Casa de Ranquines

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A dor de Ubiratan

Elayne Pontual

Idealizou o Vidas Anônimas porque acredita que as histórias mais extraordinárias ainda não foram contadas e que as pessoas mais incríveis nunca foram ouvidas.

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Nas noites vazias de Maceió, cheio de fome e movido pelo instinto de sobrevivência, ele veste uma “roupa especial” e parte para a luta: cola no corpo uma saia curtinha, monta num salto alto e na autoestima, cobre o rosto de maquiagem, sorrisos e coragem para, assim, garantir o pão do dia. E também o crack, sua droga favorita.

Uma pessoa danada como Ubiratan, apesar das inúmeras dificuldades, tem seus métodos de sobrevivência e quem quiser que diga que seu trabalho não é honesto. Aos 43 anos, dono de uma maturidade exausta, o que lhe importa mesmo é a consciência leve e a dele parece flutuar a cada palavra sincera.

Mesmo já tendo enfrentado situações que, segundo ele, até Deus duvida, Ubiratan alimenta um medo colossal de algo que lhe aperta o peito dia e noite. É uma dor que, na ausência de um teto, o faz sentir como se o peso do céu estrelado ruísse todo sobre sua cabeça. Essa dor se chama solidão, companheira fiel e inseparável das almas muitas vezes classificadas como perdidas. Mas não é a mesma solidão dos melancólicos, não é uma solidão escolhida e acolhida. É a solidão dos abandonados, dos excluídos e rejeitados. É um “estar só” tão absoluto e abissal que a maioria de nós sequer pode imaginar sua concretude.

No entanto, nem sempre Ubiratan esteve sozinho no mundo. Casado dez vezes, um de seus maridos era dono de restaurante e morreu num acidente de carro. Outro foi jogador do CRB – um homem belíssimo, de acordo com ele. Morou também com um matador por encomenda, que dormia amparado por três armas de fogo e o deixava cheio de preocupação. “Eu pensava: ‘meu deus, será que vão matar meu marido e me levar junto?'”. Eis que o matador morre e Ubiratan fica. Viúvo mais uma vez. No total, ele enterrou quatro dos dez esposos.

Apesar de manter seu nome de registro, aceitar sem maiores problemas pronomes masculinos e nunca ter realizado uma cirurgia para mudança de sexo, Ubiratan sempre se reconheceu no gênero feminino e logo cedo determinou o seu ser-no-mundo. Infelizmente essa atitude mudou sua vida para sempre e, aos seis anos, ele sentiu o peso da rejeição.

Tudo começou quando o padrasto percebeu sua delicadeza. Diferente dos outros dez irmãos, Ubiratan era do tipo que andava saltitando e sacudindo os quadris. Pagou caro por seus trejeitos. Castigos, surras e desprezo foram o início de uma injustiça que até hoje deixa marcas profundas, feridas abertas e alguma revolta que ele teima em esconder. “Não sou uma pessoa rancorosa e não gosto de gritar para o mundo o que acontece de ruim comigo”, confessa.

Começou a beber e a fumar aos 13 anos, quando descobriu que o homem que o batia, sequer era seu pai de sangue. Não suportando a última grande surra que levou, decidiu fugir de casa e, para manter seu sustento, foi ganhar a vida num cabaré localizado no Canaã, bairro de Maceió.

As memórias dos maus tratos provocados pelo padrasto, são sua maior perdição. Até hoje, e seus cabelos brancos são testemunhas disso, as recordações o fazem dar passos em falso e quebrar a cara em quedas homéricas. Mas, apesar do excesso de dor, Ubiratan improvisa sua existência e segue atenuando o sofrimento como pode. Difícil é imaginar qual fio invisível suporta um corpo já tão enfraquecido. É mais um desses mistérios que só a vida é capaz de inventar.

Aos 18 anos, ele foi procurado pela mãe que, arrependida, queria oferecer uma existência digna ao filho. Ubiratan trocaria as noites na “casa de amor” por dias inteiros em um salão de beleza. Trocaria calcinhas sexys por um avental, camisinhas por luvas, pesadelos por esperança.

