amor

FOTO: GLÓRIA DAMASCENO

Está escrito: Benedito Destemido e Zizi Cabocla

Glória Damasceno

É uma das, muitas!, pessoas que não está na deselegante lista das 100 personalidades mais influentes do mundo, segundo a Forbes. Outro dia sonhou que era esposa do Jon Bon Jovi e acredita que isso é prenúncio para essa vida, ou para a próxima. Sabe-se lá. Escreve também, quando quer, no blog Apenas uma Fresta.

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Em uma escala de 0 a 10 mandacarus, a probabilidade de eu avistá-los sentados na cadeira de balanço, sentindo o vento fresco do sertão no rosto, é de nove. Maria Ezequiel Santana (94) e Benedito Geraldo da Silva (84) passam a maior parte do tempo emoldurando a paisagem interiorana do Caboclo, povoado do município de São José da Tapera, no alto Sertão de Alagoas. Eu sempre os encontro com os olhos, quando meu final de semana é visita aos meus avós, e meu lugar é no banco do carona.

Dona Zizi, como todo mundo a conhece no povoado onde mora há 7 anos, está sempre com uma fralda atando os cabelos e com um vestidinho florido, apoiando a ociosidade e os pés no chão. É filha de um “magote” de irmãos. Acredita que tudo está marcado por Deus, como coisa de destino: está escrito na eternidade dos céus e da terra seca do Sertão.

É de costume ver Seu Benedito bem à vontade, sem camisa e de bermuda, tendo apenas sobre o peito um colar com a imagem de uma santa e outro colar verde-limão. Dos 5 irmãos, é o único vivo, para alegria não confessa de Dona Zizi.

Zizi aparenta não ter muita intimidade com a paciência e com a doçura. Com ela, a resposta é na “moringa”. Sem delongas ou polvilho de rapadura. Sobre esses aspectos da personalidade de Dona Zizi, Seu Geraldo ri. Ri de tudo. Parece achar linda toda a “brabeza” incontida da esposa. Parece que quanto mais ela se pinta de ira, mais ele acha graça.

Puxei um banco, desejei uma “boa tarde”, disse de quem eu era neta e logo minha companhia pelos próximos 40 minutos foi aceita. (Seu Dimuriê e Dona Aparecida, meus avós, são carta na manga!). Perguntei há quantos anos eles estavam casados e Seu Benedito não se demorou a responder: “A vida toda!” E “a vida toda” é a mais de 30 anos. Mas parece pouco para Dona Zizi. Para ela “já tá pegando uns 100 anos [de matrimônio]…” Eu também diria o mesmo. A pele acidentada pelo tempo é prova de que o ponteiro não deu trégua.

Seu Benedito é agricultor. Estudou até a 3ª série. Mas até já foi professor “de menino”. Dona Zizi é costureira. “Eu fazia umas roupinhas. Hoje em dia, me esqueci [como faz]. Pessoal só quer roupa com muita boniteza. Às vezes faço lençol. Nem perguntam o preço, fica aí de monte. Aí dou a quem meu coração pede”, desabafou Zizi, a morena de Seu Benedito. E emendou, feito os retalhos de seu ofício: “Naquele tempo, minha fia, a gente estudava o ‘A’ com o ‘B’ para saber como era. Eu chegava na casa de uma tia minha e aí ela me ensinava uma letra ou duas. Eu fui aumentando, aumentando [as letras]… Mas não foi por causa da escola, não”, cozeu explicação.

O casal tem neto, bisneto e até tataraneto. “Só não vou contar [quantos são], porque cansa a língua”, gracejou Dona Zizi.  São pais de 8 filhos, mas 3 morreram ainda “criança”. Hoje estão vivas 3 mulheres e dois homens, que tiveram pouco estudo e só os visitam aos pedidos do pai. “Só veem aqui quando eu chamo”, disse em tom de conformismo Seu Benedito, que carrega no peito um amuleto-crucifixo.

A pareia nasceu e se criou em Olivença, municipalidade alagoana. Mas depois foram “morar em todo canto por aí.” Enumeraram então onde já residiram as cadeiras de balanço: “Santana do Ipanema, Juazeiro, Piau, Delmiro Gouveia, Tapuio, aqui [Caboclo] e na roça.” Segundo Dona Zizi, eles são como “passarinho avoando pra lá e pra cá.” Pela lista, alguém aí tem alguma dúvida disso?

