O investigador particular mais famoso de Maceió, Luiz Cavendish, mede por volta de 1,90m, tem porte robusto, cabelos pretos e pele morena. É provável que essa descrição seja a mais próxima da aparência física do detetive Luiz que o leitor terá – exceto, claro, venha a contratar os seus serviços futuramente. Pois, para preservar o sigilo profissional, imagens suas são vetadas. De certa forma, é preciso compreender o não existir como parte de sua condição: estar sempre sozinho, em silêncio, a espreita atrás do poste, invisível. Um fantasma.

Com anúncios estampados nos classificados de jornais e pintados em algumas dezenas de paredes espalhadas pela cidade ou até mesmo através dos seus perfis nas redes sociais, encontrar os contatos do detetive Luiz não foi uma tarefa difícil. Com o número em mãos, foi marcada uma entrevista para a penúltima sexta-feira de junho, por volta das 14h, na praça de alimentação do shopping situado no bairro da Cruz das Almas. O encontro constituiu um verdadeiro interrogatório sobre o seu ofício, imortalizado pela figura de Sherlock Holmes e pelos romances policias de Agatha Christie.

A atividade do detetive é, sobretudo, a arte de enxergar as sutilezas, adiantou Luiz, cuja voz grave, deu contornos de seriedade a toda entrevista. Tanto na literatura, como na vida real, é por meio da observação atenta dos detalhes que o enigma se desfaz. O mistério, afinal, repousa nos pequenos gestos, na rispidez durante um jantar ou nos breves minutos que o marido passa em frente ao volante olhando para o vazio, antes de seguir para o trabalho. “Às vezes, o que é mínimo para você”, pontuou ele, “para a gente, não é”.

Ainda que mais pela intuição, do que através de métodos elaborados, aos oito anos de idade, ele solucionou o primeiro caso de que tem lembrança: o da morte de sua mãe.

— Quando mamãe ficou doente, eu ia sempre visitá-la com meu avô e outros parentes no hospital. Até que um dia, questionei o porquê das visitas terem parado de acontecer. Eles disseram que minha mãe tinha piorado e iria se operar, mas assim que ela se recuperasse, eu voltaria a vê-la. Porém, comecei a desconfiar. E passei a escutar as conversas dos meus parentes escondido. Foi assim que ouvi meu avô e minha tia combinando o feitio da missa de sétimo dia. Naquele momento, eu nem tive noção, mas resolver aquele mistério foi algo importante, que me elucidou uma dúvida, um anseio que tinha em relação a minha mãe.

A descoberta do falecimento de sua mãe, na verdade, o fez compreender ainda garoto que a resolução de uma investigação não traz à tona o entendimento sobre quem as pessoas são ou as causas de suas ações (muitas vezes, nem elas sabem), mas entrega nas mãos delas a autonomia da escolha. “Acho que foi aí que me aflorou a vontade de trabalhar com isso. E tentar ajudar a outras pessoas que vivem mentiras”.

Por volta dos 15 anos, Luiz passou a procurar os detetives que divulgavam seus serviços nas páginas dos classificados dos jornais de Brasília (cidade onde morou por alguns anos). O reencontro com a prática da investigação foi menos pelo acaso, e mais pelo desejo de conceder aos outros o que não lhe foi dado quando criança: a possibilidade da decisão. Para ele, o de despedir-se de sua mãe.

A partir do contato com os profissionais atuantes na área, ele descobriu os trâmites necessários para tornar-se um profissional do ramo. Primeiro, teria que atingir a maioridade. E segundo, formar-se num curso específico, que lhe daria os conhecimentos básicos necessários para executar a atividade.

Ao completar 18 anos – época em que fixou residência em Maceió –, Luiz pode, enfim, iniciar os estudos num curso por correspondência. “Infelizmente, o material deixou muito a desejar. A formação deveria ser multidisciplinar”, avaliou. Após concluí-lo, ele investiu em anúncios em jornais.

— Muitas pessoas ligavam para confidenciar seus problemas, perguntar como funcionava o trabalho. Só 30 dias depois, eu fechei o meu primeiro serviço.

Há 23 anos atuando como investigador particular, Luiz explica que hoje em dia os profissionais do ramo se organizam como pequenas empresas. Na divisão de “cargos”, temos: o agenciador e o profissional de rua. A rotina é imprecisa, sem horários fixos. “Têm dias”, diz ele, “que pego no batente às 5h da manhã e só retorno para casa por volta das 3h da matina.” O perfil da clientela é de classe média para cima. “Detetive é uma profissão de luxo. É quem pode (por conta dos assédios, riscos e pressões envolvidos) e contrata quem pode, também”.

Os casos de suspeita de traição representam 60% do serviço. “Atualmente, tem crescido a busca por informações sobre filhos e menores de idade, a pedido dos próprios pais, numa tentativa de resgatá-los do envolvimento com prostituição e álcool”, ressaltou.

Casado há 10 anos e pai de três filhos (uma jovem e dois meninos), Luiz confessa que adentrar na intimidade dos seus clientes reverbera em sua vida particular.

— A gente se depara com tanta mentira, falsidade, adultério, famílias que vivem da fachada, que eu fico pensando: será que não tem ninguém que se salve? Você acaba duvidando dos próximos. Começa a ter certos receios. O importante é saber com quem você está. Pois há o risco de misturarmos a nossa vida pessoal com a do cliente.

O detetive não somente desvenda um caso. O resultado de sua investigação altera o futuro da trama que parecia já inscrito na vida dos seus clientes. Tanto para um lado, quanto para outro – ou seja, para quem contrata os serviços, como para quem é investigado –, o momento em que a verdade se impõe é inevitável, e é inevitável que muitos a temam.

— Certa vez, fiz de tudo para resolver um caso, cujo cliente estava me pagando há vários meses pelo serviço, mas ele não acreditava na traição de sua esposa. Afirmava ser uma mentira. E eu já tinha apresentado provas concretas. Foi então que elaborei uma situação para que ele visse com seus próprios olhos que estava sendo traído. Foi quando o cliente me disse que não era para ter sido daquela forma. Às vezes, temos que escutar o intrínseco do cliente. Fui contratado para tirar um peso que ele carregava. Mas nem sempre estamos preparados para a verdade.

Francisco Ribeiro

É jornalista. E-mail: chicoribeiro@msn.com

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