cultura popular

Os acordes de Afrísio e Alcina

Glória Damasceno

É uma das, muitas!, pessoas que não está na deselegante lista das 100 personalidades mais influentes do mundo, segundo a Forbes. Outro dia sonhou que era esposa do Jon Bon Jovi e acredita que isso é prenúncio para essa vida, ou para a próxima. Sabe-se lá. Escreve também, quando quer, no blog Apenas uma Fresta.

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Dona Alcina Acácio e Seu Afrísio Acácio, frame do documentário Segunda-feira, de Leandro Alves.

Em cada canto deste mundão de meu Deus, sou chamada de um jeito. Antes de ser batizada com o nome de “Acordeon” pelo criador que me aprumou, minha graça era “Cheng”, lá nos primórdios do meu nascimento, há cerca de cinco mil anos, quando eu não passava de uma invenção primitiva da China feita de recipiente de ar, canudo de sopro e tubos de bambu.

Ao desembarcar da Alemanha aqui no Brasil, na década de 50, se não me falhe a memória musical!, fiquei conhecida no sul do país como “cordeona de oito baixos”, “gaita-ponto” ou “gaita de duas conversas” por causa da minha bi sonoridade. Quando o tocador abre um fole, sai uma nota. Quando ele fecha, outra. É bonito demais!

Além disso, posso ser diatônica ou cromática. No primeiro, apresento botões em ambos os lados. E posso ser de “baixo solto”, que torna possível a formação de notas mais sofisticadas. A mudernidade tem dado o tom de alguns acordes em mim!

No Nordeste brasileiro, onde especialmente o povo “aria a fivela”, também atendo por “fole de oito baixos”, “concertina”, “realejo”, “harmônica” ou “pé-de-bode”. É nome que não acaba mais, hômi! Mas o que eu mais gosto mermu é “sanfona”. Esse todo mundo sabe de cor, quer dizer!, de letra!

Tal qual o fluxo de ar impulsionado pelo fole em minhas paredes de madeira vibrante, eu também já dei um empurrãozinho na vida de sacrifícios e contentamento de muita gente. Dentre tantos poetas, cantadores, vaqueiros e demais artistas que dedilham seu tempo e sua história por meio de meus botões, hoje quero prosear sobre o menino que foi registrado em cartório onde antes era o povoado de Campo Grande, no município de São Braz, à beira do valente Rio São Francisco, em Alagoas. Campo Grande há um bocado de tempo apartou-se de São Braz pra ser ele também uma cidade.

Mas foi na era de lugarejo, em 1949, que Afrísio Acácio se chegou por aqui – o filho mais velho de uma prole de cinco hômi e três mulé por parte de mãe, sem contar os rebentos semeados por seu pai interiores a fora. Afrísio diz que isso é uma “virtude do homem” e que “Deus o fez assim pra que ele use, mas não abuse”. O traquina ri com gosto quando levanta a suspeita de também ter espalhado menino no mei do mundo. Vê se pode!

Dos 66 anos de idade, aproximadamente 50 são dedicados aos versos do meu fole. Mestre Afrísio Acácio do Acordeon já fez muita coisa, dentre elas três filhos-menino com Dona Alcina Acácio, sua nega desde os 22 anos de garoto apaixonado, como inté hoje. Só de me alembrar do dia em que ele conheceu Alcina, meu peito de teclas e melodia se alumia de poesia. Repare só…

Todo melado de poeira vermelha, lá vinha Afrísio e eu de um forró perto de onde morava Dona Alcina, e onde ele tinha tocado a noite inteira. Ela, aos 18 anos e uma blusinha de babado lateral, toda baixinha, sorridente como nunca deixou de ser, tinha como companhia de estrada uma de suas irmãs.

As moças formosas estavam indo a cidade de Arapiraca fazer compras. Mas, no meio do caminho, havia dois rapazes e por um acaso certeiro do destino, Afrísio – montado em um burrinho – era um deles e quando a encontrou, naquele minuto em que só se ouve o tum-tum aperriado do coração, ele soube que aquela morena seria o seu amor. Amolaram um tiquinho de conversa e pronto! Ela já era a menina de seus pensamentos dali em diante.

Pouco tempo depois desse dia, Afrísio teve que viajar para São Paulo e só voltou a sua cidade natal depois de um longo e amargoso ano. Chegou a escrever para a mãe dele querendo saber notícias de Alcina. Mas a mãe de nada sabia. O medo dele era chegar ao Nordeste e ela ter casado com outro. Êta judiação! Mas para alegria de nossas letras e canções, Alcina estava solteira e na primeira oportunidade Afrísio, quando a encontrou na beira da linha do trem, num dia desses de feira, enquanto as rodas aqueciam os trilhos, sentou com ela numas cadeirinhas de estação ferroviária, deu um cheiro no rostinho dela… Aí ela ficou rosada, contente! Oito meses depois, entre tempo de conquista e namoro, casaram-se.