Quando se casaram, Seu Benedito tinha 30 e poucos anos. Já Dona Zizi, de acordo com as contas dele, uns 40 e outros tantos. Contudo nem no tempo que era para namorar, Zizi facilitava, como sorridente disse o esposo. “Era na lei do apulso.” Achando pequena a cutucada, Seu Benedito insistiu, como quem realmente gosta de ver a esposa arretada da vida: “Ela espiava no buraco da parede pra ver o noivo.” Como esperado, Dona Zizi esbravejou: “Quem espiava? A frieira!” Gargalhou Seu Benedito. “Eu espiava pelo buraco das cercas, quando passava a pé pro Tapuio. Eu via ele passando. Deus marcou ele [na minha vida].” E rogou: “Deus queira que marque você com uma pareia só. Nós [ela e Seu Benedito] nunca dissemos que um é feio e o outro é bonito depois de tantos anos de casados”, disse a mim o que não é segredo na sua caixinha de linhas, agulhas e lembranças.

Geralmente, Seu Benedito acorda às 5h da manhã. Vai logo colocar feijão no fogo. Enquanto isso, a linha de seus pontos, Dona Zizi, costura tempo livre na cama. “Eu fico deitada. Num tem o que fazer. Quando tem, me levanto mais cedinho”, justificou Zizi para que ninguém pense que ela é preguiçosa, afinal de contas quem lava, passa, cozinha é ela. “Às vezes, a mais velha [a filha que mora no povoado] faz alguma coisa.” E completou: “Quando eu era moça, eu pegava no cabo da inchada, todo trabalho pesado eu fazia. Eu nunca me escorei em nada na minha vida.”

Com inquietação, contou: “Eu gosto de ter o que fazer. No dia que não tem, eu fico doente. A casa é lambida, os pratos é lambido. O que eu vou fazer? Correr na rua?”, eu disse que não era uma boa ideia. Ela riu e concordou comigo.

Moram sozinhos “com Deus, Maria Santíssima” e com todos os porta-retratos da família e quadros de imagens de santos, do tempo que Seu Benedito viajava ao Juazeiro. “Toda vez que eu viajava, eu trazia 1-2.” Por conta desses quadros espalhados pelas paredes brancas da casa, há quem pense que Dona Zizi é “macumbeira”. “O pessoal passa por aqui e pergunta se é a casa da senhora que reza macumba. Eu fico mordida”, contou-me enfurecida, suspendendo as penas no ar. E me garantiu duas coisas: “Nunca me esqueci das palavras de Deus. De reza, minha fia, eu só sei a que a gente faz antes de comer.”

“Eu acredito em Jesus Cristo.” “Do mesmo jeito” disse Seu Benedito. “Somos duas pessoas num corpo só: eu e ela.” Zizi olhou de soslaio, sem muito dar valor à declaração do marido. Ele gargalhou da malcriação. Ela não é fácil, nem Seu Benedito é de desistir.

Para eles, a vida é boa, porque nunca faltou o pão. Mas ambos esperam pela salvação divina. Aos olhos de Seu Geraldo, a maior alegria da vida dele é a mulher. Poder viver com sua cabocla até “quando Deus quiser”. Virtude para Seu Geraldo é a pele morena de Zizi. (Benedito não sabe conjugar desistência!) E penso que amolecer o coração bruto da esposa é seu dever-de-casa aqui na terra. No fundo, deve ser amor todos os “nãos” disfarçados de sim de Dona Zizi. Como ela diria, está escrito no céu que seria assim, até que tudo seja eternidade.

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Amor é ponte aérea

Glória Damasceno

É uma das, muitas!, pessoas que não está na deselegante lista das 100 personalidades mais influentes do mundo, segundo a Forbes. Outro dia sonhou que era esposa do Jon Bon Jovi e acredita que isso é prenúncio para essa vida, ou para a próxima. Sabe-se lá. Escreve também, quando quer, no blog Apenas uma Fresta.

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Enquanto isso na chamada do celular…

- Oi, amor!

- Oi, paixão. Liguei só para dizer que… Você é bonita e adorável.

- Eu te amo mais do que amei a qualquer outro homem, Bruno.

- Eu te amo de manhã, eu te amo, Rafinha.

