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A infância de um poeta

Elayne Pontual

Idealizou o Vidas Anônimas porque acredita que as histórias mais extraordinárias ainda não foram contadas e que as pessoas mais incríveis nunca foram ouvidas.

Últimos textos de Elayne Pontual (veja todos)

A criança é poeta em sua inocência, em sua ignorância de uma vida pouco vivida no tempo e espaço. Ela não está enjoada das coisas, como a maioria de nós. Tudo é interessante, objeto de contemplação, e nada precisa fazer sentido.

A criança delira e faz poesia muda. É poeta por ser livre e o homem é livre, quando poeta. Luiz Gonzaga Leão é poeta, portanto sente-se livre e assemelha-se a uma criança. E é desta pessoa que iremos falar hoje.

Luiz nasceu em 1929, mas ainda não conseguiu despedir-se do seu eu-menino. E nem vai. Apesar das rugas e cabelos brancos, Luiz é e sempre será o pequeno Luiz, filho de Silvestre de Barros Leão e Rocina Araújo Leão. O poeta é um infante num corpo de 86 anos. Mas a idade da carne não quer dizer nada. O que importa mesmo é o cerne da memória, cheia de cicatrizes, conhecimento e saudade.

A parte mais curiosa desta história, é que Luiz tem um dom. Ele consegue, num abrir e fechar de olhos, voltar à Barra do Canhoto, onde passou parte de sua infância, e observar-se, de longe, em seu corpo franzino e buliçoso. Um pigmeu alegre, que não abriga maldade alguma no coração. O pequeno Luiz é como uma ostra nanica, com uma imensa pérola em seu âmago: a inocência.

A sua idade é de sete anos e cada gesto risonho entrega: Luiz não sabe ainda que no ano seguinte perderá seu pai para um câncer. Nem sequer tem conhecimento do que é um “câncer”. O menino só consegue pensar na hora em que sua mãe reunirá todos os filhos na porta de casa para contar histórias. É o melhor momento da vida e nada parece ameaçar a ordem de sua rotina perfeita.

Observando toda a cena, o Luiz grande sente um misto de piedade e inveja do Luiz pequeno. Mas volta a persegui-lo com os olhos da alma. Datas, idades ou qualquer número parecem turvos. No entanto, os cheiros, as cores e as formas são nítidas, cristalinas como as águas do rio que banham as terras de sua casa-infância.

O pequeno Luiz mora em um lar modesto, mas com paredes fortes. Nos fundos, pode observar o estábulo onde ficam os cavalos e, mais ao alto, o pomar onde seu papai planta cajus, goiaba e manga. Silvestre colhe as frutas e põe na mesa para os filhos lancharem, voltando em seguida para plantar cana e criar gado.

A mamãe de Luiz chama-o para perto, enquanto cose alguns macacões, e deposita-lhe nas mãos alvas e miúdas uma moeda de 40 tostões. “Compre pães, meu filho”. O pequeno sai de casa batendo os tamancos nas calçadas de cimento. “Potoco potoco potoco”, fazem seus pisantes enquanto ele passa em frente à residência de um velhinho doente que dá-lhe de presente algumas mangas-rosas. A criaturinha encantadora, habitante do passado, volta para casa feliz, cheio de mangas e pães para lanchar com a família. Enquanto isso, o Luiz do futuro observa, emocionado, a alegria mais doce que já pôde sentir. E sente de novo, mas nunca da mesma forma. É apenas uma lembrança de sentir, mas não o sentir de fato.

Com Luiz em casa, a mamãe veste ele e seus irmãos em pijaminhas de flanela, que ela mesma havia costurado para protegê-los do frio e da umidade daquela cidade interiorana. Rocina senta-os no largo parapeito da janela e desanda a contar histórias da carochinha, enquanto os filhos se lambuzam com o caldo das mangas.

Agora Luiz tem oito anos, seu pai morreu e ele está se mudando para a capital. Está confuso. Está triste. Daqui para frente, algo vai faltar-lhe para sempre.

Já em Maceió, fixa-se na casa de um tio, junto com sua mãe e seus irmãos. Logo, todos reconstroem suas rotinas. O tio tem uma lojinha chamada Combate e lá a mamãe de Luiz faz costuras de carregação (macacões e calças). Como a geladeira é um artigo doméstico do futuro, a obrigação do pequeno Luiz é levar, durante a tarde, uma quartinha d’agua fria para a loja de seu tio. Como recompensa, o menino ganha um tablete de chocolate, chicletes Adams e mais dois bombons de guaraná que fervem na boca. Com seus lanches, segue para a biblioteca pública, próxima ao Teatro Deodoro, e lê todo tipo de fabulações, viajando para os lugares mais inesperados.

O tempo passa mais rápido e Luiz agora parece ter doze anos. Vê-se ainda na biblioteca pública, desta vez lendo poemas de Humberto de Campos e Mário Quintana. Em seus olhos, percebe a paixão por uma musa: a poesia. Lê-la não é o suficiente. O contato precisa ser maior, mais íntimo. Ler é como apenas olhar a amada, sem poder tocá-la.

