Raízes

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FOTO: LUCAS VASCONCELOS

É sob a sombra imperturbável do pé de castanhola, hoje às margens do Bosque das Arapiracas, que as raízes desta história começaram a germinar.

Há 18 anos, no dia em que nasceu o Weverton Felipe, as sementes dessa árvore foram adubadas pelas mãos do pai José Paulo da Silva (46) em frente à sua casa de alvenaria, onde antigamente se localizava a “Favela do Caborje”, no bairro Teotônio Vilela, em Arapiraca.

José, natural do alto Sertão de São José da Tapera e o filho mais velho de 11 irmãos, chegou às Terras de Manoel André em 1990 para se enraizar no sentido figurado e literal da palavra. Ele, à época, só tinha 19 anos e muitos sonhos a cultivar.

Passado alguns meses de sua chegada para se aventurar na política local, o jovem moreno e baixinho começou a namorar a arapiraquense Veraneide Maria de Oliveira (44) com quem se casou e teve os 4 ramos que fizeram deles, além de marido e mulher, pais.

Era domingo, março de 1998, quando um amigo de José o presenteou com algumas mudas de amendoeira para celebrar a chegada de Felipe – o caçula do quarteto. Neste mesmo dia, o guarda municipal plantou a árvore que terá o mesmo nome de seu filho – iniciativa da Prefeitura de Arapiraca – em homenagem a esse momento especial na vida da família Oliveira da Silva.

Ao retornar com Weverton Felipe nos braços enovelados de amor, Veraneide, assim como a vizinhança, não aprovou a ideia de ter em frente a sua casa folhas caídas – aquelas que se desprendem do galho pela falta de água ou pela sede de chão. Anunciou meio brava que não teria tempo para cuidar daquele pé de castanhola. Mas José argumentou que ele ia crescer tanto que a folhagem sequer tocaria a terra. Voaria nas asas da ventania. E assim foi!

Com o esvoaçar do tempo, as folhas da amendoeira tocaram fundo, como não se podia imaginar. Passou a ser um lugar de deleite para as conversas de fome saciada – ao meio dia – e fim de tarde, além de ter se tornado um membro, outro filho, para a família que já carrega na etimologia do sobrenome as raízes desta narrativa.

“Passei a gostar dela, porque os meninos brincavam embaixo de sua sombra o dia inteiro. Era bonito de se ver”, confessa Veraneide ao fitá-la tendo nos olhos a incidência do sol e a falta que faz um lugar para suavizar a temperatura dos dias insuportáveis, como os quentes e de desesperança que vez em quando nos solapa o coração.

Hoje quando ela vai ao trabalho e avista com saudade o pé de castanhola, comenta com os colegas de trajeto que ali, próximo àquele caule frondoso, um dia residiu junto a sua família. E tal qual a esposa, José também repousa seus olhos na amendoeira com o cuidado de quem procura reconhecer em sua casca sintomas de bem-estar.

“É um símbolo do qual nunca me esquecerei, uma vida que dá vida à cidade e uma lembrança do tempo em que vivi onde ela permanece.”.

E permanece porque, depois que os moradores da Favela Caborje foram realocados para as casas no Jardim das Paineiras, certa noite, enquanto as máquinas trabalhavam para dar forma ao Bosque das Arapiracas, em meados de 2012, José ia passando por ali, quando encontrou com o então prefeito Luciano Barbosa e comentou que aquele pé de castanhola ficava defronte de onde costumava ser a sua casa e que ele mesmo o tinha plantado.

Luciano então determinou que aquela árvore, dentre tantas coisas que devem seguir erguidas na vida, não poderia ruir.

“A importância que esta amendoeira tem não é só para a minha história, mas também para o meio ambiente. A valorização dela como peça fundamental para a vida. É preciso cuidar do nosso planeta, do que ele nos oferece para que possamos viver dias melhores”, declarou José ao emendar:

“Além disso, eu desejava viver em um lugar que quando chovesse, a água não se misturasse ao esgoto. Agora, além da casa dos sonhos, tenho um planeta para continuar zelando.”.