Tudo parecia encaminhá-lo ao paraíso quando a vida resolveu lhe pregar uma grande peça, arrancando de seus braços o escudo protetor, alguém que foi capaz de reconhecer as próprias falhas, lutar contra a intolerância e contra qualquer um que tentasse machucá-lo. A mãe de Ubiratan faleceu levando com ela todos os sonhos onde as águas eram mais limpas e calmas, a tempestade era brisa, a indiferença zelo e a brutalidade delicadeza.

Passado algum tempo, seu padrasto também faleceu, deixando para Ubiratan cada parede da casa que escondeu do mundo as agressões físicas e verbais investidas contra ele. Cada metro quadrado do chão onde Ubiratan corria para fugir da dor. Ubiratan herdou todas as noites de lágrimas e pensamentos confusos sobre o porquê de tanta violência e incompreensão. Naquele lugar, as lembranças ficaram tão vivas que ele quase pôde sentir no corpo o impacto de tudo que ali o atingiu e o feriu.

Não suportou. Vendeu a casa e gastou todo o dinheiro com drogas.

Sem abrigo, foi morar na rua. Se fosse possível, vendia também as calçadas e paredes imundas das praças e becos de Maceió para alimentar o vício no crack, mas a rua não tem dono e nela ninguém é de ninguém. E é aí que mora o perigo. Além da fome e solidão, a vulnerabilidade. Entregue aos riscos e ameaças, desamparado,Ubiratan passou por situações de quase morte: já levou quatro facadas e certa vez caiu, intoxicado e alucinado, de uma cisterna de 45 metros de altura. Outro dia caiu de uma moto e quebrou o nariz, agora torto e amassado. “Só Falta eu levar um tiro. Mas isso não vai acontecer, se Deus quiser”, roga aos céus, contando a própria vida ao apontar as cicatrizes no corpo e na alma.

Mesmo depois de tanto tormento, Ubiratan consegue achar mais motivos para acreditar em Deus do que para duvidar. E a explicação está numa Sexta-feira Santa, quando, vagando pelos entornos da Praça dos Martírios, no Centro da cidade, encontrou e foi encontrado por Luciano de Araújo Alves, o frei Luciano.

Ubiratan foi visto, durante muito tempo, apenas por olhares cegos, agressivos e estereotipados. No entanto, bastou um olhar atencioso e sensato, para que Luciano reconhecesse as feridas causadas pela indiferença. De tanto conviver com os abandonados, o frei sabe identificar facilmente as vítimas da desigualdade, sem precisar observar as camadas de sujeira que os cobre ou se incomodar com o mal cheiro que exalam. Parece fácil, mas esse olhar não é o mesmo de quem passa e apenas olha. É o olhar de quem enxerga e sem palavra diz que compreende, manifesta que ali tem alguém igual. Reconhece o homem ou a mulher e sente que aquela dor lhe diz respeito.

Durante muito tempo Ubiratan acreditou que a bondade já não existia. Através do olhar de Luciano, ele reconheceu em si e no próximo o afeto e a benevolência. Sepultou-se com sua mãe, mas ressuscitou, como Jesus de Nazaré para os cristãos, naquela Sexta-feira Santa.

Ubiratan Joel Marcolino da Silva foi levado em junho de 2013 por Frei Luciano para a Casa de Ranquines, fraternidade de acolhimento de moradores de rua. Sem ingerir bebidas alcoólicas ou qualquer outra droga, Ubiratan serviu em média 200 refeições por dia, dentre café da manhã, almoço e jantar, para cerca de 208 desabrigados como ele.

Hoje, Ubiratan está novamente nas ruas. Fugiu porque a dor de existir falou mais alto e trouxe junto a ela a saudade da euforia provocada pelo consumo do crack. Os amigos da Fraternidade sentem sua falta e ainda esperam por seu retorno, afinal, foi na Casa de Ranquines que ele teve a oportunidade de oferecer aos outros o que durante muito tempo não teve para si. Lá, Ubiratan dividiu a esperança que conquistou com muito esforço, foi um exemplo a ser seguido e isso ninguém pode lhe tirar.

luciano nova

A casa azul

Ana Cecília da Silva

Ela não sabe chutar uma bola e era sempre eliminada nas olimpíadas de matemática na escola. O destino a fez jornalista, afinal a única coisa que sabe fazer bem é contar histórias. Ela podia estar fazendo terapia para se tornar uma pessoa melhor, mas escolheu o jornalismo como divã para as aventuras e desventuras da vida. Ana Cecília escreve também no jornalistaeprafalarmal.blogspot.com.br.

