Carnaval

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Amor é ponte aérea

Glória Damasceno

É uma das, muitas!, pessoas que não está na deselegante lista das 100 personalidades mais influentes do mundo, segundo a Forbes. Outro dia sonhou que era esposa do Jon Bon Jovi e acredita que isso é prenúncio para essa vida, ou para a próxima. Sabe-se lá. Escreve também, quando quer, no blog Apenas uma Fresta.

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Enquanto isso na chamada do celular…

- Oi, amor!

- Oi, paixão. Liguei só para dizer que… Você é bonita e adorável.

- Eu te amo mais do que amei a qualquer outro homem, Bruno.

- Eu te amo de manhã, eu te amo, Rafinha.

- Eu te amo desde o momento em que te vi…

Ninguém descarta a possibilidade de encontrar o amor no frevo da folia carnavalesca. Mas não são todos os foliões de fevereiro que trazem no baú do coração, e da nostalgia, quem o vá ocupar por todos os próximos meses do ano, e da vida. O Carnaval para a biomédica Rafaella Barbosa Vilela Ferreira (27) e o economista Bruno Oliveira dos Santos (31) é o início de um grande e inesperado romance, como são todas as histórias de agasalhar o peito. O casal se conheceu no famoso carnaval de Olinda, município do estado de Pernambuco declarado Patrimônio Histórico e Cultural da Humanidade pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO).

Rafaela nasceu em Santana do Ipanema e se criou em Olivença, ambas cidadezinhas do interior de Alagoas. É a caçula do quarteto de irmãos. Desde “piveta”, já pulava carnaval. Subia nos carros e partia, numa felicidade só!, rumo a Piranhas, município ribeirinho banhado pelo rio São Francisco, o Velho Chico. Bruno é natural de Santos, São Paulo, e morador de Osasco, também no estado paulista. Além dele, há duas irmãs. Bruno é o filho “do meio”. Como sua amada, também dava seus pulos animados, como todo bom garoto de carnaval.

Em 2012, ambos tomaram a mesma decisão. Foram curtir o batuque de fevereiro na histórica Olinda. E foi lá, em meio à folia das cores, dos frevos, dos confetes e das marchinhas, que se conheceram e tornaram a fantasia de quatro dias de carnaval em três anos de relacionamento – os primeiros de toda uma vida a dois pela frente. Descobriram juntos que amor é ponte aérea.

Foram muitos os voos desde o emblemático 18 de fevereiro. Mas o maior voo de todos já tem data para ecoar sentimento adentro e sobrevoar o céu azul da paixão. Escalado para o final de 2015, o casamento, que maltrata Rafinha de tanta ansiedade, promete fazer do dia 21 de novembro um acontecimento memorável. Novembro, nunca antes na história dos amores de fevereiro, será tão doce, como é a noiva de Bruno.

Era sexta-feira, quando Rafaella, umas amigas e um mundaréu de gente de todos os cantos do mundo, chegou a Olinda pela segunda vez. Para Bruno, era o primeiro carnaval na terra do frevo. Coincidência, ou não, Rafinha e ele foram parar na mesma casa. Ao vê-lo, comentou com a prima Flávia o quanto aquele moreno, alto e sorridente era bonito. Mas, neste dia, Bruno não chegou a vê-la. A reciprocidade da paquera viria no dia seguinte, depois que galanteios de sábado foram feitos e o domingo era amanhecer. Ficaram juntos, enfim.

Ele não lembra o porquê de ter ido conversar no sábado justo com Rafaella. Contudo, sejam lá quais foram as razões, a escolha não poderia ter sido mais acertada. Naquele dia, nem ele imaginaria que acabava de fazer uma escolha do tipo que fazemos poucas vezes na vida: escolheu, ainda sem saber, um amor de duração – classificação a ser elencada na lista de amores coléricos de Gabriel García Marquez.

Passaram o resto do carnaval trocando carinhos – sempre que olhares eram encontro – e banalidades via celular. Todavia, as mãos, que hoje não se desatam, principalmente quando o assunto é a história deles dois, ainda não tinham entrelaçado todos os dedos, embora o médio – o do coração – estivesse a caminho das grandes pulsações, como foram todas as flores, os bombons, as mensagens, as ligações, o anel de compromisso. E o de matrimônio.

“A menina mais linda da paróquia”, segundo Bruno, jamais cogitou que a distância não seria problema. Nem soprava pela cabeça do casal que aquela curtição de fevereiro, fosse se transformar em amor de janeiro a janeiro. Continuaram se falando, mesmo quando carnaval já era cinzas. E no primeiro final de semana de março, por um feliz equívoco, Bruno estava em Maceió. “Às vezes, você faz tanta coisa que não quer, né?! Eu vou fazer uma coisa que eu quero. Eu vou vê-la”, rememora o pensamento daquele dia.

