Em uma grande casa de tijolo aparente na Ponta Verde, bairro nobre da capital alagoana, vive Célia Maria dos Santos, o marido, com quem é casada há 32 anos, e suas duas filhas. A casa de primeiro andar é dividida entre seu lar e o Projeto Vaso Novo, que fundou há oito anos. Na garagem da casa podemos encontrar brinquedos, roupas, objetos domésticos e bijuterias penduradas na parede. São doações de voluntários para o bazar que seria realizado dali a alguns dias.

No andar de cima, Célia mostra a casa onde vive com a família. Nas paredes, na varanda e em um pequeno altar montado na sala podemos encontrar imagens de Nossa Senhora Aparecida, santa de quem é devota. Célia não trabalha fora, dividindo-se entre as tarefas domésticas e os cuidados com o projeto.

Na poltrona onde estava sentada, ela fala que gosta de meditar e rezar quando se sente angustiada. É nesse momento que Célia me confessa sobre sua antiga vida “em sociedade”, como gosta de se referir, onde ela ocupava o tempo entre eventos sociais de pessoas ditas importantes, roupas caras e viagens internacionais. Com 53 anos de estrada e muitas experiências, ela afirma que somente há oito que encontrou algo que pode chamar de verdadeira felicidade, não vendo mais nenhum sentido na antiga vida que levava, de uma dama da sociedade.

A transição entre o antes e o agora, se deu às 10 da manhã, enquanto ela caminhava na Praia de Ponta Verde e encontrou na areia uma imagem de Nossa Senhora Aparecida. A imagem estava destroçada e ela resolveu levar para casa e restaurá-la. No caminho de volta e com os pedaços da imagem nas mãos, Célia viu moradores de rua caídos nas calçadas e os pedestres desviando deles como se fossem obstáculos, aquilo passou a incomodá-la profundamente, como nunca havia incomodado e ela resolveu então, ser pescadora de homens, resgatando-os daquele mar de invisibilidade.

“Naquele momento eu senti algo muito profundo, uma transformação interior e comecei a me envolver com a causa dos moradores de rua e dependentes químicos. Eu não podia aceitar seres humanos sendo tratados assim, isso choca a gente. Se somos irmãos uns dos outros, como podemos ignorar?”, questionou.

Célia passou a cumprimentá-los, a conversar com eles. Procurou saber de suas necessidades, desejos, medos. Todas as sextas-feiras ela leva um café da manhã e realiza um momento de oração com aqueles que ela já adotou como filhos, sejam crianças, jovens, adultos ou idosos. Além do trabalho às sextas-feiras, ela também ajuda a manter algumas dessas pessoas em clínicas de reabilitação para dependentes químicos. “Eu não pago as clínicas, mas tenho despesas para mantê-los lá”, diz.

Foi no bairro do Vergel que Célia passou a infância ao lado de seus pais e irmãos, um período que ela não gosta de lembrar, pois além das privações financeiras, chegando a não ter o que comer, ainda existia a falta de afeto por parte de seu pai, o que a fez criar muitas mágoas ao longo da vida. “Eu não recebia amor, afeto e carinho, não foi um período bom da minha vida, fiquei com muitas mágoas. Eu acho que tudo o que eu não tive quando criança estou resgatando agora. Além do amor que dedico á minha família, também sinto a necessidade de ampliar esse amor para o meu próximo, por isso me envolvi tanto com a causa dos moradores de rua, seres extremamente desamparados”, diz, tentando enxugar as lágrimas que insistiam em cair.

Ela, que já tinha duas filhas, se viu mãe de mais 835. “Comecei colocando nomes, idades e locais onde eu encontrava os meninos, mas depois não deu pra fazer mais isso, a equipe era pequena. Uns se perderam no caminho, outros foram presos, outros tantos morreram, mas como mãe deles, eles sempre voltam para o mesmo lugar quando precisam”.

