Cristine está quase abandonando o tratamento psiquiátrico. Depois da morte do marido, as dores de cabeça são constantes e o sentimento de solidão é cada dia mais forte. O homem que, com a presença, desencadeou sua primeira crise foi também o homem que, com a ausência, trouxe de volta a agonia da depressão. A apatia das filhas não melhora o quadro de saúde e as visitas ao Caps Casa Verde tornaram-se escassas.

Desde o internamento no Portugal Ramalho, Cristine se comprometeu a comparecer duas vezes por semana no Caps, para dar continuidade ao tratamento e evitar novas crises. O Centro de Atenção Psicossocial “é um espaço intermediário entre a internação e o ambulatório”, como resume a diretora do Portugal Ramalho, Rosimeire Rodrigues [hoje o diretor é o médico Audênis Peixoto].

Os Caps começaram a surgir no Brasil na década de 1980, com o objetivo de atender aos pacientes egressos dos hospitais psiquiátricos. De lá para cá, apesar das divergências[1], vêm sendo o foco da reforma psiquiátrica proposta pelo Ministério da Saúde, que, progressivamente, reduz os leitos nos hospitais. O serviço deve contar com uma equipe multiprofissional, que desenvolve programas buscando reintegrar os usuários à convivência social, em todos os seus aspectos, “através do acesso ao trabalho, lazer, exercício dos direitos civis e fortalecimento dos laços familiares e comunitários”, como afirma o ministério.

[1] De acordo com a Lei 10.216, promulgada em 2001 e que “dispõe sobre a proteção e os direitos das pessoas portadoras de transtornos mentais e redireciona o modelo assistencial em saúde mental”, o Caps seria apenas um dos serviços, dentro do sistema oferecido aos pacientes de transtornos psiquiátricos. Para a Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), no entanto, o Ministério da Saúde vem implementando erroneamente o serviço, ao “trocar um modelo hospitalocêntrico obsoleto por um modelo capscêntrico ineficiente”, cujo objetivo seria se esquivar de financiar o tratamento daqueles pacientes. Segundo a ABP, “optou-se pelo cuidar em lugar do tratar, pela desmedicalização, promovendo assim a desassistência e o retorno a uma fase equivalente à fase policial e religiosa da assistência ao doente mental. Na verdade vem sendo promovida a exclusão sem muros e sem tratamentos”.

Para Cristine, no entanto, o Pastoril natalino foi a última motivação para frequentar o programa. Cabelos longos penteados e maquiagem retocada, por várias vezes venceu as disputas da melhor dança com as encarnadas. Aliás, Cristine é conhecida no Portugal Ramalho por sua ânsia em ser estrela. Não é à toa que, no Pastoril, ela é sempre a primeira da fila azul. Até hoje, guarda com orgulho um recorte antigo, sem data, do jornal Gazeta de Alagoas, para o qual foi entrevistada pela jornalista Carla Serqueira, durante uma encenação da Paixão de Cristo feita no Portugal Ramalho. Participar de Atalhos também foi um incentivo para comparecer ao hospital. Durante os ensaios e a apresentação, Cristine era uma das atrizes mais entusiasmadas. “Eu quero que um dia alguém diga que eu passei por aqui!”. O problema é que, entre as centenas de mãos que aplaudiram a peça, não estavam as das filhas.

A atriz está quase convencida de que não é mais importante para ninguém e tenta se manter sã, em meio às inúmeras imagens sacras espalhadas pela casa e a coleção de trinta CDs de cantores religiosos. Mas, hoje, só duas coisas a impedem de passar os dias deitada na cama.

A primeira delas é o jardim da pequena casa. Ninguém mais cuida daquelas flores, ela não deixa. Até por isso as folhas ficam um pouco secas, de vez em quando. Mas, assim que vem a lembrança, ela arranca força de vontade de algum lugar, corre para a frente de casa e se põe a cuidá-las, com todo o esmero do mundo.

O outro motivo, pelo qual Cristine se esforça para superar a depressão, é o pequeno Fred. Não é que ele dependa dela para sobreviver. É que Fred é especial demais para que Cristine simplesmente desista de estar ali com ele. Embora ele não saiba falar, ela enxerga o carinho recíproco e o ama.

Afinal, além da filha, o gato siamês é a única lembrança viva que restou do marido, “o único homem da minha vida”.

 

FOTO: Sionelly Leite.

 

 Sobre o especial Por Trás dos Muros, veja também:
– EDITORIAL Por Trás dos Muros e O Museu de Cristine – Parte 1
– O Museu de Cristine – Parte 2
– O Museu de Cristine – Parte 3

 

                                                             Sobre a autora
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Acássia Deliê é jornalista, formada pela Universidade Federal de Alagoas. Em 2010, publicou o livro-reportagem “Por Trás dos Muros”, contando histórias de vida a partir do universo no Hospital-Escola Portugal Ramalho, único hospital psiquiátrico público alagoano. O trabalho foi vencedor do prêmio Expocom Nacional, na categoria livro-reportagem, entregue pela Intercom. Em 2014, a revista luso-brasileira (in)visível publicou trechos da obra. O livro está à venda na Editora Multifoco (http://goo.gl/QueA3d).

 

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