Para ele, não foi um sacrifício embarcar aos finais de semana para estar com Rafinha. Bruno nunca teve que vir a Maceió. Bruno sempre quis vir a Maceió. Bruno, até hoje, é chegada e partida sem querer. Porque era, e é!, para ela que ele ligava para conversar – ele, que não tinha o costume de ligar para ninguém.

Depois da primeira vez que aterrissou em terras alagoanas, só ficou sem vir à Princesinha do Mar por 3 semanas seguidas uma única vez, e quando já eram namorados. Rafinha, que era felicidade em estampa, foi buscar no aeroporto o seu presente de aniversário. Ela era regozijo e por sê-lo não soube o que fazer, quando o reencontrou no aeroporto. Por não saber, o recepcionou com um carinhoso beijo no rosto. “Eu vim de tão longe pra ganhar um beijo no rosto?”, relembra Bruno às gargalhadas. Rafinha justifica tapando o riso com as mãos, como se fosse possível encobrir o quão abobalhada lhe faz Bruno: “Ah, eu não era namorada dele, né?” Não era ainda.

Quando vocês perceberam que era mais que um amor de carnaval?

- Quando eu vinha pra cá (Maceió), chegava domingo à noite e eu ficava na maior “deprê”, né?! Eu tinha que ir embora, já que trabalho de segunda a sexta…

- Ninguém sai de São Paulo finais de semana a fio só para curtir…

Os amigos de Rafinha desafiavam até quando ia durar a “empolgação” dos dois por causa da distância. Mas os incrédulos de coração só não sabiam que entre as vindas de Bruno e as idas de Rafinha, como quando ela foi em maio para conhecer a família dele, havia um motivo que fez de tudo possível. Aos poucos, tanto eles, quanto os desafiadores entenderam: era amor o combustível.

Em julho, quando já eram namorados oficialmente, Bruno foi à cidade de Rafinha para conhecer os pais dela. Confessa que amor à primeira vista mesmo, só por Olivença. “Banho gelado, muriçoca, a cidade que nunca chega…”, diverte-se Bruno. Há que se amar um bocado para suportar os poréns da relação. A tríade acima é um exemplo fiel aos todavias.

O pedido de casamento, ano passado (2014), como tudo que veio/vem de Bruno, foi uma surpresa feita de emoção. Ele havia programado fazê-lo, quando dessem um mergulho nas piscinas naturais da caribenha Maragogi. Mas a direção dos ventos sempre contraria as expectativas dos planos de Bruno. Rafinha não só se negou a mergulhar, como, por um deslize dele, viu a aliança na mão brilhando em sinal de “sim” para a vida inteira.

“Eu imagino que pra você casar com uma pessoa, você tem que admirar ela. Admirar o que há de diferente nela.” O sotaque, o jeito de falar, a origem de sua noiva, as palavras que até então não constavam no dicionário de Bruno, e todas as definições que estão por vir, foram, e continuam sendo, encantamento aos olhos e ouvidos do economista, ainda que de vez em quando não entenda um dito ou outro acolá. Além do amor em cada gesto, e de ser ele um homem que a conquistou pela inteligência, e pela beleza do ser, o que Rafinha mais gosta em Bruno é a capacidade que ele tem em ser cúmplice.

“Quando meu pai morreu, a gente não tinha nem um ano de namoro. Perdi ele num domingo às 22h. Às 8h da manhã da segunda, Bruno já estava aqui comigo. Foi muito importante pra mim”, conta ao chorar saudade e gratidão por, especialmente neste dia, ele ter estado para ser abraço. E conforto incondicional.

Bruno não se considera um homem romântico, embora Rafaela afirme que ele é mais romântico que ela. E desata em sensatez: “O gesto, muitas vezes, envolve romantismo, né?!” Sendo o gesto sinônimo de sorriso no rosto da futura esposa, então ele vai lá e compra as orquídeas e os serenatas.

Concordam que amor “também é loucura”, já que quando os convidaram a entrar pelas portas e janelas de suas vidas, o casal mal se conhecia. “Quando eu vinha (a Maceió), eu falava que vinha buscar meu coração” repete o bem-humorado Bruno o que dizia meio sem jeito. Só que toda semana ele deixava o amor em Maceió, para levar consigo a São Paulo na próxima, e na próxima, e na próxima semana. Semanas que pareciam não acabar nunca. Dias essencialmente feitos de “outra vez” infinito.

Dia 21 de novembro de 2015, será das mãos de Sandra Barbosa, mãe de Rafinha, que Bruno Oliveira dos Santos a receberá. “Não há pessoa que represente melhor meu pai do que ela (minha mãe)”, afirma a noiva do ano.