Como eu sanfonei de alegria! Eles casaram justo no dia que tinha uma Santa Missão. A praça estava lotada de gente. O padre Hildebrando foi quem celebrou no palco, inclusive, nossa união. Pra todo mundo ver! Até hoje, 44 anos depois, nunca aconteceu coisa igual, ou parecida. E a gente passou a noite forrozeando na fazenda do pai de Dona Alcina ao toque de outras sanfonas satisfeitas, como eu.

E por falar em satisfação, guardo na lembrança das digitais de meu teclado o dia em que Afrísio me ganhou pela primeira vez. Ele já não era mais o menino que tomava banho nos açudes, que pescava no riacho cheio, que dava uns pinotes bons danados e “tucaiava” o gado, quando trocou uma bicicleta Caloi por mim. Afrísio tinha 17 anos e escutava muito rádio, aqueles programas ao vivo, o Josa – Vaqueiro do Sertão. O pai dele, um dos fazendeiros mais importantes da região, teria ficado muito bravo, se a astúcia de Afrísio não tivesse atinado!

Ao chegar comigo montado em seu cavalo, o pai, que para sua sorte estava na varanda da fazenda, olhou pra ele e disse: “Que é isso aí?” Ele disse que era eu, uma sanfona. E os olhos alumiando tudo por dentro. “Comprou onde? Que negócio ocê fez?” No tempo de Afrísio, filho tinha que dizer todos os detalhes, dar todas as explicações, dizer qual era a origem das coisas. E lá em casa não podia nem vender, nem trocar, nem fazer negócio nenhum com as novilhas que os filhos ganhavam a cada idade nova! Quando o menino tinha 10 anos, por exemplo, tinha 10 vacas. Mas só podia negociar, quando casava, que era quando se emancipava e podia mandar no que tinha. Mas antes num podia, a não ser que o negócio fosse entre os irmãos, porque se tivesse prejuízo, era na família.

Apesar de ter temido o desmanche do negócio, Afrísio contou sem titubear muito que eu, na época era de 48 baixos, fora resultado de uma troca com o Sabino, que não era sequer primo de segundo grau. Aí antes que o pai dele dissesse alguma coisa, ele já emendou que a minha única função seria a de animar os finais de semana na varanda. Ganhou o velho na história aí! “E você aprende?”, indagou por cima. E aprendeu. Afrísio, sozinho, desvendou minhas notas, mas se aperfeiçoou com os professores Zé Maraba e o início de tudo: o Sabino. Quando o pai estava na sala de janta, ele ia tocar na varanda e vice-versa pra num fazer zuada, porque ninguém suporta ouvir quem está aprendendo. É uma agonia!

Depois das rodas de cantoria na fazenda, quando ele e os filhos dos moradores largavam do serviço (se criaram tudo junto!), vieram os casamentos, os aniversários, os batizados, as vaquejadas, os comícios… Não parávamos em casa. Levantamos e derrubamos um punhado de políticos no toque e no verso! Afrísio se entocava dentro de um jipe comigo, mais um gravador, duas cornetas, um microfone e ganhávamos o interior de mandiocada, festa, fazenda, por todo canto passávamos fazendo a campanha. Quando terminava, o cara estava eleito. E nosso troco era a ingratidão! Toda vida foi assim: a gente trabalha, dá o sangue pelo político e no final pode esperar a migalha como recompensa.

Mas eu sempre fui a sina dele, onde quer que eu pudesse estar. O pai de Afrísio não precisava de um filho tocando forró em canto nenhum. Tinha muito gado, porco, cavalo, ovelha… Terra. Ele emprestava dinheiro aos amigos que estavam aperriados. Financiava os moradores, os agricultores. O pai do Afrísio era bem dizer um Banco na região! E a mãe dele era melhor ainda. Se chegasse alguém lá em casa, só saia depois que almoçasse com eles. A mesa das refeições era grande que só a gota e tão maior era o coração de alegria ao ver o povo almoçando/tomando café mais eles. Era tudo fartura, graças a Deus! Até professora particular os meninos tinham. Depois Afrísio foi pro colégio, pra cidade, e estudou o 2º ano primário, que naquele tempo valia por uma faculdade toda!

Mestre Afrísio é radialista, mas também já foi presidente da câmara dos vereadores de Campo Grande duas vezes. A casa da gente parecia um hospital a serviço do povo. Nessa época, ele acabou com metade dos bens que tinha. Pensou em desistir da política, mas o povo não deixou. Passou mais quatro anos e aí até as sobras minguaram. Sobre esse assunto, não me alongo muito, não. Dá até desgosto de tocar. Mas Deus está dando tudo em dobro a ele de novo!