- Eu te amo desde o momento em que te vi…

Ninguém descarta a possibilidade de encontrar o amor no frevo da folia carnavalesca. Mas não são todos os foliões de fevereiro que trazem no baú do coração, e da nostalgia, quem o vá ocupar por todos os próximos meses do ano, e da vida. O Carnaval para a biomédica Rafaella Barbosa Vilela Ferreira (27) e o economista Bruno Oliveira dos Santos (31) é o início de um grande e inesperado romance, como são todas as histórias de agasalhar o peito. O casal se conheceu no famoso carnaval de Olinda, município do estado de Pernambuco declarado Patrimônio Histórico e Cultural da Humanidade pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO).

Rafaela nasceu em Santana do Ipanema e se criou em Olivença, ambas cidadezinhas do interior de Alagoas. É a caçula do quarteto de irmãos. Desde “piveta”, já pulava carnaval. Subia nos carros e partia, numa felicidade só!, rumo a Piranhas, município ribeirinho banhado pelo rio São Francisco, o Velho Chico. Bruno é natural de Santos, São Paulo, e morador de Osasco, também no estado paulista. Além dele, há duas irmãs. Bruno é o filho “do meio”. Como sua amada, também dava seus pulos animados, como todo bom garoto de carnaval.

Em 2012, ambos tomaram a mesma decisão. Foram curtir o batuque de fevereiro na histórica Olinda. E foi lá, em meio à folia das cores, dos frevos, dos confetes e das marchinhas, que se conheceram e tornaram a fantasia de quatro dias de carnaval em três anos de relacionamento – os primeiros de toda uma vida a dois pela frente. Descobriram juntos que amor é ponte aérea.

Foram muitos os voos desde o emblemático 18 de fevereiro. Mas o maior voo de todos já tem data para ecoar sentimento adentro e sobrevoar o céu azul da paixão. Escalado para o final de 2015, o casamento, que maltrata Rafinha de tanta ansiedade, promete fazer do dia 21 de novembro um acontecimento memorável. Novembro, nunca antes na história dos amores de fevereiro, será tão doce, como é a noiva de Bruno.

Era sexta-feira, quando Rafaella, umas amigas e um mundaréu de gente de todos os cantos do mundo, chegou a Olinda pela segunda vez. Para Bruno, era o primeiro carnaval na terra do frevo. Coincidência, ou não, Rafinha e ele foram parar na mesma casa. Ao vê-lo, comentou com a prima Flávia o quanto aquele moreno, alto e sorridente era bonito. Mas, neste dia, Bruno não chegou a vê-la. A reciprocidade da paquera viria no dia seguinte, depois que galanteios de sábado foram feitos e o domingo era amanhecer. Ficaram juntos, enfim.

Ele não lembra o porquê de ter ido conversar no sábado justo com Rafaella. Contudo, sejam lá quais foram as razões, a escolha não poderia ter sido mais acertada. Naquele dia, nem ele imaginaria que acabava de fazer uma escolha do tipo que fazemos poucas vezes na vida: escolheu, ainda sem saber, um amor de duração – classificação a ser elencada na lista de amores coléricos de Gabriel García Marquez.

Passaram o resto do carnaval trocando carinhos – sempre que olhares eram encontro – e banalidades via celular. Todavia, as mãos, que hoje não se desatam, principalmente quando o assunto é a história deles dois, ainda não tinham entrelaçado todos os dedos, embora o médio – o do coração – estivesse a caminho das grandes pulsações, como foram todas as flores, os bombons, as mensagens, as ligações, o anel de compromisso. E o de matrimônio.

“A menina mais linda da paróquia”, segundo Bruno, jamais cogitou que a distância não seria problema. Nem soprava pela cabeça do casal que aquela curtição de fevereiro, fosse se transformar em amor de janeiro a janeiro. Continuaram se falando, mesmo quando carnaval já era cinzas. E no primeiro final de semana de março, por um feliz equívoco, Bruno estava em Maceió. “Às vezes, você faz tanta coisa que não quer, né?! Eu vou fazer uma coisa que eu quero. Eu vou vê-la”, rememora o pensamento daquele dia.

Para ele, não foi um sacrifício embarcar aos finais de semana para estar com Rafinha. Bruno nunca teve que vir a Maceió. Bruno sempre quis vir a Maceió. Bruno, até hoje, é chegada e partida sem querer. Porque era, e é!, para ela que ele ligava para conversar – ele, que não tinha o costume de ligar para ninguém.