Mais que um amor de carnaval, Rafinha é…

– Minha vida!

E Bruno…

– A vontade de tá junto, de ver o outro crescer. São as alegrias. É o meu amor. Tudo, tudo que eu pedi a Deus.

 

Foto: Arquivo pessoal

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Pedro Tarzan, o rei do Carnaval alagoano

Francisco Ribeiro

É jornalista. E-mail: chicoribeiro@msn.com

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Um homem corpulento e de pele negra, Pedro Ferreira Auta (1929-2001) mantinha uma espécie de “ritual” para confeccionar suas fantasias carnavalescas. Para evitar ser incomodado pelos comentários alheios sobre os trajes que produzia, ele buscava se isolar do contato com as pessoas. “Não queria ouvir a opinião de ninguém”, confessou ao cineasta alagoano Pedro da Rocha, no documentário Memórias de um herói de carnaval (1988).

Não era segredo para ninguém. Bastava perguntar para Pedro Ferreira de onde vinha a inspiração para criar as suas fantasias que ele revelava sem nenhum rodeio: “Através dos filmes que vinha assistindo, como O Grande Guerreiro, com Victor Matuse, Um Passo da Morte, com Kirk Douglas, Talhado em Granito, com Randolph Scott e O Último Guerreiro, com Jack Palance”. Desfilando pelas ruas durante as festas momescas vestido de heróis dos épicos hollywoodianos, ele logo se tornou “o rei do Carnaval alagoano”.

Nascido no município sergipano de Malhador, ainda jovem o folião fixou residência em Maceió, por volta de 1952. “Viemos para a miséria, para a cidade… penar”, lembrou. Antes, morou alguns anos em Aracaju e, em seguida, no pequeno povoado alagoano de Riacho Velho. Descendente de índio e de negro, cresceu ao lado de 18 irmãos. “Mas morreram um bocado. Eu não sei a quantia” (sic), pontuou, afirmando que teve a sorte de, desde criança, se destacar entre os demais: “Parecia que eu tinha um espírito elevado”.

Em Maceió, Pedro trabalhou como funcionário da prefeitura até aposentar-se. A primeira vez em que desfilou, vestiu uma fantasia de índio, mas confessou não ter achado “muito adequado”. Numa avaliação crítica de si mesmo, disse: “Eu tenho que me aperfeiçoar”. Para tanto, assistiu a diversos filmes e fez releituras dos figurinos dos personagens. Em 1956, iniciou suas atividades como carnavalesco “de carteirinha”, apresentando-se como Comanche, inspirado no filme O Grande Guerreiro (1955), fantasia confeccionada com penas de peru e pavão, lantejoulas, galões, papelão e areia brilhante.

Após a leitura do livro Força e Saúde e com o objetivo de assemelhar-se fisicamente à figura do gladiador romano, interpretado por Kirk Douglas, no filme Spartacus (1960), o folião começou a praticar halterofilismo. A prática esportiva lhe rendeu a alcunha de “Pedro Tarzan”, ao vencer um concurso de força em Maceió, na década de 1950. “Na época, estava passando Tarzan, com Johnny Weissmuller. Aí o apelido pegou”, rememorou.

Suas fantasias sempre bem elaboradoras e o corpo atlético renderam tamanha fama entre os foliões que Pedro desfilava protegido por um cordão de isolamento. Ao longo dos anos 70, ele viveu seu apogeu. Foi durante esse período que frequentou o Museu Théo Brandão, então administrado pela museóloga Carmen Lúcia Dantas. “Ele era um homem de muita paz, voz mansa, pausada. Ao mesmo tempo que tinha um físico extraordinário, com os poderes masculinos tão aflorados, ele parecia ser predestinado para as mulheres se afastarem dele. E a gente se divertia e também tinha pena das mágoas amorosas que ele nutria”, conta Carmen.

Aos 71 anos, debilitado e sem desfilar havia quase uma década, Pedro “apareceu na TV e explicou o verdadeiro sentido da festa popular através dos microfones de uma emissora derádio. Foi a última vez”, noticiou o extinto O Jornal (06/07/1999). Impossibilitado de falar e de andar, o velho folião, que sofria com artrite e artrose, teve seu quadro de saúde agravado após um acidente vascular cerebral.

Pedro Ferreira Auta faleceu em 2001, aos 72 anos de idade, “na mais absoluta miséria”, segundo afirmou seu filho, Gerson Ferreira Mamede, que permanece na luta pelo reconhecimento do seu pai, “o rei do Carnaval alagoano”.

Trecho da matéria ‘Cortejo Fantástico’, publicada na revista Graciliano nº 20.