Jaraguá

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Neguinho, Barão de Jaraguá

Glória Damasceno

É uma das, muitas!, pessoas que não está na deselegante lista das 100 personalidades mais influentes do mundo, segundo a Forbes. Outro dia sonhou que era esposa do Jon Bon Jovi e acredita que isso é prenúncio para essa vida, ou para a próxima. Sabe-se lá. Escreve também, quando quer, no blog Apenas uma Fresta.

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Ao longo da rua Sá e Albuquerque, no Jaraguá, bairro arquitetado de lojas, armazéns, agências bancárias e casarões de Maceió, trabalha de um lado para o outro uma espécie de “relações públicas” da área. Em verdade, Neguinho, como é conhecido, é mais que um “RP”. José Carlos dos Santos (49) é o “faz-tudo” do bairro. É o homem de confiança de quem por ali transita nos últimos 38 anos.

Dizer que Neguinho é um “flanelinha” é insuficiente. Além de vigiar os carros que são estacionados sob os seus olhos atentos a quem chega e a quem sai, ele também enfrenta as filas de contas a pagar da “clientela”, por exemplo. Independente de ter uma gorjeta pelos favores prestados, Neguinho não é de negação, como afirmam alguns comerciantes do bairro. E como por ironia boba da linguagem, sugere as letras iniciais do apelido.

“Comecei a trabalhar quando tinha 12 anos. Carregava frete e carrinho de mão com a feira do pessoal”, conta sorrindo. Neguinho sorri muito. Franze a testa de alegria quase o tempo inteiro. E cumprimenta todo mundo que passa, buzina, encosta o carro, despende-se de mais um dia de trabalho. Neguinho é a personificação do letreiro de chegada, “bem-vindo (a)”, e de partida, “volte sempre”, das 6h40 da manhã até as 18h30 da noite.

Um dia, por indicação de uns amigos “gente boa”, ele trocou a rua Barão de Jaraguá pela Sá e Albuquerque. Disseram ao “faz-tudo” que lá era melhor. Dos quase 50 anos que completou este ano (2015), essa mudança foi uma das melhores coisas que lhe aconteceram. Na Sá e Albuquerque, ele fez amigos e constrói a vida. Quando chegou, não tinha ninguém para fazer o que hoje a cada esquina das cidades grandes alguém faz: tomar conta dos carros do pessoal em troca de moeda.

Neguinho, de coração astuto, “organizou a casa”. Em um trecho da extensa rua em que ele trabalha, “colocou” um irmão. Em outra rua paralela, pôs um amigo e em outra rua adjacente, outro parceiro. Dividiu o espaço para que não haja conflito e todo mundo saia ganhando, já que não falta carro para manter sob a mira o dia inteiro.

O retorno financeiro, conta, não é muito. “Mas dá para viver, ajudar minha mãe aposentada e o pessoal que eu amo.” O flanelinha afirma: “eu amo todo mundo”. A exemplo do sentimento do corpulento Neguinho, que anda num balançado de braços peculiar, no Natal ele costuma ganhar 12 cestas básicas de um “cliente”. Todos os anos, ele separa 4 para ele e o resto divide com os companheiros de ofício.

E, sim!, Neguinho é um flanelinha de clientela fidelizada. Há quem seja mensalista, quem o pague uma quantia já pré-estabelecida a cada 15 dias, fruto do cuidado que ele tem não só com o “quê”, mas também com o “quem” da mira. Se pinta um forasteiro na área, Neguinho aciona as antenas. Deixa todo mundo em estado de alerta!

Em uma aspa, o flanelinha abarca a relação que construiu com os transeuntes e trabalhadores de Jaraguá: “Às vezes, eu fico até triste quando o pessoal não vem, desaparece… Sempre conversam comigo, me dão valor. Se não fosse por eles, (eu) não tinha nada. Hoje tenho tudo… Tenho alegria!”

Natural da Barra de Santo Antônio, ele teve 5 irmãos. Dois já morreram. Dentre eles, a irmã mais velha que praticamente os criou depois que os pais separaram-se.  Aos 26, Neguinho perdeu o pai. Estudou até a 3ª série. Não deu para conciliar a escola e o trabalho. Então, optou pelos carrinhos de mão para ajudar na despesa de casa. A escola ficou para depois até hoje.