Aos arredores das paredes de sua antiga morada, como tantas outras, improvisada e dividida em três cômodos, mais um banheiro e um depósito para o carvão, também havia a um metro de distância um esgoto a céu aberto que fazia sucumbir às medidas da chamada “qualidade de vida”. “Parecia uma favela. Ninguém sabia o que era saúde”, conclui José ao passear pelas memórias de 11 anos de Olarias, como também era conhecido o Teotônio Vilela.

Os moradores e passantes da cidade costumavam despejar o lixo no bairro, que se intoxicava, sobretudo, de ignorância, descaso e descarte irresponsável. Era um aterro para a negligência humana, que José, enquanto conselheiro de saúde do Caborje, notificava às autoridades do município.

É aqui, ao participar de projetos voltados às questões ambientais, que o pai de Felipe começou a temperar a terra para a chegada de seu último filho.

A vida no Jardim das Paineiras, nas palavras de José, é “alívio”, embora a luta pelo resgate e preservação da natureza sejam a mesma. “A gente precisa mudar”, porque as árvores não só oxigenam o planeta e tornam a vida possível, dentre outros benefícios do meio ambiente como um todo, mas também ressignificam histórias e fincam raízes, como as de José e Felipe… Inesquecíveis, como as sombras de folhas caídas no chão.

Os gêmeos de Francisco

FOTO: GLÓRIA DAMASCENO

FOTO: GLÓRIA DAMASCENO

Os gêmeos Rafael e Gabriel são os primogênitos do jovem casal Francisco Silva Monteiro (31) e Tatiana de Souza Melo (21). Além dos gêmeos, duas meninas completam também as fotos de álbum de família. Elas são Gabriela (5) e Cássia (3 meses). Gabi foi a única que herdou a pigmentação negra do pai e Cássia é uma bebê esculpida de dobrinhas e branquinha, como a mãe e os irmãos.

Filhos de um óvulo só, quando Rafael e Gabriel vieram ao mundo em outubro de 2007, os médicos da maternidade Nossa Senhora do Bom Conselho, em Arapiraca, cidade ao centro do mapa de Alagoas, não imaginavam que eles estariam vivos para protagonizar a história de dificuldades e conquistas de duas crianças com deficiência visual. Hoje quem narra a prosa dos dois filhos de Francisco – além dos pais, professores e pessoas de solidariedade – sabem que o que se vê da vida vai além da formação da imagem na retina. Rafael e Gabriel ensinam cotidianamente que para estar no mundo é preciso enxergar, isto é, ver o que está por trás, nas entrelinhas, no íntimo enfim, ainda que sob o manto monocromático do olhar e da imaginação, mas também ouvir, tatear o que nos toca com a ponta dos dedos ou com cada músculo do corpo; sentir el olor das coisas e do que não são coisas em nós.

Francisco, pai dos meninos, é um homem inteligente que não teve oportunidade de alcançar o degrau da graduação. Estudou até o ensino médio completo, mas logo depois “se danou” no mundo a trabalhar. Aos 18 anos, foi a São Paulo em busca de um emprego. Ficou por lá 2 anos. Já trabalhou de vigilante, de servente de pedreiro, de garçom – na empresa multinacional de fast food McDonald’s – e há sete anos o esguio pai de Rafael e Gabriel é dedicação exclusiva da família que construiu ao lado de Tatiana.

As árvores genealógicas de ambos são de povoados do município de São José da Tapera, no alto Sertão alagoano. Francisco é o filho do meio. Tatiana, uma das três mulheres de uma prole de seis irmãos, estudou só até a 3ª série. Conheceu o marido em uma destas casualidades de domingo, quando Francisco foi à casa da irmã dele jogar dominó. Ganhou, além de algumas partidas, o coração da mãe de seus filhos. Tímida ao ponto de mal falar, e quando fala quase não é ouvida por ser a palavra murmúrio, Tatiana era adolescente quando decidiu ficar com Francisco seis meses depois que se conheceram. Pelas contas dos dois, estão em “união estável” há nove anos.

