Glória Damasceno

É uma das, muitas!, pessoas que não está na deselegante lista das 100 personalidades mais influentes do mundo, segundo a Forbes. Outro dia sonhou que era esposa do Jon Bon Jovi e acredita que isso é prenúncio para essa vida, ou para a próxima. Sabe-se lá. Escreve também, quando quer, no blog Apenas uma Fresta.

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“Virou a casaca?!”, me pergunta o Abençoado em tom de galhofa logo quando cheguei, dois meses depois, de uma viagem à Argentina. Respondi que ter virado a casaca não era bem a expressão, mas que não poderia mentir pra ele. Confessei em interrogação: O que posso fazer eu com metade do meu coração branco e azul? Pintar de verde e amarelo de novo?” Sorrimos. Me segredou saudade. Eu também.

Isaías José Vilela da Hora era um dos quatro porteiros do edifício onde moro. Mas foi transferido. O Abençoado – como toda a gente aqui do Mediterrâneo o chama – agora está como auxiliar de limpeza. Antes de vir pra cá, há 3 anos, trabalhava com obras. Limpar toda a sujeirada de dois blocos, cada um com 6 andares e 3 apartamentos por piso, não é bem o que gosta de fazer, mas me assegura que tem gente em situação muito pior.

Como seu próprio sobrenome entrega, e até seu apelido carinhoso, ele é gente boa. Suponho que de um metro e meio não passa. Cabe no abraço, acompanhado de cafuné, do Seu Macena – um dos condôminos do meu bloco. Diverte-se quando o velho cheio de saúde lhe afasta em gracejo: “Sai pra lá, coisa ruim!”, que de ruim não tem nada. “É uma benção”, como todos os filhos “Dele” e o mundo que enxerga com bondade.

Mulato de olhos verdes, prestativo, sorridente, bem-humorado. Para o Abençoado “boa praça”, “da hora”, como em gíria juvenil, parece que o tempo não passa de um tempo bom. Às 7h30, ele já está de pé. Ao meio-dia para. Almoça e volta pra continuar removendo a imundície, como se fosse possível limpar todo o lixo da vida de tanta gente e pior: em um dia. E pior ainda! Como se ele tivesse esse poder, mas ele tenta, apesar de ninguém nunca estar satisfeito, “falam de todo jeito”, desabafa no eco da escadaria.

Aos 38 anos, tem dois filhos: Lucas (11) e Lilen (17), que pelo nome pensei ser do sexo feminino. Acontece! (Se você também pensou o mesmo, caro leitor, acho que não pensa mais!) Está casado há 12 anos. Conheceu a amada num banquinho de praça, quando tinha duas vezes seis anos de idade. Um dos filhos mora com a sogra e sobre ele prefere pular o assunto. Seguimos então com meu interrogatório, anunciado há 2 semanas, depois de descer e subir as escadas dos blocos A e B umas 7 vezes. (Adíos, sedentarismo!)

No momento da entrevista, Isaías estava recolhendo o lixo e colocando sacolas novas. Não podia parar o trabalho pra ficar de papo comigo. Eu o entendi, claro. Decidi ir junto feito sombra. O odor das caixas de pizza, restos de comida, garrafas de plástico, utensílios de casa, estava quase insuportável, mas se o Abençoado aguentava, eu também podia. “Essa Glorinha é fogo”, ria de riso cheio. Embebedamos o prédio ao som de “Deus é fiel” de Samuel Ariano.

Importante dizer: Isaías é evangélico, como sua esposa e um de seus filhos, para sua “honra e glória”. Conta com uma leve gagueira que “a juventude hoje não quer nada com Deus”, como um de seus filhos. Isso o entristece. Apaga o sorriso do homem que acredita que o filho ser crente é uma boa. Porque o resto, “o resto Deus manda”. Pergunto a ele quando se converteu.

Diz que há 10 anos “Ele tocou no meu coração, mudou a minha vida…” Me inquieto. Ainda não me dei por satisfeita e complemento:

– Ninguém te convidou para ir à igreja?

– Não, fui sozinho.

– Sozinho? Assim? Do nada? Resolveu um dia ir lá e pronto?

– Às vezes você num tem vontade de ir prum canto e vai?

– Sim, às vezes a gente tem vontade de ir. E pura e simplesmente vai…

Morava na Barra de São Miguel, mas veio novo, “de fralda”, para Maceió. Tem tanto irmão que até perdeu as contas e solicitou a ajuda dos dedos. Oito. Oito irmãos, fora os hermanos da graça “Dele”. Só pode estudar até a 4ª série. Teve que escolher entre o trabalho e o estudo. Optou pelo primeiro, porque não dava pra começar a ganhar dinheiro depois. A família era grande e Isaías nunca quis nada mesmo, além de trabalhar. Nem mesmo viver “no mundo da lua”, como eu ao lhe contar que já quis ser astronauta quando menina.

Ele sonha em ajeitar a casa. Falta pouco, assim me conta. À noite até trabalha na construção dela às vezes. E acha que a vida dele não tem nada de mais, enquanto vai me dizendo pra anotar tudo. “A minha vida é simplicidade”, desata – como se isso não fosse nem bom, nem ruim. Cheio dos dizeres bíblicos é um homem também do mar. Adora pescar sempre. Mas adverte:

“Sempre é sempre quando posso. Anote aí!”, sobrevoa ele com seus olhos cor de esmeralda no meu bloco para ter a certeza de estar anotado.

Adora criança. Brinca, abraça, bagunça o cabelo do garotinho que chega da escola tagarelando que teve circo no colégio dele hoje. Contenta-se com a inocência do pequenino, que parece lhe adorar também. (E quem não o adora? Sei que sou suspeita pra falar!)

E antes que nos despeçamos, até o próximo “Bom dia/Boa tarde/Boa noite, Abençoada (o)!”, ele me desafia a falar mexicano com o Davi- outro porteiro do prédio. Tentei negociar com o meu castelhano, mas japonês é demais pra mim. Rimos. A vida parecia boa, “uma benção”, diria Isaías.