Luiz faz então seu primeiro verso: “Eu ia andando pela tarde afora”. Uma metáfora diária, uma tolice. No entanto, aquilo o deixa deslumbrado. É, afinal, seu primeiro verso! Depois vieram muitos outros, escorrendo de suas mãos como o caldo das mangas que chupava nos fins de tarde enquanto sua mãe contava histórias.

O Luiz adulto, observando tudo com muita atenção, percebe que naquela época ele era mais poeta, porque não tinha nenhum compromisso com regras. De fato, o Luiz adolescente faz versalhadas com vinte ou trinta quadras, às vezes parece que nunca parará de desenhar letras no papel. O menino tem um fôlego espantoso, e uma falta de noção invejável.

No escrever, Luiz percebe que é capaz de ser o que quiser. Aprendeu, portanto, a não apenas usar as palavras, mas a manipulá-las e fazer as maiores loucuras com elas. Com um único ponto, interrompe os passos da pessoa amada. “Você não vai a lugar nenhum!”, o ponto sentencia. Ao meio-dia, escurece o céu e enche-o de astros, cobrindo assim o escuro de sua imaginação. Luiz domina a palavra e sente mais prazer em brincar com elas, do que em pensa-las. Ele não pensa as palavras, ele sente-as.

Na biblioteca, tudo está calmo. O jovem Luiz continua com as versalhadas enquanto o velho observa-o melancólico. Por um momento, as coisas parecem sair do lugar, misturam-se confusas. O jovem pressente a estranheza da ocasião e interrompe o que estava fazendo. A alguns metros a sua frente, percebe um homem, com seus 86 anos, a contemplá-lo. Os dois se olham, velho e novo, passado e futuro. Ambos se reconhecem e parecem igualmente reais. Mas se um é, o outro não pode ser.

Até hoje Luiz não consegue explicar o que aconteceu naquele momento. Vai ver foi apenas o tempo fazendo poesia nos limites da vida de um poeta. Vai ver foi exatamente isso.

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Acolhendo Vidas

Elayne Pontual

Idealizou o Vidas Anônimas porque acredita que as histórias mais extraordinárias ainda não foram contadas e que as pessoas mais incríveis nunca foram ouvidas.

Últimos textos de Elayne Pontual (veja todos)

Neste exato momento, Maria sente frio num quarto de hospital, acompanhada apenas de seus 83 anos e das lembranças que a idade acumulou. Desolada, procura uma mão que a sustente quando a dor aperta, mas encontra apenas a aspereza dos lençóis. Ela só está em paz quando pensa na morte. Tão temida por algumas pessoas, a morte para ela é quase uma amiga. É sua verdadeira companheira.

Maria é uma personagem fictícia. Diria que ela é um espelho. Um espelho que reflete a vida de tantas outras Marias. Mulheres reais que, neste minuto, estão sendo abandonadas em hospitais e abrigos. Há também as Marias que são encontradas e acolhidas, como Dona Luzinete – resgatada no mercado da produção. E são porque existem pessoas como Cícera, Cleonice e Dilma que, movidas pela vontade de ajudar e pela capacidade de encarnar na pele do outro, uniram forças e fundaram um abrigo para acolher pessoas que precisam e que não podem contar com mais ninguém. 

Assim como o mundo abriga gente que escolhe abandonar, existem aquelas que decidem acolher. Cícera, Cleonice e Dilma decidiram acolher. E é através da voz de uma das acolhedoras que iremos contar esta história.

Cícera conta que tudo começou com um grupo de oração formado por 20 mulheres. Entre as 20, uma tinha câncer e foi curada do tumor após alguns encontros com as colegas. Durante as reuniões, era rotina pedir às forças divinas que trouxessem de volta a saúde de Dilma Pereira de Morgado Santos. Se foi pelo poder da fé e da amizade, não se sabe, mas a doença saiu do cenário deixando o sentimento de gratidão enraizado na xará da recém reeleita presidenta do Brasil que, assim como a Dilma alagoana, curou-se de um câncer.

Como forma de agradecimento, Dilma — a Santos, não a Rousseff — decidiu usar uma pequena casa para construir com as amigas Cícera Lisboa e Cleonice Bezerra Pimentel a entidade filantrópica Acolhimento Mãe das Graças, localizada no conjunto habitacional Village Campestre II, próxima a um canavial. No início a entidade era composta por dois cômodos e uma árvore. Hoje tem quartos maiores, banheiro, cozinha, jardim, sala de jantar e até mesmo uma capela.  Agora as amigas estão planejando um cantinho para que suas hóspedes possam praticar fisioterapia.

As mudanças na estrutura do local foram alcançadas com esforço. Foi necessário que as três abrissem mão de alguns bens para que conseguissem expandir a casa. Na época, Cícera tinha uma butique de roupas, e Dilma e Cleonice eram proprietárias de uma lojinha de aviamentos. Elas venderam tudo, pagaram suas dívidas e começaram o trabalho que há pouco mais de seis anos acolhe vidas abandonadas. Algumas vidas amparadas por elas permanecem aos seus cuidados desde o início, outras deram as mãos à morte e foram embora deixando saudades.