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Abandonos, violência, fome, miséria, todas as mazelas sociais coabitam ali, na simpática casa azul, no meio da ladeira. À primeira vista, apenas uma casa, mas os passantes mal sabem que ali são acolhidas solidões dos mais diversos tipos. É o porto seguro, o abraço, o conforto de toda dor, do corpo e da alma.

Há sete anos, a casa azul acolhe todos aqueles que ninguém quer, que foram jogados como sujeira debaixo do tapete, os esquecidos, os invisíveis, os velhos dos hospitais, as crianças das ruas que comem lixo, os mendigos, os miseráveis, os famintos. Aqueles que não têm sede só de água e nem fome só de feijão. Eles têm, sobretudo, fome de amor, de carinho, de atenção, de abrigo e de abraço. Eles não têm esperança no amanhã e nem brilho nos olhos. Encontram ali, alguém com quem podem contar. Uma família.

Luciano de Araújo Alves, o frei Luciano, tem 26 anos e há cinco resgata solidões na Fraternidade Casa de Ranquines, a casa azul. Descobriu sua vocação quando participava do grupo religioso dos Vicentinos que trabalhava com famílias carentes da região metropolitana de Maceió. E desde lá acredita no poder do abraço. Para ele, o mundo será um lugar melhor quando as pessoas pararem de desprezar o próximo, sorrirem mais, se abraçarem, se olharem nos olhos. Tudo só poderá ser diferente através de uma revolução do amor.

Nas grotas, nas ruas, no submundo onde pouca gente penetra, a fraternidade, hoje com seis religiosos, está presente, resgatando as vidas daqueles que não tem mais com quem contar. Seja no fim ou mesmo no início da vida.

Irmão Luciano, como gosta de ser chamado, tem o brilho nos olhos, daqueles que só quem encontrou seu lugar no mundo, tem. Disse conhecer o sabor da verdadeira felicidade. O servir ao próximo, colocar em prática o imenso amor que recebeu de seus pais e do Criador.

O que fazemos aqui deixaremos de herança para os outros, o bem que aqui semeamos será deixado no ar como uma energia, explica sorridente, com o ar de quem encontrou seu lugar no mundo.

Com o riso solto, cresceu feliz, com a certeza de que as asperezas e amarguras comuns da existência não podiam lhe impedir de semear a esperança, que carrega em si, por um mundo menos desigual, por um mundo de amor, dentro e fora das paredes daquela casa.

A pobreza lhe doía, mas aprendeu desde cedo sobre compaixão. Aprendeu a dividir aquilo que não tinha, aprendeu a somar, a doar a quem tivesse menos e precisasse mais. Preservou em si e compartilhou a noção de solidariedade. Todos eram bem vindos ali, todos os esquecidos. Largou tudo para servir, pai, mãe e casa, queria ser por inteiro para aqueles que viviam sob o céu estrelado, sob as nuvens negras, entregues a toda sorte. E a todo azar.

Velhos esquecidos nos hospitais, abandonados pela família, sem memória e sem futuro. Com o rosto marcado pelo tempo e alma pelas dores, Luciano lembra bem de cada um, de suas histórias e seus medos.

Sem ajuda governamental, a fraternidade sobrevive de doações, de bons corações. Luciano garante que nunca faltou nada, apesar das dificuldades.

Uma das maiores tristezas para o frei é a indiferença das pessoas em relação àqueles que estão abandonados. Um mundo de invisíveis. Como quem estivesse sentado na calçada pedindo esmola fosse indigno de atenção. Uma indiferença que dói em seu coração de carne. Pra suportar as dores do mundo, era preciso então ter um coração de pedra.

Mas ele não perde a esperança. Tem muita gente boa pelo mundo e os bons podem e fazem a diferença. A bondade, a solidariedade podem ser trabalhadas, basta a boa vontade de voltar os olhos para os humilhados. Daqueles que são discriminados, dos ignorados, dos excluídos. Invisíveis para o poder público e para todos aqueles que preferem viver sua cegueira voluntária. Para aqueles que têm carro do ano e dão presentes no Natal. Para aqueles que acham que isso não é problema deles.

Medo? Nem mesmo o mais comum dos medos dentre os mortais, o medo da morte. Luciano tem medo mesmo do juízo final.

