Jornalismo

Os gêmeos de Francisco

Glória Damasceno

É uma das, muitas!, pessoas que não está na deselegante lista das 100 personalidades mais influentes do mundo, segundo a Forbes. Outro dia sonhou que era esposa do Jon Bon Jovi e acredita que isso é prenúncio para essa vida, ou para a próxima. Sabe-se lá. Escreve também, quando quer, no blog Apenas uma Fresta.

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FOTO: GLÓRIA DAMASCENO

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Os gêmeos Rafael e Gabriel são os primogênitos do jovem casal Francisco Silva Monteiro (31) e Tatiana de Souza Melo (21). Além dos gêmeos, duas meninas completam também as fotos de álbum de família. Elas são Gabriela (5) e Cássia (3 meses). Gabi foi a única que herdou a pigmentação negra do pai e Cássia é uma bebê esculpida de dobrinhas e branquinha, como a mãe e os irmãos.

Filhos de um óvulo só, quando Rafael e Gabriel vieram ao mundo em outubro de 2007, os médicos da maternidade Nossa Senhora do Bom Conselho, em Arapiraca, cidade ao centro do mapa de Alagoas, não imaginavam que eles estariam vivos para protagonizar a história de dificuldades e conquistas de duas crianças com deficiência visual. Hoje quem narra a prosa dos dois filhos de Francisco – além dos pais, professores e pessoas de solidariedade – sabem que o que se vê da vida vai além da formação da imagem na retina. Rafael e Gabriel ensinam cotidianamente que para estar no mundo é preciso enxergar, isto é, ver o que está por trás, nas entrelinhas, no íntimo enfim, ainda que sob o manto monocromático do olhar e da imaginação, mas também ouvir, tatear o que nos toca com a ponta dos dedos ou com cada músculo do corpo; sentir el olor das coisas e do que não são coisas em nós.

Francisco, pai dos meninos, é um homem inteligente que não teve oportunidade de alcançar o degrau da graduação. Estudou até o ensino médio completo, mas logo depois “se danou” no mundo a trabalhar. Aos 18 anos, foi a São Paulo em busca de um emprego. Ficou por lá 2 anos. Já trabalhou de vigilante, de servente de pedreiro, de garçom – na empresa multinacional de fast food McDonald’s – e há sete anos o esguio pai de Rafael e Gabriel é dedicação exclusiva da família que construiu ao lado de Tatiana.

As árvores genealógicas de ambos são de povoados do município de São José da Tapera, no alto Sertão alagoano. Francisco é o filho do meio. Tatiana, uma das três mulheres de uma prole de seis irmãos, estudou só até a 3ª série. Conheceu o marido em uma destas casualidades de domingo, quando Francisco foi à casa da irmã dele jogar dominó. Ganhou, além de algumas partidas, o coração da mãe de seus filhos. Tímida ao ponto de mal falar, e quando fala quase não é ouvida por ser a palavra murmúrio, Tatiana era adolescente quando decidiu ficar com Francisco seis meses depois que se conheceram. Pelas contas dos dois, estão em “união estável” há nove anos.

A luta diária do casal é para cuidar dos gêmeos. O dia divide-se em dois turnos: quando os garotos estão na escola (tempo de por a casa em ordem e descansar corpo e incertezas do futuro de cada segundo) e quando eles estão entre os parcos móveis da casa doada pelo pai de Francisco. Às vezes, o casal sente-se preso às paredes esverdeadas de onde vive para os filhos. Às vezes também choram por ser a vida vez ou outra tão incolor. Francisco, mais do que ninguém, sabe o quanto pesa para um corpo afilado como o dele a responsabilidade de viver, sem intervalos, para outra pessoa. Ou, melhor, para duas outras pessoas.

