Ao atravessar a rua e entrar na Vila já posso ouvir as crianças correndo por todos os lados. São risos e gritos de felicidade. Alguns homens conversam no bar e as mulheres separam o camarão que acabou de chegar da pesca.

Ela está sentada na porta do seu barraco, com um avental sujo e olhar perdido, como se pensasse em alguma coisa que a levasse para distante. Os cabelos brancos não deixam mentir sua idade e todas as lutas que travou para chegar até ali.

Com 66 anos nos ombros já cansados, Mariluse Alves dos Santos, marisqueira desde os 10, abre um sorriso quando me aproximo e se oferece para compartilhar comigo um pouco de sua história, que se mistura à história da Vila dos Pescadores, morada de seu coração.

Para ela, a Vila é fonte de sentimentos contraditórios, amor e medo. O embate com a municipalidade tem lhe tirado o sono, pois não sabe quando terá que sair do lugar onde criou laços e raízes que não podem ser desfeitos.

Há 56 anos na Vila, Mariluse, filha de mãe marisqueira e pai estivador, conta que desde cedo aprendeu o ofício da mãe, que perdeu de forma prematura, aos 10 anos de idade.  Aos 14 anos, sem rumo, resolveu casar e construir sua própria família. Diógenes, seu ex-marido, lhe deu 10 filhos e 30 netos.

O amor não foi suficiente para manter o casal junto quando as dificuldades começaram a aparecer. “Eu sempre trabalhei com peixe e camarão e foi com isso que criei meus filhos. Meu ex-marido não queria trabalhar, só queria ficar em casa de vida boa e eu não sou mulher disso, não contei conversa e me separei. Vivo até hoje sozinha e sou feliz assim”.

Todos os dias, Mariluse sai às 3 horas da manhã para o mercado do Jacintinho, onde vende seus produtos. Às 13 horas, volta para casa. “Ontem vendi 150 quilos de camarão”, conta orgulhosa. Foi com o pescado que conseguiu criar os filhos. Todos seguiram seus passos, sendo pescadores e marisqueiras. Nesse momento, ela se lembra do filho caçula, que aos 23 anos ficou paraplégico depois de ter ingerido veneno.

A senhora do mar conta, com tristeza, o episódio. “Ele ficou assim, porque três meninos daqui colocaram veneno na bebida dele. Os nervos dele encolheram, quase morre, passou três meses em coma. Já foi desenganado pelos médicos, mas o céu não me enganou. Deus trouxe meu filho de volta”, disse com um brilho de esperança nos olhos.

Graças à fisioterapia, o filho de Mariluse já consegue comer, falar e sentar. Sobre os rapazes que praticaram o ato, ela prefere não falar em vingança, por maior que seja sua dor. “Um deles foi assassinado, o outro está preso e o terceiro não sei onde anda. A vida está se encarregando de mostrar para eles que o mal que fizeram um dia volta”.

Enquanto conversávamos, um rapaz nos observava encostado na parede. Era Naldo, um morador da Vila. Mariluse conta que Naldo, aos 26 anos de idade, não tinha documentos, apenas há alguns dias havia tirado sua carteira de identidade. Perguntei como eles faziam para saber da idade. “Um bocado de gente não sabe a idade, nem tem documento. A gente só sabe quando viu nascer. Fora isso, apenas deduzimos”.

Mariluse não conseguiu terminar os estudos, pois a pesca ocupava todo o seu tempo, mas garante que tudo que sabe hoje aprendeu sozinha. Lê algumas coisas, faz conta das embarcações, calcula preços e conhece seus direitos e os da coletividade como ninguém. A senhora do mar confessa que já passou por muita discriminação por ser marisqueira, moradora da Vila dos Pescadores e analfabeta, mas reforça também que nunca baixou a cabeça para ninguém, adquirindo respeito dos moradores da comunidade. Em 2001 e 2007 foi presidente da Colônia dos Pescadores de Jaraguá.

“No dia em que o ministro da pesca veio pra cidade fui chamada para representar a colônia. Conheço governador, secretário, trabalho com tudo. Disseram que eu não podia fazer nada porque não sabia ler, mas provei que tenho mais conhecimento que muita gente”, conta.

Sobre a possível mudança de local, Mariluse diz se sentir um peixe fora d’água, pois o trabalho dela é ali, junto com seu povo e suas raízes. O trabalho da pesca é dividido em dois turnos, um pela manhã e outro pela madrugada. A marisqueira questiona como eles vão guardar suas embarcações e materiais de trabalho de maneira segura.

“Não temos sono pra dormir e fome pra comer. Dia e noite só pensamos nisso. Eu fui contemplada com um apartamento, mas meus filhos não. E é neles que eu penso, assim como penso nos filhos de todos daqui”.

Com a voz embargada, a senhora do mar confessa que muitos ali não têm mais família e que os outros moradores da Vila são seu sustento afetivo, o fio invisível que os liga a um sentimento muito próximo daquilo que é chamado de afeto. O sofrimento dos outros é o seu sofrimento. Ela tem medo do amanhã, como nunca teve antes.

Mariluse, forte como um timoneiro, não se entrega e garante que, enquanto houver vida pulsando em suas veias, não deixará que morra dentro dela a compaixão e a solidariedade com que ela se dedica a seu povo e suas raízes. “O ser humano tem que pensar no bem comum, pois só assim pode ser chamado de humano”.

Sobre o Especial Vila dos Pescadores, veja também: 

postagemvilaespecial2

Ana Cecília da Silva

Ela não sabe chutar uma bola e era sempre eliminada nas olimpíadas de matemática na escola. O destino a fez jornalista, afinal a única coisa que sabe fazer bem é contar histórias. Ela podia estar fazendo terapia para se tornar uma pessoa melhor, mas escolheu o jornalismo como divã para as aventuras e desventuras da vida. Ana Cecília escreve também no jornalistaeprafalarmal.blogspot.com.br.

Últimos textos de Ana Cecília da Silva (veja todos)