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Até hoje Cícera recorda cada segundo daquele momento, tão vivo quanto a sua vocação para a caridade. Era um dia feio, chuvoso, e quem chegava da rua vinha com lama subindo pelas canelas. Foi assim que um homem entrou na casa de acolhimento, molhado dos pés à cabeça, com os olhos arregalados e tão tempestuosos quanto o dia. Sem perder tempo com cumprimentos, o desconhecido manifestou os motivos para estar ali: “Olhe, dona Maria, eu tive no Frei e ele disse que lá era apenas pros homens e que aqui é pra mulher. Tome essa mulher que eu não quero vê-la nunca mais.” Entregou os documentos da irmã indesejada à Cícera, girou nos calcanhares, saiu pela porta e nunca mais voltou.

O porquê de o homem ter agido daquela forma, não se sabe. As possibilidades são tão numerosas quanto os pontinhos que iluminam o céu noturno. Cícera se questiona diariamente sobre os motivos e nunca encontrou respostas, por mais que as procurasse. “Aqui não há espaço para julgamentos, mas os porquês são bem-vindos”, pensa em voz alta.

92, 94, 101, 110. A idade das hóspedes varia, mas a maioria, com exceção de quatro, já não consegue contar as primaveras.  E o que esses quatro brotinhos estão fazendo no meio de tanta maturidade? “Estão descansando a mente”, é o que responde Cícera observando o movimento circular de uma de suas hóspedes portadora da juventude.

Descoberta pela imprensa, a menina que rodopia em seu próprio eixo se chama Sandra e foi encontrada amarrada por detrás da penitenciária masculina Baldomero Cavalcanti. Passado o tumulto, quando a garotinha amarrada já não servia mais como notícia, levaram-na para o Hospital Psiquiátrico Portugal Ramalho. “Ela foi amarrada pelo pai alcoólatra num coqueiro. Eles moravam numa barraca de lona. Quando ela chegou aqui não andava, se arrastava. Comia papel, mato e o que aparecesse, como um animal”, lamenta Cícera.

Foi nessas condições que Sandra Pereira atravessou as portas do Acolhimento Mãe das Graças. Uma pessoa que trabalhava no Portugal Ramalho, ia devolver a criança ao lugar em que foi encontrada e decidiu ligar para Cícera contando o caso. Apesar de ser voltada apenas para idosos, Sandra foi acolhida na entidade.

— A gente criava um cachorro aqui, daí a gente colocava comida pra ele e ela se arrastava até a vasilha pra comer a comida do cachorro. Quando alguém chegava na porta e ela via que era homem, ela se arrastava até lá e abaixava a calcinha — lembra Cícera.

Sandra fez 24 anos e sua grande companheira é uma boneca que ganhou de um dos visitantes da entidade. “Meus pais vêm me visitar?”, “Tem pipoca?”, “Quando vou ao dentista?”, “Que horas vamos passear?”, faz as mesmas perguntas duas ou três vezes seguidas, irritando constantemente as outras hóspedes que, no fastio da vida e na flor da pele, cutucam a menina com o que podem. Afinal, elas não entendem que a memória é curta para quem só apreciou uma paisagem durante muito tempo.

Outra hóspede acolhida pelas três amigas foi Tereza Barbosa, retratada por nós do Vidas Anônimas no texto A bela da Tarde. Cícera garante: “Aqui, todo mundo é bem-vindo, mas a nossa responsabilidade é muito grande. Não é fácil. Por sorte podemos contar com pessoas que conhecem e confiam em nosso trabalho. Elas ajudam bastante.”

Cícera, Cleonice e Dilma sentem como se estivessem nas entranhas de cada mulher abandonada no mundo e, por esse motivo, as três colhem essas vidas que foram jogadas como frutas em decomposição, impróprias para o consumo. Elas reconhecem, por trás de cada rosto enrugado, o valor inestimável da existência. Suas hóspedes têm a carne viva como prova de que ainda estão aqui. São lembranças, dor e vontade.

Algumas dessas vidas são encontradas num estado lamentável, fragilizadas não só pela falta de saúde ou de discernimento, mas pela ausência de família, de afago. Cheias de piolhos, violentadas sexualmente, sujas, elas rastejam debilitadas pela carência de ternura, porque foram anuladas antes mesmo de partirem. Antes do descanso eterno, enfrentam ainda o abandono que chega quando mal há forças para se manter em pé, e chega com tudo, sem pedir licença. Invade com brutalidade os minutos já tão raros, quem sabe os últimos minutos.

Mas Cícera e suas amigas estão determinadas:

— Nós não vamos parar e não vamos deixar de pedir por elas e por quem está precisando.

 


Deseja visitar o Acolhimento Mãe das Graças? A entidade fica na Rua Cristina Braga, Nº 49, Loteamento Cidade Universitária, Village Campestre II. Caso tenha interesse em ajudar com doações ou trabalhos voluntários, pode ligar para (82) 4141-4513 ou 8861-3979 (Cícera).

 

FOTO: Fecomércio/AL