Os meninos nasceram prematuros de 6 meses e passaram os 2 meses seguintes na incubadora. Segundo o pai, a falta de oxigenação cerebral, durante o tempo em que ficaram hospitalizados, foi a causa da cegueira dos meninos, que só veio ser notada por uma madrinha, quando eles já tinham 1 ano de idade. À época, Francisco tinha acabado de viajar novamente a São Paulo na tentativa de garantir o sustento da família. Mas ao receber a ligação incrédula, largou tudo e voltou para ser ele, também, os olhos dos filhos. Hoje vivem de um benefício de seguridade social, uma vez que não há condição de trabalhar e cuidar dos meninos ao mesmo tempo.

Ao longo do pós-parto de Tatiana, somente Francisco foi visitá-los três vezes por semana. Os familiares da esposa nunca souberam se o caminho do hospital era de barro ou de asfalto. E não por falta de comunicado (ou bússola), como acrescentou Francisco ao ver a esposa chorar tristeza. Por ser Tatiana quase sempre silêncio, é significativo que seja ela lágrima exposta ao não conseguir falar sobre o que ela não soube, ou conseguiu, chamar de… “Abandono”, como nomeou o esposo. A direção do hospital chegou a questionar a ausência dos parentes e também a sugerir o uso da via jurídica para que Tatiana não tivesse apenas Francisco como visita, mas ele foi claro: “Pra ter consciência não é preciso forçar ninguém a nada.”.

A primeira vez que os olhos de Francisco encontraram os corpinhos dos meninos, revestidos de agulhas, foi inesquecível. Até então, os olhos de Rafael e Gabriel eram cortinas sem movimento. Mas quando Francisco repousou sobre eles o olhar de pai, os gêmeos elevaram os cílios e, como quem decide ali – naquele momento onde vida é decisão – que viveriam por aqueles olhos também. Com o passar dos dias, ganharam peso e alta.

Francisco é grato a todos os médicos, enfermeiras, amigos, familiares, ao ex-prefeito de São José da Tapera, Zé Antônio, por ter liberado à época a compra do leite dos meninos, e, sobretudo, a quem é para os gêmeos uma segunda mãe: a incansável Eliana Ricardo Gomes, carinhosamente chamada de Totinha.

Eliana, a professora-mãe

Se o coração de uma pessoa fosse proporcional à estatura, Eliana (41), mulher pequena, seria injustiçada em praça pública. Totinha é de uma grandeza que não se mede nem mesmo com a maior das fitas métricas cardíacas de alguém.

Paranaense de nascimento, é casada há 10 anos, irmã de seis irmãos e tem dois filhos: a Mariana (4) e o Arthur (7). É professora da sala-de-recurso da escola Elisabeth Jacoba Maria Borges – onde os gêmeos estudam desde os 4 anos de idade – em São José da Tapera. Rafael e Gabriel não são as únicas crianças com necessidades especiais do colégio. Pelos cálculos de Totinha, há no município de Tapera cerca de 300 alunos com alguma deficiência física ou intelectual. Considera a escola bem equipada para atender às necessidades de aprendizagem das crianças especiais. De acordo com Eliana, o governo federal enviou as ferramentas de trabalho solicitadas, mas as professoras ainda não fizeram o curso de braile para dar início a uma nova etapa no ensino.

Eliana, no entanto, não é só pedagoga. Totinha é uma professora-mãe e isso tem feito toda a diferença na evolução gradual dos gêmeos que a reconhecem em outros sentidos da vida, como o da audição. Rafael e Gabriel hoje sabem quando é de Eliana a voz que anuncia mais um dia do que ela chama de “estimulação precoce” – método de ensino que tem o papel de inserir socialmente o aluno com deficiência especial ao cotidiano, ajudando a despertá-lo para os “quês” e os “quens” ao redor. “Eu cuido deles como se fossem meus filhos”, afirma emocionada.

Uma professora de sala-de-aula regular, de acordo com avaliação de Totinha, não tem tempo de trabalhar, por exemplo, noções de quente/frio, macio/áspero, dentre outras composições materiais e psicológicas de mundo. A pedagoga considera que os meninos, queridos pelos coleguinhas de classe, evoluíram bastante. Quando eles chegaram à escola mal falavam, embora o que falem hoje seja, muitas vezes, aleatório ou repetição da fala de alguém. Às vezes, até cantam música de rádio. A pouca coordenação motora deles é considerada igualmente evolução.