Faz graça lembrar que ele pensava que o artista quando gravava um disco nunca mais haveria de saber o que era pobreza. Tolo! Mas ele até que tinha razão, porque a venda do disco ia lhe dar dinheiro e o dinheiro lhe daria uma vida melhor. Mas ele, no tempo de menino, já tinha o suficiente: gado, cavalo bom. Quer dizer, ele não tinha o mais importante: a música, a poesia e isso posso afirmar com cada acorde do meu ser inanimado. Afrísio, apesar das fissuras de ter me escolhido, é feliz, como jamais seria se não tivesse escutado o toque do seu coração-acordeon.

Todo o suor, tantas vezes lacrimal, em busca de valorização e de reconhecimento é por ele e pelos amigos sanfoneiros sofridos e humilhados, porque dependem de alguém que tenha o poder na mão e mais que isso: a capacidade de enxergar que cultura é o novo, mas também é raiz, é tradição e aquilo que foge do auge, do alcance e do gosto particular.

Dói em cada verso o sofrimento dos artistas pé-de-serra. Eu sei que não vai acabar nunca, porque o dirmantelo do mundo ninguém acaba. Mas tudo vale a pena por amor à cultura e ao ombro de Dona Alcina, que o acompanha, inclusive no canto!, sempre que pode e, principalmente, aos domingos quando vão desfrutar os menus de churrascaria.

Deus me defenda deles desaparecerem desse mundo nem tão cedo, apesar de eu saber que cada um tem o seu dia de virar poeira! Na vida tudo é ilusão, nós vivemos nas carreiras. E como uma vez disse Josa, Vaqueiro do Sertão, eu também “quero chegar ao fim lá na sombra da jaqueira”, no aconchego do último acorde de quem me tocou a vida inteira.

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O poeta dos cordéis

Francisco Ribeiro

É jornalista. E-mail: chicoribeiro@msn.com

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Em matéria de falar, o mestre cordelista Jorge Calheiros é imbatível. E o impacto da sua presença é ainda maior, especialmente quando ele garante que, apesar dos seus 70 e poucos anos de idade, sabe de cor as mais de 200 estrofes das 96 edições de cordéis de sua autoria. Com um repertório tão vasto, é compreensível que seja tomado pelo desejo de compartilhar tais histórias.

Homem de riso fácil e de palavras na ponta da língua, Jorge faz questão de resgatar o seu passado, lembrando a infância pobre que não lhe permitiu frequentar a escola. “Meu filho, o dinheiro não dá. Você ou come ou estuda. Das duas, uma”, conta ele, rindo, ao repetir o argumento de seu pai. Embora as dificuldades tentassem estancar a sua vocação, seu talento se sobressaiu.

Ainda garoto, por volta dos 10 anos, ajudava o seu pai e os três irmãos a catar madeira no meio da mata para fazer carvão, depois vendido no comércio de Pilar. A lenha recolhida por eles era o único meio de sustento da família. Dos oitos filhos, apenas Zilda, a irmã mais velha, teve a oportunidade de estudar. Ela assumiu o compromisso de repassar tudo o que aprendia aos irmãos.

Cansados, depois de um dia de trabalho, nem todos tinham o mesmo ânimo para aprender a ler e a escrever. Jorginho era a exceção. O caçula aguardava ansioso as aulas particulares com Zilda. “O meu lápis era uma pedra de carvão e o terreiro de barro era o caderno. Foi assim que eu aprendi a fazer o meu nome e o mundo acabou de me ensinar o jeito de viver”, rememora.

Foi naquela época que teve o primeiro contato com a literatura de cordel. Ao redor de uma fogueira, à noite, os meninos se reuniam para assistir, fascinados, a contações de histórias. “Ficávamos todos atentos, escutando e dando risada. Às vezes, quando a história era grande, passava-se até uma semana lendo o mesmo livreto. Todos curiosos para saber o que ia acontecer no final”, conta. Daí que surgiu o seu interesse por esse gênero literário, e, após algumas tentativas, fui percebendo a facilidade e o domínio natural que possuía para escrevê-lo. “O que não é nada fácil”, pontua.

Com familiaridade crescente com a literatura oral, era natural que Jorge acabasse tendo vontade de desenvolver a sua própria produção poética. No entanto, a urgência de ter seu ganha-pão o obrigou a abdicar do seu talento. Aos 11 anos, trabalhou, com carteira assinada, na construção do Edifício Brêda. “Juntava os pregos, pois não podia fazer outra coisa”. Aos 12, foi empregado de uma fábrica de tecidos em Fernão Velho. E assim se passaram os anos seguintes.