Em 1996, nasceu seu primeiro e único filho: o jovem Rodrigo José de 19 anos. “Meu sonho é dá uma casa pro meu filho. Depender dos outros é a pior coisa do mundo”, conclui Neguinho. Rodrigo vive na casa da sogra com a esposa. “Às vezes, quando meu filho liga para dizer que tá faltando uma coisa ou outra, bate uma tristeza…”. Mas, apesar desse sonho a ser realizado, e que vez em quando lhe rouba a alegria conquistada ao longo de muitos anos de trabalho duro, Neguinho, “vixi!”, adora viver. “Enquanto Deus quiser”, ele vai vivendo. E achando bom, como quando franze as marcas de expressão do rosto e solta um sorrisão sem jeito pra vida “boa aperreada”.

vitoria nova

Mãe Vitória

Ana Cecília da Silva

Ela não sabe chutar uma bola e era sempre eliminada nas olimpíadas de matemática na escola. O destino a fez jornalista, afinal a única coisa que sabe fazer bem é contar histórias. Ela podia estar fazendo terapia para se tornar uma pessoa melhor, mas escolheu o jornalismo como divã para as aventuras e desventuras da vida. Ana Cecília escreve também no jornalistaeprafalarmal.blogspot.com.br.

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Eram três horas da tarde quando cheguei até a casa da Mãe Vitória, mãe de santo que tem um templo de umbanda estabelecido na Vila dos Pescadores. Fui recepcionada por dois cachorros que latiram felizes quando me viram. Mãe Vitória apareceu na porta. Era uma senhora baixinha e de cabelos brancos que me recebeu com um sorriso no rosto. Logo me levou para conhecer seu lar, que era também seu local de trabalho – o espaço onde se dedica aos Orixás. No local havia uma grande mesa, búzios, velas, incensos e um trono no centro da sala, fundamento de toda casa.

Maria Vitória de Lima, a Mãe Vitória, tem 58 anos de idade e há 30 se dedica à Umbanda, religião de matriz africana que atua na orientação espiritual e doutrinária feita pelos Guias – espíritos ligados diretamente a um determinado Orixá.

Toda vestida de branco, Mãe Vitória me levou para conhecer o jardim. Perguntei por que ela estava vestida daquela maneira. A resposta veio logo em seguida: “O branco é importante em todos os momentos. A gente que lida muito com Oxalá (orixá associado à criação do mundo e da espécie humana) precisa usar a cor branca porque ela traz paz e a gente que é espírita precisa muito”.

Mãe Vitória, acomodada em uma cadeira no jardim, conta um pouco de sua trajetória de vida. “Casei nova, com 16 anos. Fiquei viúva aos 17 e com 18 casei de novo. Aos 28 fiquei viúva novamente. Desde lá não casei com mais ninguém, me dediquei à criação dos meus filhos, ao meu crescimento espiritual e a construção do meu templo”.

Nascida em União dos Palmares, na região da Serra da Barriga, Vitória confessa que já tinha visões aos cinco anos de idade, mas não tinha noção do que estava acontecendo. Algo muito comum na região da Serra é o fogo-fátuo, uma luz azulada que surge com a inflamação espontânea do gás metano, resultado da decomposição de seres vivos: como plantas e animais típicos do ambiente. Vitória acreditava que via o fenômeno em meio à serra, mas, segundo ela, aquela era a primeira demonstração de sua mediunidade

Vinda de família de origem católica, Vitória, aos 8 anos, foi estudar na cidade de Viçosa, para fazer a sua primeira comunhão. Nessa época nenhum de seus familiares dava importância aos primeiros relatos que ela fazia de suas visões.  “Até o dia da minha primeira comunhão ninguém falava nada espiritual. Eu fui coroinha, limpava a sacristia, ajudava a fazer hóstia, nunca perdia uma missa e também ajudava o padre a dar esmolas pros pedintes da cidade. Eu era muito eficiente”.

Ela conta que no dia de sua primeira comunhão, após a cerimônia, iria ter um jantar em família e que ganhou de seu tio uma caixa de sabonetes. Quando saiu da sala e foi até o quarto guardar seu presente, foi manifestada por um espírito pela primeira vez.

“Fiquei tremendo e minha fala foi mudando, as pessoas estavam assustadas. Todos muito nervosos, disseram que eu estava com uma crise de nervos. Na época eu não entendia, mas hoje sei que era a aproximação da minha espiritualidade”, relata.

