Elayne Pontual

Idealizou o Vidas Anônimas porque acredita que as histórias mais extraordinárias ainda não foram contadas e que as pessoas mais incríveis nunca foram ouvidas.

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Antônio Alves da Silva conheceu a morte logo cedo, aos três anos. Ela não tinha um capuz preto cobrindo a tão imaginada forma esquelética, nem mesmo carregava uma foice. A morte chegou silenciosa, sem cheiro ou cor, deixando um rastro de mistério e saudade.

Pernambucanos, os Silva tiveram que se mudar para Alagoas após o óbito do pai de Antônio. Em Recife, Maria José, mãe de Antônio, trabalhava como empregada doméstica. Chegando em Arapiraca, a família foi trabalhar na roça, nos currais de fumo, apanhando terra para fazer canteiro. Semearam, plantaram e limparam.

Aos dez anos, Antônio passou a ajudar no sustento da família, segurando, por vontade própria, um pequeno cabo de enxada. No ano seguinte, sua mãe se mudou, sozinha, para trabalhar em São Paulo. Antônio ficou aos cuidados da avó materna, que, quatro anos depois, adoeceu, obrigando a filha a voltar para Alagoas.

Foi a segunda vez que Antônio se deparou com a morte.

Ele ainda recorda como foi o enterro da avó. Lembra que o caixão era feito de uma madeira bem fraca, coberta por um plástico azul. Mas o que aconteceu um pouco antes de enterrarem o corpo da progenitora não lhe sai da cabeça.

Antônio conta que, curioso como a maioria das crianças, percebeu vários adultos amontoados num canto do cemitério e decidiu abrir caminho para ver o que estava acontecendo. Empurrou a perna de um, o quadril de outro e, por fim, caiu na cova antes do caixão. O reboliço foi grande, mas o menino saiu inteiro do buraco onde sua avó repousaria para o “sono eterno”.

Maria José, após a morte de sua mãe, voltou a São Paulo, dessa vez levando debaixo dos braços seu único filho.

– Ela voltou pra’quele mundo de cidade carregando uma cruz, que era eu. Passamos um ano e seis meses. Voltamos porque não consegui me adaptar. Lá, a gente morava no teto dos outros. Minha mãe teve que escolher entre o emprego e o filho, então ela me escolheu.

Voltaram. Maria José conseguiu um emprego em Maceió, enquanto Antônio, todos os dias, às cinco horas da manhã, colocava um balaio na cabeça e saia pelas ruas da cidade vendendo pão. Depois disso, ele ainda trabalhou como ambulante e catador de reciclados, mas a profissão que mais se identificou foi a de coveiro.

Há 28 anos, Antônio reduz crânios, rádios, tíbias e úmeros a meros algarismos. Diariamente, ele sepulta corpos estranhos que tiveram vidas com as quais jamais cruzou. Num cemitério municipal de Maceió, no bairro do Bebedouro, Antônio levanta a terra do chão, de segunda-feira a sábado, enterrando carne, ossos e esperança na funda escuridão das sepulturas. Parece ruim, mas ele aprendeu a gostar da profissão e hoje sabe que desempenha um importante papel no palco da vida, onde todos são iguais.

No entanto, há coisas no ofício de coveiro que incomodam e muito a Antônio. Cada pedacinho de seu corpo se contorce de indignação quando trabalha em sepultamentos onde ninguém derrama uma única lágrima.

– Há casos de familiares que, no enterro mesmo, já brigam pelo que ficou – conta, com desprezo no olhar cansado.

O coveiro tem quatro filhos com a ex-esposa. Mas era para ter cinco. A morte bateu em sua porta pela terceira vez, levando o primogênito com 28 dias de nascido. Foi aí que Antônio chorou, chorou muito e, desde então, passou a entender e valorizar o significado de uma lágrima.

– Eu via o sepultamento dos outros e nunca considerei que poderia acontecer comigo. Daí meu primeiro filho morreu, recém-nascido. Sepultamos aqui mesmo, em um terreno que hoje é da minha ex-sogra. Eu sempre passo pelo túmulo dele…

Até hoje Antônio não sabe a causa da morte de seu filho. Na época, deram alta hospitalar à sua esposa, mas não entregaram a criança aos pais.

– Ela [a então esposa de Antônio] veio pra casa e a médica só fez dizer que na segunda-feira meu filho teria alta. Eu perguntei o porquê e ela disse que era rotina do hospital. Meu filho tava brincando e tudo. Quando fui buscar, o menino já estava morto. O hospital disse que ele passou mal… Quando acontece esse tipo de coisa, eles justificam do jeito que querem, aproveitam que somos ignorantes e que estamos sofrendo com a perda.

Como pessoas pobres, o casal preparou um enterro muito modesto, com um caixãozinho branco, medindo uns 50cm. Depois disso, a rotina voltou quieta e aos poucos foi se agitando. O vento continuou soprando, as flores florindo e as pessoas trabalhando como se a realidade não precisasse daquela criaturinha que mal chegou a viver, mas que, com sua curta existência, deu sentido à vida de Antônio.

Foi assim, enfrentando a morte de gente querida, que o coveiro aprendeu a lidar com os vários fins apresentados pela profissão. Ser coveiro ensinou Antônio a compreender e aceitar a própria finitude.

Amanhã, dia 14 de julho, o coveiro Antônio faz 46 anos. Os cabelos grisalhos e o rosto enrugado lhe dão uma aparência de mais idade do que tem. Ele diz não temer a morte e confessa que provavelmente será enterrado onde trabalhou durante boa parte de sua vida. Também não tem medo de assombração. Conta que, em um momento difícil, passou três meses dormindo no cemitério.

É, realmente Antônio tem coragem. Afinal, o coveiro encara todos os dias o fim da esperança, o desespero da separação definitiva, o rompimento do pacto implícito de eternidade. Antônio é homem corajoso não por não temer a morte, mas por não temer a vida.

Como bem disse Mário Quintana, e Antônio há de concordar: Morrer, que me importa? O diabo é deixar de viver!