Chama a atenção de Eliana como os gêmeos definem uma menina como “bonita”. Ela reparou que se os cabelos forem longos e o perfume inebriar o olfato, Rafael e Gabriel não querem saber de outra coisa, senão de tocar o rosto, talvez, na tentativa um tanto inconsciente de aprender do que mais é feito alguém “bonito”, além de fios de couro cabeludo quilométrico e cheiro bom. Totinha considera necessário que os meninos sejam acompanhados por um profissional de fonoaudiologia para que desenvolvam melhor a fala evoluída, mas ainda debilitada.

A carga horária de Eliana é de quatro horas semanais, divididas em dois dias, mas ela gosta tanto do que faz, que acompanha os meninos de segunda a sexta-feira, mesmo que neste ano tenha chegado reforço: mais duas cuidadoras executam a tarefa de vencer os desafios da educação especial.

E tão especial quanto o que Eliana faz, é o motivo pelo qual faz. Em outubro de 2002, um dos irmãos dela, Adriano, foi vítima de um assalto na estrada, quando retornava para casa com a esposa. O som do carro estava alto o suficiente para Adriano não escutar o anúncio do infortúnio. A bala, que ainda está alojada na medula do irmão, uma vez que sua retirada não vai lhe trazer de volta o movimento dos membros inferiores, foi o início do pranto que até hoje umedece o rosto ruborizado e as mãos de Totinha. Ela encontrou na educação especial o refúgio para abrigar a esperança de ver o irmão andar de novo. E compreende que Adriano avivou a capacidade de ser sensível ao outro. “Agora, quando eu chego em um lugar, eu vejo logo a questão da acessibilidade.” Como nunca antes, acessibilidade é uma palavra que completa as frases de Eliana.

Os gêmeos de Francisco mal escutam as vogais e consoantes que compõe “escola” para que pela manhã tenham os pés no chão. Fralda, roupa, lanche são também responsabilidades que a escola Elisabeth Jacoba Maria Borges abraçou junto aos pais, para além da obrigatoriedade.

Para Eliana, realização de professor “é ver o aluno lendo.” Conta que a primeira turma na qual ministrou aula, dos 37 alunos, somente dois não liam. E há um todavia que explica: as crianças tinham problemas de saúde que impediam o avanço na descoberta das letras.

Depois que conheceu os meninos, a professora-mãe afirma que são eles “a lição de vida”. A interrogação do dever-de-casa fica para o pai dos gêmeos: “às vezes penso: será que esses meninos vão fazer uma faculdade? Ter uma profissão?” A resposta vem em forma de desejo: “Meu sonho é esse.” Os dois filhos de Francisco resignificaram a paleta de cores de quem os enxerga livres das convenções do dicionário. O lado bonito da vida também é escuro.

FOTO: GLÓRIA DAMASCENO FOTO: GLÓRIA DAMASCENO

Neguinho, Barão de Jaraguá

Glória Damasceno

É uma das, muitas!, pessoas que não está na deselegante lista das 100 personalidades mais influentes do mundo, segundo a Forbes. Outro dia sonhou que era esposa do Jon Bon Jovi e acredita que isso é prenúncio para essa vida, ou para a próxima. Sabe-se lá. Escreve também, quando quer, no blog Apenas uma Fresta.

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FOTO: GLÓRIA DAMASCENO

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Ao longo da rua Sá e Albuquerque, no Jaraguá, bairro arquitetado de lojas, armazéns, agências bancárias e casarões de Maceió, trabalha de um lado para o outro uma espécie de “relações públicas” da área. Em verdade, Neguinho, como é conhecido, é mais que um “RP”. José Carlos dos Santos (49) é o “faz-tudo” do bairro. É o homem de confiança de quem por ali transita nos últimos 38 anos.

