visitantes. No barraco de somente um vão, cuja cortina separa a sala,  a cozinha e os dois quartos, Marina vive ao lado dos seus três filhos e do marido, o pescador Adalberon, mais conhecido como Dal. A família tem o luxo de ter um banheiro com sanitário e chuveiro. Luxo, pois a regra é os moradores fazerem suas necessidades em saquinhos ou dentro de garrafas pet, que são jogados na lixeira.

Numa das paredes, está pendurado o tripé da sua existência: a foto de Vitória, embarcação do marido; os retratos de Marina e dos seus filhos – Adriele, 19, e Adriel, 16 –, cada um segurando o canudo que contém o diploma da sua respectiva formação escolar; e o símbolo do Flamengo, time no qual o caçula, Adrian, de 10 anos, sonha vestir a camisa. “A minha vida foi construída aqui”, afirma a marisqueira, “Pra gente não existia o mundo lá fora. Eu acho injusto quererem nos tirar daqui, do nosso convívio”.

Desde 2004, Marina é um desassossego só. Foi naquele ano em que o embate entre municipalidade e os moradores da Vila se instalou. O conceito abstrato de liberdade nunca foi tão concreto em sua vida como agora.

É preciso também enfrentar, diariamente, o olhar insensível e deturpado “dos de fora” sobre os Filhos da Vila. “A gente fica magoado com o que ouve, porque eles só nos conhecem pela mídia e pela aparência do barraco”.

“Certa vez, um superintendente municipal declarou que as mulheres daqui só sabiam fazer criança”, desabafa ela, como quem esperou uma vida inteira para dizer o que está por vir: “Minha filha mais velha estuda Ciência Contábeis e tem seu emprego com carteira assinada, assim como eu tenho o meu. Meu marido é um trabalhador, e meus dois filhos estudam”. Marina relata as conquistas de sua família para desfazer preconceitos. Antes de encerrar a conversa, com a voz tímida, tal qual se fala uma confidência, me relevou: “Por incrível que pareça, minha filha de 19 anos ainda é virgem”.

A história de Marina Oliveira de Souza é, na verdade, a imagem-síntese da resistência. Deveras superior em significados do que a imponente dama da liberdade, que jaz enferrujada, bem ali, enquanto assiste impassível o drama da vida dos homens e das mulheres que fazem a comunidade pesqueira do bairro de Jaraguá.

AS IRMÃS
Vizinho da moradia de Marina fica o barracão em que residem suas duas irmãs, Francinete, 42, e Francineide, 36. Bastou à reportagem se aproximar para que Neide desatasse a contar o que há muito precisava ser dito. “Vivemos numa situação que não é como o povo fala”, diz a marisqueira, “Eu convido a qualquer um conhecer a verdadeira história da Vila. Esse aspecto tão feio que ela tem é culpa do poder público”.

Casada e mãe de dois meninos, Francineide se vê perplexa ao tentar compreender o porquê de a opinião pública manter-se presa a ideia de que os apartamentos doados pela Prefeitura representam o sonho de uma vida para todos os moradores da Vila.

Segundo ela, o projeto mais recente divulgado pela atual gestão municipal tem a pretensão de transformar a Vila em um Centro Pesqueiro. Neide, assim como é mais conhecida pelos amigos, parece duvidar do compromisso do órgão em cumprir tudo o que está expresso no papel. O receio vem de longa data. “Existiu o projeto Pascoal, que visava à revitalização daqui. Os moradores foram transferidos para o conjunto Carminha e nada foi feito na Vila. Além do que, lugar de pescador não é no Benedito Bentes”.

Neide, da mesma forma que suas irmãs, acredita que ao longo dos anos ocorreu um processo intencional de favelização da comunidade. Um exemplo disso, diz ela, foi o programa de reurbanização da orla, cujas obras não se estenderam a comunidade.

“Se a gente sair, quem vai tomar conta das embarcações durante um temporal? Nós sabemos que o mês de agosto é de temporal. De uma hora pra outra o tempo se forma e daqui que a gente saia dos apartamentos e chegue aqui, o barco já tem se acabado. E o prejuízo, quem é que vai pagar? Eles dizem que se sairmos daqui irão fazer os depósitos. Mas quem vai garantir se não vão engavetar, assim como fizeram com o projeto Pascal?”, questiona.

Francinete ouvia atenta tudo o que a irmã tinha a dizer. E quando decidiu falar, reafirmou uma certeza: “A vila é tudo pra mim. Principalmente, pra minha família que criei aqui dentro. Eu não me vejo fora daqui. Todos os dias o barco sai pra pescar. Quando chega, tenho o meu ganha pão.” Mãe de quatro filhos e avó de dois netos, as raízes da marisqueira são profundas.

— O tudo a que me referi agora a pouco é isto, ó: — neste momento, Francinete apontou ao seu redor, repousando o olhar por um instante em direção a réplica da estátua da Liberdade, sem notar a ironia que resultou de tal gesto, e repetiu: “Tudo isso!”

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