A luta diária do casal é para cuidar dos gêmeos. O dia divide-se em dois turnos: quando os garotos estão na escola (tempo de por a casa em ordem e descansar corpo e incertezas do futuro de cada segundo) e quando eles estão entre os parcos móveis da casa doada pelo pai de Francisco. Às vezes, o casal sente-se preso às paredes esverdeadas de onde vive para os filhos. Às vezes também choram por ser a vida vez ou outra tão incolor. Francisco, mais do que ninguém, sabe o quanto pesa para um corpo afilado como o dele a responsabilidade de viver, sem intervalos, para outra pessoa. Ou, melhor, para duas outras pessoas.

Os meninos nasceram prematuros de 6 meses e passaram os 2 meses seguintes na incubadora. Segundo o pai, a falta de oxigenação cerebral, durante o tempo em que ficaram hospitalizados, foi a causa da cegueira dos meninos, que só veio ser notada por uma madrinha, quando eles já tinham 1 ano de idade. À época, Francisco tinha acabado de viajar novamente a São Paulo na tentativa de garantir o sustento da família. Mas ao receber a ligação incrédula, largou tudo e voltou para ser ele, também, os olhos dos filhos. Hoje vivem de um benefício de seguridade social, uma vez que não há condição de trabalhar e cuidar dos meninos ao mesmo tempo.

Ao longo do pós-parto de Tatiana, somente Francisco foi visitá-los três vezes por semana. Os familiares da esposa nunca souberam se o caminho do hospital era de barro ou de asfalto. E não por falta de comunicado (ou bússola), como acrescentou Francisco ao ver a esposa chorar tristeza. Por ser Tatiana quase sempre silêncio, é significativo que seja ela lágrima exposta ao não conseguir falar sobre o que ela não soube, ou conseguiu, chamar de… “Abandono”, como nomeou o esposo. A direção do hospital chegou a questionar a ausência dos parentes e também a sugerir o uso da via jurídica para que Tatiana não tivesse apenas Francisco como visita, mas ele foi claro: “Pra ter consciência não é preciso forçar ninguém a nada.”.

A primeira vez que os olhos de Francisco encontraram os corpinhos dos meninos, revestidos de agulhas, foi inesquecível. Até então, os olhos de Rafael e Gabriel eram cortinas sem movimento. Mas quando Francisco repousou sobre eles o olhar de pai, os gêmeos elevaram os cílios e, como quem decide ali – naquele momento onde vida é decisão – que viveriam por aqueles olhos também. Com o passar dos dias, ganharam peso e alta.

Francisco é grato a todos os médicos, enfermeiras, amigos, familiares, ao ex-prefeito de São José da Tapera, Zé Antônio, por ter liberado à época a compra do leite dos meninos, e, sobretudo, a quem é para os gêmeos uma segunda mãe: a incansável Eliana Ricardo Gomes, carinhosamente chamada de Totinha.

Eliana, a professora-mãe

Se o coração de uma pessoa fosse proporcional à estatura, Eliana (41), mulher pequena, seria injustiçada em praça pública. Totinha é de uma grandeza que não se mede nem mesmo com a maior das fitas métricas cardíacas de alguém.

Paranaense de nascimento, é casada há 10 anos, irmã de seis irmãos e tem dois filhos: a Mariana (4) e o Arthur (7). É professora da sala-de-recurso da escola Elisabeth Jacoba Maria Borges – onde os gêmeos estudam desde os 4 anos de idade – em São José da Tapera. Rafael e Gabriel não são as únicas crianças com necessidades especiais do colégio. Pelos cálculos de Totinha, há no município de Tapera cerca de 300 alunos com alguma deficiência física ou intelectual. Considera a escola bem equipada para atender às necessidades de aprendizagem das crianças especiais. De acordo com Eliana, o governo federal enviou as ferramentas de trabalho solicitadas, mas as professoras ainda não fizeram o curso de braile para dar início a uma nova etapa no ensino.