Depois da primeira vez que aterrissou em terras alagoanas, só ficou sem vir à Princesinha do Mar por 3 semanas seguidas uma única vez, e quando já eram namorados. Rafinha, que era felicidade em estampa, foi buscar no aeroporto o seu presente de aniversário. Ela era regozijo e por sê-lo não soube o que fazer, quando o reencontrou no aeroporto. Por não saber, o recepcionou com um carinhoso beijo no rosto. “Eu vim de tão longe pra ganhar um beijo no rosto?”, relembra Bruno às gargalhadas. Rafinha justifica tapando o riso com as mãos, como se fosse possível encobrir o quão abobalhada lhe faz Bruno: “Ah, eu não era namorada dele, né?” Não era ainda.

Quando vocês perceberam que era mais que um amor de carnaval?

- Quando eu vinha pra cá (Maceió), chegava domingo à noite e eu ficava na maior “deprê”, né?! Eu tinha que ir embora, já que trabalho de segunda a sexta…

- Ninguém sai de São Paulo finais de semana a fio só para curtir…

Os amigos de Rafinha desafiavam até quando ia durar a “empolgação” dos dois por causa da distância. Mas os incrédulos de coração só não sabiam que entre as vindas de Bruno e as idas de Rafinha, como quando ela foi em maio para conhecer a família dele, havia um motivo que fez de tudo possível. Aos poucos, tanto eles, quanto os desafiadores entenderam: era amor o combustível.

Em julho, quando já eram namorados oficialmente, Bruno foi à cidade de Rafinha para conhecer os pais dela. Confessa que amor à primeira vista mesmo, só por Olivença. “Banho gelado, muriçoca, a cidade que nunca chega…”, diverte-se Bruno. Há que se amar um bocado para suportar os poréns da relação. A tríade acima é um exemplo fiel aos todavias.

O pedido de casamento, ano passado (2014), como tudo que veio/vem de Bruno, foi uma surpresa feita de emoção. Ele havia programado fazê-lo, quando dessem um mergulho nas piscinas naturais da caribenha Maragogi. Mas a direção dos ventos sempre contraria as expectativas dos planos de Bruno. Rafinha não só se negou a mergulhar, como, por um deslize dele, viu a aliança na mão brilhando em sinal de “sim” para a vida inteira.

“Eu imagino que pra você casar com uma pessoa, você tem que admirar ela. Admirar o que há de diferente nela.” O sotaque, o jeito de falar, a origem de sua noiva, as palavras que até então não constavam no dicionário de Bruno, e todas as definições que estão por vir, foram, e continuam sendo, encantamento aos olhos e ouvidos do economista, ainda que de vez em quando não entenda um dito ou outro acolá. Além do amor em cada gesto, e de ser ele um homem que a conquistou pela inteligência, e pela beleza do ser, o que Rafinha mais gosta em Bruno é a capacidade que ele tem em ser cúmplice.

“Quando meu pai morreu, a gente não tinha nem um ano de namoro. Perdi ele num domingo às 22h. Às 8h da manhã da segunda, Bruno já estava aqui comigo. Foi muito importante pra mim”, conta ao chorar saudade e gratidão por, especialmente neste dia, ele ter estado para ser abraço. E conforto incondicional.

Bruno não se considera um homem romântico, embora Rafaela afirme que ele é mais romântico que ela. E desata em sensatez: “O gesto, muitas vezes, envolve romantismo, né?!” Sendo o gesto sinônimo de sorriso no rosto da futura esposa, então ele vai lá e compra as orquídeas e os serenatas.

Concordam que amor “também é loucura”, já que quando os convidaram a entrar pelas portas e janelas de suas vidas, o casal mal se conhecia. “Quando eu vinha (a Maceió), eu falava que vinha buscar meu coração” repete o bem-humorado Bruno o que dizia meio sem jeito. Só que toda semana ele deixava o amor em Maceió, para levar consigo a São Paulo na próxima, e na próxima, e na próxima semana. Semanas que pareciam não acabar nunca. Dias essencialmente feitos de “outra vez” infinito.

Dia 21 de novembro de 2015, será das mãos de Sandra Barbosa, mãe de Rafinha, que Bruno Oliveira dos Santos a receberá. “Não há pessoa que represente melhor meu pai do que ela (minha mãe)”, afirma a noiva do ano.

Mais que um amor de carnaval, Rafinha é…

– Minha vida!

E Bruno…

– A vontade de tá junto, de ver o outro crescer. São as alegrias. É o meu amor. Tudo, tudo que eu pedi a Deus.

 

Foto: Arquivo pessoal