Numa espécie de pátio lateral ao portão de acesso ao Baldomero, onde as mulheres aguardam a hora de entrar, há alguns bancos brancos e gastos. Nas primeiras horas de visita, costumam estar ocupados. Mas pelo ponteiro menor do relógio, era normal sobrar assento e lixo espalhado por todo canto àquela hora. Vasilhas de goiabada, pacotes de biscoito, sacolas de pipoca, garrafas de refrigerante cortadas, papel de chiclete e de cigarro ajudavam a deixar o chão mais sujo do que o negrume do piso denunciava. “Uma bagunça, tudo muito desorganizado. Nem fora, nem dentro”, exalta-se Dona Marta, sogra de um dos reeducandos. “Banheiro todo podre. Dia de domingo é uma mundiça. Ninguém limpa”, afirma outra visitante.

Sobre o abrigo para as visitantes, a gerente penal Isabelle de Souza, diz que antes não existia sequer esse espaço de espera. “Tem de dois a cinco anos que foi feito esse abrigo para a família. Antes, elas ficavam no sol ou na chuva”, declara. A respeito da higiene do local, a gerente penal frisa que “É feita a limpeza diária, principalmente nos dias de visita: de manhã e após a saída das mulheres. Só que tem a questão de elas mesmas manterem o ambiente limpo e organizado”, pondera.

No entanto, a relação sujeito-ambiente vai além da desordem e da imundície. O espaço onde acontecem as relações sociais também produz sentidos, uma vez que, como analisa Suzann Cordeiro, doutora em Dinâmicas do Espaço Urbano, especializada em Arquitetura Penal, “o espaço construído é lugar do sujeito, feito por indivíduos, para indivíduos.” Ou seja, o abrigo onde as mulheres esperam a hora da visita, e que antes sequer existia, “é muito mais que proteção às intempéries do ambiente natural”, como afirma Suzann. É o lugar onde a vida delas se desenrola.

Estes espaços construídos são “testemunhos das formas de organização social e dos valores de cada época, os quais não apenas refletem, mas incorporam à sua própria forma de expressão”, cita a arquiteta em seu livro, “De perto e de dentro: A relação entre o indivíduo preso e o espaço arquitetônico penitenciário a partir de lentes de aproximação”.

Ainda segundo Suzann, não havia no projeto do presídio Baldomero Cavalcanti a previsão de visitas íntimas. “Isso só foi inserido, em AL, com a construção do presídio Cyridião Durval e Silva. Antes, nenhum deles [dos presídios] tinha sido pensado para visita”, afirma a arquiteta, que chegou a integrar o Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária, mas, ainda de acordo com ela, foi afastada por pressões políticas.

CONSOLO NO PURGATÓRIO

Em um destes bancos do abrigo para as visitantes do presídio, estava Dona Joana. Cinco minutos de atraso a empurraram para o rabo da fila. Ela perguntou por quem eu procurava. Percebeu meus olhos em busca. Nesta pergunta, encontrei a resposta: era por ela também.

Dona Joana, viúva há quatro anos, saiu um pouco mais tarde que a maioria das companheiras. Deixou sua casa às 7h30 e estava esperando pelo momento de entregar a comida ao filho mais velho. Como Dona Marina e Dona Juliana, sua queixa não era diferente. “É muito sofrimento essa vida. A pior coisa é entrar aqui dentro. Eles [os agentes penitenciários] maltratam muito os presos lá dentro e a gente”, desabafa indignada mostrando como são obrigadas a embalar a feira dos detentos: por exemplo, a manteiga espremida num plástico.

O filho dela está há quase meia década preso, condenado por homicídio e por estupro de uma menina de catorze anos. Em tom de suspeita, diz que teriam “levantado falso”, mas também não descarta a hipótese de ser verdade. “A gente dá conselho ao filho, mas ele não toma. Anda com quem não presta”, afirma encerrando a fala com a máxima de que “botar filho no mundo é não esperar nada de bom.”

Cabelos presos, como a bermuda justa nas pernas, Dona Joana parece inabalável. Assusta um pouco a frieza da face: seca. Antônima ao que se espera das linhas maternas de expressão. A vida andou ceifando o sentir dos acontecimentos ou seria dela pouco ligar. Ao ser indagada como reagiu à prisão do filho, respondeu, com uma tranquilidade que não se espera nestes casos: “Fiquei normal. Tranquila. Pessoa que tem Deus fica tranquila. Vou fazer o quê? De um filho que vevi desobedecendo, já sabe.” Joana parecia aguardar por aquela notícia, longe de ser à boca miúda da vizinhança. Nesse momento, compreendi o porquê daquela mulher impassível. Ela era resultado de uma falha anunciada.