O padre da cidade foi chamado para realizar um exorcismo na pequena Vitória, que além de ser diagnosticada com uma crise de nervos, poderia ter também um espírito fazendo dela encosto, segundo acreditava o padre. Foi uma noite inteira de rezas em latim e água benta.  Vitória também foi levada ao médico diversas vezes para descobrir a causa de suas alucinações repentinas.

Quando criança, ela gostava de fazer altar de santo e era muito introvertida. Tinha visões constantemente com uma mulher de branco e um homem. Costumava conversar com pessoas que não estavam ali. Era considerada doente e estranha pelos irmãos, família e amigos.

Os boatos na cidade já estavam correndo soltos. Várias pessoas vinham conversar com a mãe de Vitória e se oferecerem para levá-la a um curandeiro. Um dia o dono de uma farmácia sugeriu que a mãe de Vitória procurasse um centro espírita, pois, de acordo com ele, o problema da menina não era mental, mas espiritual.

O farmacêutico deu o endereço de um Centro Espírita em Jaboatão dos Guararapes (Recife), alegando que a medicina não iria resolver o problema de sua filha. Foram para Pernambuco a mãe, Vitória e o irmão de 14 anos, Laércio.

Já no Centro, uma senhora vestida de cigana colocou a mão na cabeça de Vitória e disse que ela era médium de nascença. Vitória lembra que, naquela hora, manifestou mais uma vez sua espiritualidade.

Em Maceió, aos 17 anos, passou a frequentar o kardecismo, doutrina que lida com os espíritos que não aceitaram a passagem desse para outro mundo. Foram quatro anos de trabalhos até que Vitória entendesse o que se passava com ela e começasse a trabalhar de forma mais saudável aquilo que hoje ela considera um dom.

“Eu tinha 28 anos quando montei minha primeira casa. Comecei a ser filha de santo, frequentando um terreiro, para preparar a cabeça e o espírito. A minha casa é meu templo, que eu chamo de Tempo Abaçá Airá Obá, que mantenho há 30 anos na comunidade”, conta.

Mãe Vitória acredita que todos têm uma missão no mundo e que a dela é encaminhar pessoas (e espíritos) para o caminho do bem. Com a sensibilidade aflorada, ela sente no ar a energia das pessoas. E, contra as “energias ruins”, Vitória tem uma receita fácil: mirra, benjamim e alecrim para defumar o ambiente.

“Eu gosto de energia boa e pensamento positivo, pois o padrão de pensamento define quem anda do seu lado. Eu não evito pessoas de energia ruim, pois temos que aprender a lidar com tudo e mostrar que o caminho não é aquele, afinal, nem sempre é problema de espírito, mas de mente”. A dona do templo afirma que seu trabalho não é só fazer limpeza espiritual nas pessoas, mas que muitas vezes é preciso dar uma de psicóloga, entender os traumas e aconselhar.

Ela se orgulha de ter construído tudo sozinha e ter firmado bons laços de amizade com os moradores da Vila de Jaraguá. “Aqui não tinha nada, no lugar dessa casa havia um barraco velho e eu ergui meu lar à custa de trabalho e esforço”. A mesma alegria com que ela conta sua vida também dá lugar à tristeza quando ela pensa na possibilidade de tudo isso ruir.

Sua casa também está na mesma situação das outras casas da Vila dos Pescadores, ameaçadas de serem retiradas do local pelo município.  “Não acho que essa seja uma maneira correta de agir, os moradores da Vila mereciam uma assistência melhor e deveriam permanecer aqui”, desabafa.

A casa de Vitória, por ser um templo religioso, não pode ser removida, mas, segundo ela, sua residência está contemplada no projeto de transferência. Vitória garante que tem o documento de ocupação da União, autorização de diversos órgãos para ter ali sua casa. “Eu sei que minha casa corre riscos, mas até hoje ninguém me procurou para falar sobre isso”.

Apesar da ameaça de remoção, ela não hesita em abrir um sorriso e dizer que se orgulha de sua trajetória e da pessoa que se tornou. “Sou feliz porque gosto de trabalhar, de fazer caridade, de ajudar pessoas e foi a espiritualidade que me ensinou todos esses valores. Não acho que sou melhor que ninguém por conta do meu dom, porque o único que pode julgar nesse mundo é Deus”.

Vitória faz parte do cenário daquela região e sua história e seu templo já fazem parte da vida dos moradores de Jaraguá, que mantêm, como ela, uma relação de amizade e respeito.

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