Depois do primeiro internamento, os pais de Cristine decidiram que ela não poderia continuar em Saúde. Com os poucos recursos que possuíam, encaminharam a filha para a casa de uma tia, no Rio de Janeiro. Lá, ela conseguiu um trabalho e permaneceu por um tempo, até que a saudade de casa apertou e, dois anos depois, voltou para Maceió. Um vigia da fábrica de tecidos viu a chegada de Cristine e contou ao patrão. Na mesma noite, ela recebia um bilhete de José R.

– Ele dizia no bilhete que não tinha desistido de mim. E foi, porque mesmo eu estando longe, ele perturbava minha família querendo saber onde eu estava. Foi tanta pressão que eu não tive mais para onde ir. Fiquei com ele não por amor, mas pelas ameaças.

Até julho de 2008, foram quarenta anos de casamento. Nesse período, Cristine aprendeu a gostar do marido e diz que sofreu calada quando foi traída. Da união com o antigo chefe nasceu uma filha, hoje com 36 anos. Outras duas gêmeas, conta, foram abortadas naturalmente. Como não engravidou novamente, há 25 anos ela resolveu acolher uma sobrinha. A menina foi resultado de um caso amoroso de um irmão, que decidiu não assumir a paternidade da criança. Cristine a criou como sua própria filha. Por isso, reconhece como neto o primogênito da sobrinha, hoje com nove meses de idade.

Mas a relação entre as duas ficou conturbada desde 2002. Naquele ano, a sobrinha resolveu mentir sobre o namoro que mantinha com um rapaz. Sob o argumento de que era um amigo que prestava ajuda nos assuntos escolares, o jovem passou a frequentar a casa da namorada. Diante das brigas entre o casal, que começaram a ser constantes na sala de casa, Cristine questionara várias vezes sobre o relacionamento, sem nunca receber uma resposta diferente. A verdade veio à tona em novembro, na festa de aniversário da sobrinha, quando mais uma briga aconteceu. Já abalada pelas mentiras, Cristine não se conteve e partiu para cima do rapaz com uma foice. Horas depois, estava internada em um hospital psiquiátrico, desta vez no Portugal Ramalho.

– De lá para cá, eu sinto que ela me odeia, eu vejo nos olhos dela. Qualquer coisa que eu faço, ela diz: “Parece que tá ficando mais doida!”. É como se quisesse me atingir sempre.

 

FOTO: Sionelly Leite

 

 Sobre o especial Por Trás dos Muros, veja também:
– EDITORIAL Por Trás dos Muros e O Museu de Cristine – Parte 1
– O Museu de Cristine – Parte 2
– O Museu de Cristine – Parte 4

 

                                                             Sobre a autora
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Acássia Deliê é jornalista, formada pela Universidade Federal de Alagoas. Em 2010, publicou o livro-reportagem “Por Trás dos Muros”, contando histórias de vida a partir do universo no Hospital-Escola Portugal Ramalho, único hospital psiquiátrico público alagoano. O trabalho foi vencedor do prêmio Expocom Nacional, na categoria livro-reportagem, entregue pela Intercom. Em 2014, a revista luso-brasileira (in)visível publicou trechos da obra. O livro está à venda na Editora Multifoco (http://goo.gl/QueA3d).

 

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