Abraço como fonte de cura, o amor como cicatrizante de feridas, para o irmão Luciano, é o que falta. Até existe amor, mas falta entrega. Afinal, quem não precisa de um abraço? Quem não precisa ser ouvido? Quem não precisa de um ombro pra escutar suas alegrias e lamentos? Aqueles que estão na rua principalmente, já tão atormentados pelas mazelas de ordem social e carentes de afeto, tendo muitas vezes a solidão como sua companheira das noites insones e dos dias vazios.

Luciano conta que muitos habitantes da casa azul já relataram que suas vidas foram parcialmente transformadas por um simples bom dia. Um homem contou que certa vez estava na calçada das ruas do Centro de Maceió e alguém lhe deu um bom dia e sorriu. Ele disse que ficou emocionado pelo simples fato de ter sido notado. Não era bem possível ter um bom dia no estado que se encontrava, mas sentiu uma espécie de felicidade por não ser mais um que estava ali e que todos fingiam não ver.

Ninguém olha e eles sentem muito. Se sentem discriminados. Quando é feito um trabalho e perguntam como eles estão, eles dão valor a essa importância, se sentem como reis. E na verdade o que importa é isso, o amor e a dedicação. Eles gostam muito de sentar pra conversar. Gostam quando os encaram, sem receio, como igual.

Com lágrimas nos olhos, frei Luciano conta uma das histórias que mais marcaram aquelas paredes.

Era manhã de maio e faltava alimento. Como dar de comer àqueles que ansiavam por aquele momento? Aquela única certeza que vinha três vezes ao dia, em um mar de incertezas que eram suas vidas.

Frei Luciano saiu desesperado pelas ruas do Centro da capital procurando ajuda, quem lhe pudesse fornecer os alimentos que precisava. Recebeu um não em todos os lugares que foi. Embora a causa fosse nobre, ninguém se dispunha a ajudar. Era preciso dinheiro e dinheiro ele não tinha. E naquela manhã de maio, Luciano chorou. Chorou como uma criança, chorou como um adulto desesperado, chorou como quem não tinha saída. Sentado no chão da cozinha implorou a Deus por misericórdia, pois tinha esgotado suas forças e não queria ver a tristeza nos rostos daqueles que batiam a sua porta à procura de comida.

A campanhia tocou, eram 10h50. Ele viu no portão um rapaz que pedia para conhecer a casa. Sem maiores cerimônias, o frei apresentou os quartos, a sala, os moradores.

– Você me apresentou toda a casa, mas não me levou na cozinha – disse o rapaz.

Luciano envergonhado abriu os armários, a geladeira e a dispensa:

– Como pode ver, tá faltando mistura hoje. Fui atrás, mas não consegui. Só recebi não.

– Então troque de roupa que eu vou lá comprar com você agora. Eu quero ir exatamente aos lugares onde te negaram comida – respondeu decidido.

Compraram tudo o que era preciso e logo os portões estavam abertos, à espera de todos aqueles sorrisos com hora marcada. Aquele dia teve um gosto especial, teve sabor de gratidão, dos que comem e dos que alimentam.

Essa história ficou gravada nas vidas de todos da fraternidade, que apesar dos massacres do dia a dia, o bem ainda persiste, mesmo em meio aos escombros, mesmo em meio às pequenas maldades e omissões cotidianas. Esse mal rotineiro e persistente, camuflado, escondido sob uma máscara de boa índole e caráter. Esse mal, chamado indiferença, estampado na cara de alguns que ainda fingem se importar.

O mundo seria melhor, ou a existência doeria um pouco menos, se fosse feito um esforço pessoal e conjunto para se colocar no lugar do outro, antes de desprezar. Se colocar na pele do outro no minuto anterior ao desprezo.

Uma frase do pensador e quadrinista argentino, Quino, dita pela personagem Mafalda e que ilustra bem essa indiferença de que tanto tratamos : “E não é que neste mundo tem cada vez mais gente e cada vez menos pessoas?”

Mas ainda há esperança nas pessoas, a casa azul é um retrato, a comprovação de que nem tudo está perdido, de que ainda é permitido sonhar, que fazer bem não é questão de romantismo ou idealização, fazer o bem é possível e não é tão difícil. Sabe o coração de carne? Basta ter um.