Dizer que Neguinho é um “flanelinha” é insuficiente. Além de vigiar os carros que são estacionados sob os seus olhos atentos a quem chega e a quem sai, ele também enfrenta as filas de contas a pagar da “clientela”, por exemplo. Independente de ter uma gorjeta pelos favores prestados, Neguinho não é de negação, como afirmam alguns comerciantes do bairro. E como por ironia boba da linguagem, sugere as letras iniciais do apelido.

“Comecei a trabalhar quando tinha 12 anos. Carregava frete e carrinho de mão com a feira do pessoal”, conta sorrindo. Neguinho sorri muito. Franze a testa de alegria quase o tempo inteiro. E cumprimenta todo mundo que passa, buzina, encosta o carro, despende-se de mais um dia de trabalho. Neguinho é a personificação do letreiro de chegada, “bem-vindo (a)”, e de partida, “volte sempre”, das 6h40 da manhã até as 18h30 da noite.

Um dia, por indicação de uns amigos “gente boa”, ele trocou a rua Barão de Jaraguá pela Sá e Albuquerque. Disseram ao “faz-tudo” que lá era melhor. Dos quase 50 anos que completou este ano (2015), essa mudança foi uma das melhores coisas que lhe aconteceram. Na Sá e Albuquerque, ele fez amigos e constrói a vida. Quando chegou, não tinha ninguém para fazer o que hoje a cada esquina das cidades grandes alguém faz: tomar conta dos carros do pessoal em troca de moeda.

Neguinho, de coração astuto, “organizou a casa”. Em um trecho da extensa rua em que ele trabalha, “colocou” um irmão. Em outra rua paralela, pôs um amigo e em outra rua adjacente, outro parceiro. Dividiu o espaço para que não haja conflito e todo mundo saia ganhando, já que não falta carro para manter sob a mira o dia inteiro.

O retorno financeiro, conta, não é muito. “Mas dá para viver, ajudar minha mãe aposentada e o pessoal que eu amo.” O flanelinha afirma: “eu amo todo mundo”. A exemplo do sentimento do corpulento Neguinho, que anda num balançado de braços peculiar, no Natal ele costuma ganhar 12 cestas básicas de um “cliente”. Todos os anos, ele separa 4 para ele e o resto divide com os companheiros de ofício.

E, sim!, Neguinho é um flanelinha de clientela fidelizada. Há quem seja mensalista, quem o pague uma quantia já pré-estabelecida a cada 15 dias, fruto do cuidado que ele tem não só com o “quê”, mas também com o “quem” da mira. Se pinta um forasteiro na área, Neguinho aciona as antenas. Deixa todo mundo em estado de alerta!

Em uma aspa, o flanelinha abarca a relação que construiu com os transeuntes e trabalhadores de Jaraguá: “Às vezes, eu fico até triste quando o pessoal não vem, desaparece… Sempre conversam comigo, me dão valor. Se não fosse por eles, (eu) não tinha nada. Hoje tenho tudo… Tenho alegria!”

Natural da Barra de Santo Antônio, ele teve 5 irmãos. Dois já morreram. Dentre eles, a irmã mais velha que praticamente os criou depois que os pais separaram-se.  Aos 26, Neguinho perdeu o pai. Estudou até a 3ª série. Não deu para conciliar a escola e o trabalho. Então, optou pelos carrinhos de mão para ajudar na despesa de casa. A escola ficou para depois até hoje.

Em 1996, nasceu seu primeiro e único filho: o jovem Rodrigo José de 19 anos. “Meu sonho é dá uma casa pro meu filho. Depender dos outros é a pior coisa do mundo”, conclui Neguinho. Rodrigo vive na casa da sogra com a esposa. “Às vezes, quando meu filho liga para dizer que tá faltando uma coisa ou outra, bate uma tristeza…”. Mas, apesar desse sonho a ser realizado, e que vez em quando lhe rouba a alegria conquistada ao longo de muitos anos de trabalho duro, Neguinho, “vixi!”, adora viver. “Enquanto Deus quiser”, ele vai vivendo. E achando bom, como quando franze as marcas de expressão do rosto e solta um sorrisão sem jeito pra vida “boa aperreada”.