Tanto Joana, quanto as mulheres que entrevistei num primeiro contato com a realidade de quem padece do erro do filho, marido, ou irmão, nota-se que “Deus” é não só o substantivo mais pronunciado, e o vocativo de cada final de frase em lamúria, como um consolo que ameniza tantos dias ruins. Muitas chegam a afirmar que os filhos ou companheiros não estão ali porque Deus quis, mas sairão “quando Deus quiser”.

O filho de Dona Marinalva, por exemplo, ainda não tinha sido sentenciado. Diferente do primogênito da dona-de-casa Joana. Treze anos de prisão e R$$9.500 reais gastos com advogado que, segundo ela, valeram para nada, porque “eles [os advogados] só pensam em lucrar.” Outra distinção entre essas três mulheres de dor semelhante é que o filho de Joana. era dependente dela, fator que não dificultou a vida para quem está presa do lado de fora. Ela vive do aluguel de uma casa.

A obstinada Joana usa o dinheiro do trabalho do filho no presídio para comprar a alimentação dele. Admite que complementa, porque não dá nem para comprar o básico com os R$ 260 reais que ele ganha. “Mas isso é porque ele não pede de tudo”, adverte, finalizando que não faz como outras mães que “se matam” para trazer feira de sacolas para os filhos.

Cada preso ganha equivalente às horas de trabalho. E o chamado “auxílio reclusão” é um benefício legal do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) repassado aos dependentes, ou dependente, do preso em regime semiaberto ou fechado, que antes de ter sofrido a pena privativa de liberdade, contribuía com a Previdência Social. Esse benefício é calculado de acordo com a média dos valores de salário de contribuição. 

HORA DO “TRANCA”

O número de vagas tanto para trabalhar, como para estudar, no presídio Baldomero Cavalcanti, é limitado. São apenas 36 trabalhadores internos, em torno de 100 externos, que desempenham as funções sob escolta, e 86 vagas para os estudantes, contabiliza a gerente penal da unidade. A maioria dos reeducandos passa o dia sem fazer nada. De acordo com um agente penitenciário do Baldomero, os presos são retirados das celas às 6h e ficam no pátio até o final da tarde, quando é o momento do “tranca”.

O tranca “é o procedimento realizado diariamente de guardar o reeducando dentro da cela. É feito sempre às 16h”, explica o agente. No dia em que estive lá para apuração, solicitei entrevistar alguns reeducandos, mas pelos motivos do “tranca”, os funcionários me aconselharam a não falar com eles naquela hora, principalmente os presos de módulos considerados “de alta periculosidade”, como os módulos 4 e 5.

Se um preso é chamado para fazer qualquer coisa justamente na hora de prendê-los nas celas, a suspeita de delação é a primeira a ser levantada. Por isso, o comprometimento da integridade do reeducando. O agente explica de forma sucinta: “É um conchavo entre eles mesmos.”

Além do desprendimento, Joana também carrega, nos olhos, e na fala, a coragem. Nunca foi vítima de preconceito por ser mãe de preso e nem sente vergonha dessa condição. “Quem quiser atirar pedra, que atire. A minha vida é um livro aberto. Meu neto sente vergonha. Ninguém quer ter um pai assim, quer?”, interroga. Balanço a cabeça em negação. A gente faz silêncio.

Dona Joana me alcança na caminhada de volta para casa. Ela só fez deixar a comida. Caminhamos juntas mais 600 metros. Durante o caminho, pergunto a ela se poderia passar um dia acompanhando a rotina dela para compor meu trabalho. Sinto insegurança. Ela me dá uma desculpa. Entendo. Enquanto nós retornamos, outras dezenas de mulheres vão chegando. Até às 13h, elas serão chegada.

Dona Joana olha ao redor. Reclama do quanto tem de/precisa andar, reclama da demora na consulta do filho, reclama do sol quente, apesar da sombrinha sobre nossas cabeças. Olha absorta para o mundo onde o mato toma conta e como se esquecesse por um instante que eu estava ali, ao seu lado, lembra em voz alta o primeiro dia em que esteve naquele lugar. Chorou por dentro. Engoliu a lágrima. Tomou o Ufal-Ipioca e foi embora.

 

Foto: Renata Baracho

 

Sobre o Especial Atadas, veja também:

– Editorial: ATADAS: O drama das visitantes do presídio Baldomero Cavalcanti.
O universo das atadas.
Encarceradas pelas circunstâncias.
Dias de Maria, Juliana, Heliza, Joana.

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Glória Damasceno

É uma das, muitas!, pessoas que não está na deselegante lista das 100 personalidades mais influentes do mundo, segundo a Forbes. Outro dia sonhou que era esposa do Jon Bon Jovi e acredita que isso é prenúncio para essa vida, ou para a próxima. Sabe-se lá. Escreve também, quando quer, no blog Apenas uma Fresta.

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