Com o peso da idade avançando, o seu corpo já não dava mais conta de certas atividades. “Foi quando não deu mais pra nada, nem pra vigia. Ninguém queria mais fichar um cabra de 60, 65 anos.”

Mesmo que tivesse exercido atividades que o afastavam da sua derradeira paixão, Jorge nunca deixou de produzir os seus folhetos de cordel.

Duvidando da qualidade do material e com receio de cometer gafes, caso os apresentasse em público, Jorge guardava seus escritos para si mesmo. Manteve o seu dom em segredo até que, numa dessas suas andanças pelo País, fez amizade com um cordelista que iria se apresentar num festival de poesia em Aracaju (SE).

“Conversando com ele, comentei que achava bonito o cordel, tinha alguns já escritos, mas não possuía coragem de subir no palco. Ele me disse: ‘Se você nunca arriscar, não saberá se tem alguma coisa que preste’. Pedi para que ele conseguisse um espaço pra mim na programação. E lá mesmo, me apresentei pela primeira vez. Tremendo, eu subi e recitei. O povo me aplaudiu e foi muito bom”, recorda.

Daquele dia em diante, Jorge deixou de lado a sua insegurança e começou a divulgar o seu trabalho entre amigos e conhecidos. “As pessoas liam e gostavam dos meus cordéis. Aí eu pensei: Não vou mais procurar outra coisa, e já que trabalhar não vai dar mais, vou continuar escrevendo.”

Hoje, ele contabiliza cerca de 100 livretos. Entre os mais conhecidos, estão Maloqueiro Zé Catraca, Conselho de um Velho Pai, O Pobre e a Medicina e Brigas de Amor.

Mas o reconhecimento do seu trabalho, ressalta o artista, veio aos poucos. O cordel O encontro de Tancredo com seu Pedro lá no Céu foi contemplado na categoria melhor crítica política, num prêmio concedido pelo Estado de Minas Gerais. O livro trata da Ditadura Militar e tece uma crítica sobre esse regime político. Sempre modesto, comenta: “Não sei se eu tenho capacidade de escrever uma história como aquela novamente; ficou muito boa.”

Pelo conjunto do seu trabalho e pelo papel que desempenha na preservação da cultura oral nordestina, por meio dos seus cordéis, Jorge Calheiros foi agraciado em 2011 pelo Registro de Patrimônio Vivo de Alagoas (RPV/AL). E em 2010, a história de Matuto Zé Cará foi adaptada para o cinema, no curta-metragem alagoano narrado pelo próprio cordelista e ilustrado em forma de animações criadas pelo artista plástico Weber Bagetti.

“Certa vez, numa brincadeira, criei a história Mulher Feia, dedicada à minha esposa”, conta. Na primeira estrofe do folheto, lê-se:

Me chamo Jorge Calheiros poeta do Clima Bom
Na casa 49, encostada a Mãe do John
Mais feio do que Chico Lopez cantando fora do tom
Minha mulher mais feia na boca só tem um dente
Já nasceu com um peito só parecendo uma serpente
O satanás veio pegou ela e me devolveu novamente

Não à toa, a sua companheira não levou a brincadeira “na esportiva”, o que lhe rendeu alguns “aborrecimentos”.

A inspiração para os causos narrados em seus livros surgem dos fatos que presencia no cotidiano. Prevenido, sabe que boas ideias não têm hora nem lugar para surgirem. Sendo assim, Jorge carrega sempre às mãos um caderninho de anotações.

É difícil imaginar o mestre cordelista incomodado com alguma coisa. Mas se há algo que lhe tira o sossego é a falta de espaço exclusivo para a divulgação da cultura popular alagoana. “Eu tive sorte do povo ter me acolhido. Agradeço muito por isso. Mas os órgãos oficiais têm que divulgar mais. Eu vejo eventos que tem tanta coisa e não aparece um poeta, um cordelista”, observa. Mas o pior mesmo, disse o poeta, é quando alguém não dá valor aos seus versos.

Antes de finalizar o nosso bate-papo, ele fez questão de ressaltar aquela que é uma de suas maiores paixões: Pilar, cidade situada a 34 km de Maceió. “Em Pilar, em vivi poucos anos e, ao mesmo tempo, vivi a minha vida inteira. Veja bem, eu nunca passei um ano sem deixar de visitá-la. Lá, foi a terra em que eu me criei, pobrezinho no tempo, muito pobrezinho. Sou tão apaixonado, que, em homenagem à cidade, fiz um verso que diz:

— Tenho orgulho 1º de ser brasileiro / 2º ser pilarense / 3º ser um guerreiro / 4º lugar ser poeta / E 5º ser Jorge Calheiros — declamou.

Matéria publicada originalmente em Graciliano On-line.