Eliana, no entanto, não é só pedagoga. Totinha é uma professora-mãe e isso tem feito toda a diferença na evolução gradual dos gêmeos que a reconhecem em outros sentidos da vida, como o da audição. Rafael e Gabriel hoje sabem quando é de Eliana a voz que anuncia mais um dia do que ela chama de “estimulação precoce” – método de ensino que tem o papel de inserir socialmente o aluno com deficiência especial ao cotidiano, ajudando a despertá-lo para os “quês” e os “quens” ao redor. “Eu cuido deles como se fossem meus filhos”, afirma emocionada.

Uma professora de sala-de-aula regular, de acordo com avaliação de Totinha, não tem tempo de trabalhar, por exemplo, noções de quente/frio, macio/áspero, dentre outras composições materiais e psicológicas de mundo. A pedagoga considera que os meninos, queridos pelos coleguinhas de classe, evoluíram bastante. Quando eles chegaram à escola mal falavam, embora o que falem hoje seja, muitas vezes, aleatório ou repetição da fala de alguém. Às vezes, até cantam música de rádio. A pouca coordenação motora deles é considerada igualmente evolução.

Chama a atenção de Eliana como os gêmeos definem uma menina como “bonita”. Ela reparou que se os cabelos forem longos e o perfume inebriar o olfato, Rafael e Gabriel não querem saber de outra coisa, senão de tocar o rosto, talvez, na tentativa um tanto inconsciente de aprender do que mais é feito alguém “bonito”, além de fios de couro cabeludo quilométrico e cheiro bom. Totinha considera necessário que os meninos sejam acompanhados por um profissional de fonoaudiologia para que desenvolvam melhor a fala evoluída, mas ainda debilitada.

A carga horária de Eliana é de quatro horas semanais, divididas em dois dias, mas ela gosta tanto do que faz, que acompanha os meninos de segunda a sexta-feira, mesmo que neste ano tenha chegado reforço: mais duas cuidadoras executam a tarefa de vencer os desafios da educação especial.

E tão especial quanto o que Eliana faz, é o motivo pelo qual faz. Em outubro de 2002, um dos irmãos dela, Adriano, foi vítima de um assalto na estrada, quando retornava para casa com a esposa. O som do carro estava alto o suficiente para Adriano não escutar o anúncio do infortúnio. A bala, que ainda está alojada na medula do irmão, uma vez que sua retirada não vai lhe trazer de volta o movimento dos membros inferiores, foi o início do pranto que até hoje umedece o rosto ruborizado e as mãos de Totinha. Ela encontrou na educação especial o refúgio para abrigar a esperança de ver o irmão andar de novo. E compreende que Adriano avivou a capacidade de ser sensível ao outro. “Agora, quando eu chego em um lugar, eu vejo logo a questão da acessibilidade.” Como nunca antes, acessibilidade é uma palavra que completa as frases de Eliana.

Os gêmeos de Francisco mal escutam as vogais e consoantes que compõe “escola” para que pela manhã tenham os pés no chão. Fralda, roupa, lanche são também responsabilidades que a escola Elisabeth Jacoba Maria Borges abraçou junto aos pais, para além da obrigatoriedade.

Para Eliana, realização de professor “é ver o aluno lendo.” Conta que a primeira turma na qual ministrou aula, dos 37 alunos, somente dois não liam. E há um todavia que explica: as crianças tinham problemas de saúde que impediam o avanço na descoberta das letras.

Depois que conheceu os meninos, a professora-mãe afirma que são eles “a lição de vida”. A interrogação do dever-de-casa fica para o pai dos gêmeos: “às vezes penso: será que esses meninos vão fazer uma faculdade? Ter uma profissão?” A resposta vem em forma de desejo: “Meu sonho é esse.” Os dois filhos de Francisco resignificaram a paleta de cores de quem os enxerga livres das convenções do dicionário. O lado bonito da vida também é escuro.