Para manter essa família, Célia realiza uma feira da pechincha três vezes ao ano para arrecadar fundos, além de contar com doações dos que conhecem o projeto. O dinheiro que o Projeto Vaso Novo tem em caixa serve para os mais diversos fins, comprar comida, remédio ou mesmo funerais quando um dos meninos morre. Julgamentos, acusações também não fazem parte dessa família. A mãe de 835 filhos não quer saber o que eles fizeram antes de chegar ali, ela apenas os acolhe, com amor de mãe, que só sossega quando vê o filho feliz. Ela nada pergunta sobre passado ou presente, apenas estende a mão àqueles que ela encontra nas esquinas da cidade, sem nenhum amparo.

Célia confessa que depois que começou a realizar o trabalho muitas amigas de antigamente a deixaram de lado. “Estou fazendo minha parte, tem que goste e quem não goste. Algumas pessoas me excluíram de seus círculos sociais, não me chamam mais pra festas. Eu era da sociedade, vivia em festas, viagens, mas nada disso faz mais sentido pra mim, nem mesmo essas pessoas, eu não vou levar nada disso, então espero que enquanto estiver aqui possa fazer algo de bom pelos outros”, disse.

Nada lhe falta em termos materiais e hoje ela finalmente afirma ter encontrado o sentido para a vida, por meio do amor ao próximo, o amor que cura, salva, liberta e constrói pontes. Que a faz acordar todos os dias com a certeza de estar no caminho certo, no caminho que seu coração pediu pra seguir, mesmo em meio ao preconceito e a dificuldade, que ela sente na pele quando resolve levá-los à missa e sente os olhares tortos para suas roupas esfarrapadas e seus cabelos sujos. A presença dos meninos incomoda, assim como incomoda nas ruas, praças e calçadas, onde são vistos apenas como empecilhos.

Muitos não dão credibilidade ao projeto, segundo Célia, pois julgam que moradores de rua são marginais, portanto há uma discriminação muito grande, principalmente quando são dependentes químicos. “As pessoas falam que vou amanhecer morta e me dizem para cuidar de velhinhos que é mais seguro e bonito, eu não me importo com o que dizem, eu nunca vou deixar de estar junto dos meus filhos”.

Um dia um dos seus filhos de rua falou “Mãe, a gente não é copo descartável, a gente é copo de cristal”. Esta frase marcou Célia profundamente, deixando-a orgulhosa por saber que o amor que está transmitindo está ganhando o caminho do coração. Ela também se sentia descartável, mas aquelas palavras a levantou e sempre a faz sorrir quando o desânimo vem bater à sua porta, geralmente durante as madrugadas insones.

Sobre a morte, Célia conhece de perto e lembra um de seus filhos de rua em especial, que se foi há cinco anos. Ele chamava-se Sérgio e foi assassinado na rua. “Ele me disse para nunca desistir do que estou fazendo”. Ele morreu, assim como tantos outros, que para ela eram especiais e que para outros, apenas estatística e uma nota curta no jornal. Muitos já disseram que se Célia morrer, eles não vão mais existir também, porque não terão mais a fonte do amor verdadeiro, o amor que transborda, que acolhe e afaga. Célia quer ser exatamente essa mão, essa mãe de coração.

No fim do relato, Célia estava em lágrimas e eu tinha diante de mim duas mulheres. A Célia de antes estava distante e quase não existia diante da Célia de agora. A Célia de sentimentos à flor da pele, de sorrisos e lágrimas nos olhos, que choravam de felicidade e também de tristeza por não ser onipotente na alegria e nem presente em todas as dores do mundo, que ela carregava como se fossem suas.

Ana Cecília da Silva

Ela não sabe chutar uma bola e era sempre eliminada nas olimpíadas de matemática na escola. O destino a fez jornalista, afinal a única coisa que sabe fazer bem é contar histórias. Ela podia estar fazendo terapia para se tornar uma pessoa melhor, mas escolheu o jornalismo como divã para as aventuras e desventuras da vida. Ana Cecília escreve também no jornalistaeprafalarmal.blogspot.com.br.

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