O museu do Portugal Ramalho funciona em uma pequena sala de frente para a Praça Chiquinho, onde são realizadas várias das atividades artísticas do hospital. A praça recebeu esse nome em homenagem a um antigo paciente, já morto. O museu, por sua vez, traz o nome “O Espaço do Inconsciente”. É lá que estão as grades de ferro usadas no cenário de Atalhos [peça teatral encenada por usuários e funcionários do hospital], servindo como base para o acervo artístico produzido por usuários nas oficinas terapêuticas. A salinha está sempre aberta à visitação pública e, embora não seja das mais estruturadas, abriga inúmeras lembranças saudosas, como a foto de Manoel Augusto [interno do hospital há mais de 20 anos] em plena juventude “pop star”.

Outras lembranças, entretanto, são capazes de abrir antigas feridas. Até hoje, Cristine Mayara atribui àquele pequeno equipamento quadrado, encostado num canto do museu, a eterna tremedeira nas mãos e na boca. Aos sessenta anos de idade, ela ainda recorda da primeira vez que foi internada em um hospital psiquiátrico, por volta dos dezoito anos. Jovem bonita, cheia de vida, acabara de voltar à terra natal, o pequeno distrito de Saúde, no litoral norte de Maceió. Fora dali, estudara até a quinta série do Ensino Fundamental, quando os pais não tiveram mais condições financeiras de bancar os estudos da filha.

Quem se aventura a visitar o distrito se depara com pequenas casas antigas, construídas ao longo de uma comprida rua de barro. Em meio à poeira, meninos jogam bola, sob olhares desatentos de mães e pais desempregados. Meninos que, muitas vezes, têm acesso a uma única refeição por dia: aquela que é servida na escola pública. Mães e pais cuja atenção cedeu lugar à tristeza nos olhos que, um dia, chegaram ali cheios de esperança. Há muito tempo, as casinhas começaram a ser construídas em volta do que hoje são somente ruínas. Era a próspera fábrica de tecidos de Saúde, que, como outras fábricas alagoanas, acabou fechando as portas. Restaram a rua de barro, as casinhas e seus moradores.

Mas quando Cristine Mayara voltou à Saúde, depois da breve vida escolar, a fábrica ainda funcionava a todo vapor. Letrada, logo conseguiu uma vaga como auxiliar de escritório. O convite partiu do próprio chefe, um homem de 42 anos, cujas intenções com a subordinada iam além da relação profissional, como Cristine descobriria mais adiante.

– Já nas primeiras semanas, todo dia eu encontrava um bilhetinho ou um presentinho na minha gaveta. Agradecia e ficava por isso mesmo, porque eu gostava dele como chefe, não para namorar. Eu até tratava ele por “senhor”.

Não adiantou. Diante da resistência aos bilhetes e presentes, logo chegaram as primeiras ameaças. Cristine arranjou um namorado para disfarçar. “Não prestou”, o chefe criou uma confusão com o rapaz, que, imediatamente, desistiu do posto. Tamanho o alarde, a notícia daquela paixão incontrolável chegou aos ouvidos do pai de Cristine, que chamou o “moço” para uma conversa “de homem para homem”. Também não houve trégua. O chefe, 25 anos mais velho que a contratada, estava disposto a tudo para conquistá-la.

– Ele dizia que se eu não fosse dele, não seria de mais ninguém. Dizia até que ia me matar se eu não ficasse com ele. Depois que ele tentou me agarrar, eu fiz uma denúncia na delegacia. Mas ele não foi preso, porque os policiais eram todos comprados pelos donos da fábrica. Eu comecei a adoecer daí.

Cristine emagreceu até os 38 quilos, antes de ter a primeira crise nervosa e ser internada na Clínica de Repouso José Lopes de Mendonça, onde recebeu algumas sessões de eletrochoque e choques com insulina, hormônio que regula as taxas de glicose no organismo e, quando em excesso, é capaz de provocar comas e convulsões.

Enquanto conta a história, sentada no sofá de casa, as mãos enrolam para lá e para cá a fralda do neto de criação. Assim como os músculos dos lábios, as mãos não param. Nos olhos, a angústia pela morte recente do marido, cuja foto permanece intacta na parede da sala. José R. Filho morreu em sete de julho de 2008, vinte dias antes do aniversário de Cristine. Com 85 anos de idade, ele não resistiu às complicações nos rins, decorrentes de uma queda no portão da pequena casa, hoje propriedade da esposa.

Sandra Virgínia estava lá quando ele escorregou na caixa de areia do gato e não conseguiu mais levantar. Ela fazia faxina na casa da vizinha quando ouviu os gritos de socorro.

 

FOTO: Sionelly Leite

 

 Sobre o especial Por Trás dos Muros, veja também:
– EDITORIAL Por Trás dos Muros e O Museu de Cristine – Parte 1

 

                                                             Sobre a autora
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Acássia Deliê é jornalista, formada pela Universidade Federal de Alagoas. Em 2010, publicou o livro-reportagem “Por Trás dos Muros”, contando histórias de vida a partir do universo no Hospital-Escola Portugal Ramalho, único hospital psiquiátrico público alagoano. O trabalho foi vencedor do prêmio Expocom Nacional, na categoria livro-reportagem, entregue pela Intercom. Em 2014, a revista luso-brasileira (in)visível publicou trechos da obra. O livro está à venda na Editora Multifoco (http://goo.gl/QueA3d).

 

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