O jornalista Carlos Alberto Di Franco, na primeira segunda de fevereiro deste ano, pontuou em cheio que “as melhores pautas estão nas encruzilhadas da vida”. Não só concordo com ele, como adiciono ao ponto as paradas que a gente faz pelas obrigações da vida em sociedade ou pela urgência de nós mesmos. Era pouco mais das 9h da manhã, quando caminhava sob efeito da pressa e não o vi capturando das pessoas, agora na maior parte do tempo com os olhos, e umas 3 ou 4 vezes por dia com um clique, os instantes mais preciosos da contemporaneidade: os segundos que ela não para… Para (se) perceber.

Eu estava ligada no automático. Só via as pessoas na minha linha reta. Nem eu, e nem ninguém, podia sair por aí tombando em todo mundo, arrastando membros ou corpos inteiros. Eu via também os semáforos das ruas – especialmente quando ele se pintava de verde “siga”. Vermelho “pare” então… Agonia! Qualquer possibilidade de enxergar ao meu redor, era nula. Chegar inteira ao meu destino era minha única meta. Se não fosse o ponto de ônibus, eu não estaria aqui hoje para “foto-grafar” uma vez mais…

Rosalvo Braz de Oliveira, de 60 anos, fixou lente e tripé na arborizada Praça dos Palmares, no Centro de Maceió, desde 1971. São 44 anos de “olha o passarinho!”. Chega às 7h e vai embora às 14-15h da tarde, de segunda a sexta-feira. Mantém até hoje no meio da praça a imponente máquina-caixote, popularmente chamada de “lambe-lambe”, advinda do século XIX. Ele diz que é uma maneira de chamar a atenção dos passantes mantendo a máquina no seu lugar de origem – ao ar livre, mesmo que não a use há cerca de 8 anos. Pela coloração desbotada e alguns rasgões do tempo no tecido, logo se vê que a sua relíquia negra tem quilômetros de negativos e de história.

Nascido em Viçosa, município alagoano, Rosalvo saiu de lá quando sua existência contava 3 anos de idade. Mudou-se para Cajueiro, também em Alagoas, e de lá, aos 8 anos de peraltices, chegou ao seu ponto de parada: a casa de um dos irmãos em Maceió.

Por intermédio de um amigo, quando tinha 16 anos, encontrou-se à luz da fotografia. Antigamente, há 15-20 anos, conta que ele, e mais uns 13 fotógrafos lambe-lambe, como eram também conhecidos os homens que manipulavam o caixote preto, “tirava retrato” de aproximadamente 30 pessoas todos os dias. Agora fotografa apenas 4-5 pessoas/dia.

Rosalvo fotografava os filhos, quando tinha necessidade. Por necessidade traduz-se foto para matrícula escolar, por exemplo. Nada de foto para todo e qualquer bate-lata, como são os registros contemporâneos. E admite contradição: “Tenho retrato no documento, porque é o jeito!”. Sorri disso.

Filho de uma prole de 5 irmãos (3 mulheres e 2 homens), só estão fotografados de cores vivas no glossy paper, ele e outra irmã. Os outros descansam a sete palmos da terra e na superfície recorrente da memória. Moreno, de estatura mediana, e óculos de armação simples, alpercata, bermuda jeans, alguns fios de cabelo branco e blusa P&B, Rosalvo é um homem que só fala o que lhe é perguntado. Comedido, suas respostas às interrogações são quase sempre curtas, como o instante de um flash. Seus silêncios, como costumam verbalizar os fonemas mudos de fotografia, dizem mais.

A exemplo dos não ditos é a perda da esposa há 4 anos, vítima de uma doença que ele “não gosta nem de dizer o nome”, embora o não-dizer de olhar absorto para o mundo tenha dito tudo o que não gosta sequer de nomear. Depois dela, ninguém mais divide o mesmo enquadramento com ele. Tinham 21 anos de casados, conheceram-se no carnaval e tiveram 8 filhos. Ela, ainda que ele não tenha conseguido dizer, parece ser a única fotografia de que se lembra bem; o colorido dos pixels e o negativo do qual nunca se desfaz.

Glória Damasceno

É uma das, muitas!, pessoas que não está na deselegante lista das 100 personalidades mais influentes do mundo, segundo a Forbes. Outro dia sonhou que era esposa do Jon Bon Jovi e acredita que isso é prenúncio para essa vida, ou para a próxima. Sabe-se lá. Escreve também, quando quer, no blog Apenas uma Fresta.

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