Neste mês de abril, o Vidas Anônimas lança o seu terceiro especial. Agora, a narrativa é da jornalista alagoana Acássia Deliê com seu livro “Por Trás dos Muros”, contando histórias a partir do universo do Hospital-Escola Portugal Ramalho, único hospital psiquiátrico público alagoano. Sempre aos domingos, iremos publicar partes do capítulo IV da obra, “O museu de Cristiane”. Com o trabalho, a jornalista foi vencedora do prêmio Expocom Nacional, na categoria livro-reportagem, entregue pela Intercom (Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação). Em 2014, a revista luso-brasileira (in)visível publicou trechos do livro-reportagem.

O capítulo tem início a partir da história de Nise da Silveira, psiquiatra que se manifestou radicalmente contra as formas agressivas de tratamento de sua época, tais como eletrochoque e lobotomia, realizando tempos depois uma verdadeira reforma psiquiátrica, com uma forma mais humana de tratar os transtornos mentais. A autora faz uma imersão na vida de Cristiane Mayara, uma das pacientes do hospital que refaz os pedaços de sua história e conta como conseguiu, apesar de tudo, ainda buscar o entusiasmo que precisava para continuar seu tratamento.

“Por trás dos muros” é um livro-reportagem pelo qual o leitor é convidado a ultrapassar os muros de um hospital psiquiátrico e conhecer as histórias de personagens que lá habitam. Na obra, a jornalista Acássia Deliê faz uma imersão ao interior do hospital e às vidas de cinco usuários do hospital. E por meio deles apresenta as histórias de funcionários e da própria instituição. Um trabalho que contribui para quebrar estigmas sobre as doenças e os doentes mentais. Confira, a seguir.

“Sou leonina e leão é fera. Fica mansinho, mas não mexa com ele. Mas é um tipo de leão que vai com aquela garra de brigar e amansa com qualquer ‘acordozinho’. Pelo menos eu sou assim, não guardo ódio, nem rancor. Se quiser qualquer coisa de mim, estou pronta a ajudar”. (Cristine Mayara)
Foto: Sionelly Leite

Foto: Sionelly Leite

Era 1935, época de levantes que buscavam derrubar o governo brasileiro. Estava aberta a longa temporada de caça aos comunistas. Dava para ouvir os tiros que eram disparados fora do hospital psiquiátrico. Lá dentro, a enfermeira que limpava o quarto viu, sobre a mesa, os livros socialistas e a denunciou à administração do hospital. Nise da Silveira era presa e passaria quase dez anos fora do Rio de Janeiro, entre fugas e esconderijos. Quando finalmente pôde regressar, uma briga mais importante ia começar: a briga com a Psiquiatria.

“Durante todos esses anos que passei afastada, entrou em voga na Psiquiatria uma série de tratamentos e medicamentos novos que antes não se usavam. Aquele miserável daquele português, Egas Moniz, que ganhou o prêmio Nobel, tinha inventado a lobotomia. Outras novidades eram o eletrochoque, o choque de insulina e o de cardiazol. Fui trabalhar numa enfermaria com um médico inteligente, mas que estava adaptado àquelas inovações. Então me disse: ‘A senhora vai aprender as novas técnicas de tratamento. Vamos começar pelo eletrochoque’.

Paramos diante da cama de um doente que estava ali para tomar eletrochoque. O psiquiatra apertou o botão e o homem entrou em convulsão. Ele então mandou levar aquele paciente para a enfermaria e pediu que trouxesse outro. Quando o novo paciente ficou pronto para a aplicação do choque, o médico me disse: ‘Aperte o botão’. E eu respondi: ‘Não aperto’. Aí começou a rebelde”.

Quando a psiquiatra alagoana Nise da Silveira fez esse relato ao escritor Ferreira Gullar, em 1996, no Rio de Janeiro, o aparelho de eletrochoque do Hospital Portugal Ramalho, em Alagoas, já estava aposentado havia 21 anos. A última aplicação de que se tem notícias foi realizada em 1975, quando Marcondes Costa ainda era diretor do hospital. Nessa época, a técnica era usada indiscriminadamente, muitas vezes como forma de punição ao usuário em crise, sem o devido acompanhamento profissional. O psiquiatra lembra que alguns médicos chegavam a receitar as sessões por telefone, cabendo a jovens estudantes de medicina a árdua missão de presenciar as convulsões induzidas.

Como não podia simplesmente proibir o tratamento em voga na psiquiatria nacional, Marcondes teve uma ideia: assinou uma nova determinação sobre o uso do eletrochoque no hospital. A partir dali, o psiquiatra que receitasse a sessão deveria também se responsabilizar por sua execução. Algum tempo depois, por falta de uso, o aparelho foi recolhido ao então recém-criado museu da instituição e lá permanece até hoje, dividindo espaço com esculturas, estandartes, quadros, fotografias e recortes de jornais.

 Sobre o especial Por Trás dos Muros, veja também:
– O Museu de Cristine – Parte 2

 

                                                             Sobre a autora
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Acássia Deliê é jornalista, formada pela Universidade Federal de Alagoas. Em 2010, publicou o livro-reportagem “Por Trás dos Muros”, contando histórias de vida a partir do universo no Hospital-Escola Portugal Ramalho, único hospital psiquiátrico público alagoano. O trabalho foi vencedor do prêmio Expocom Nacional, na categoria livro-reportagem, entregue pela Intercom. Em 2014, a revista luso-brasileira (in)visível publicou trechos da obra. O livro está à venda na Editora Multifoco (http://goo.gl/QueA3d).

 

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