O dia a dia de trabalho de Gesivan Rodrigues Gouveia, 67, nunca passou por grandes mudanças há mais de cinco décadas. Ele acorda diariamente às 6h, toma seu café da manhã, veste uma roupa confortável, para ter uma jornada de 12h de trabalho, e pega no batente.

A rota também se mantém a mesma. Seu Gesivan desce a Ladeira do Brito, no Farol, e segue em direção à praça Montepio, no Centro da capital. Por volta das 7h30min, sobe as portas de zinco da Banca Nacional, uma das mais tradicionais de Maceió. A rotina se repete ao longo dos mais de 360 dias do ano, sem pausa para feriados e finais de semana.

A sua trajetória pessoal se confunde com a profissional, que mantém desde os 14 anos de idade, e compõe uma parte da his­tória da cidade. Da Ditadura Militar à redemocratização, o bair­ro onde se fixou, foi palco e refletiu os momentos de tensões que repercutiram em todo o País.

Quando é convidado a resgatar alguns momentos marcantes do passado da Banca Nacional, ele costuma associar determina­do fato ao cenário político da época, a exemplo da Ditadura do general Médici e um ato a favor das bancas de jornais e revis­tas e da liberdade nos veículos de comunicação, promovido pelo alagoano Aldo Rebelo, que hoje ocupa o cargo de ministro do Esporte, reunindo cerca de três mil pessoas, nas imediações da praça Montepio.

Atrás do balcão, Gesivan testemunhou o nascimento das grandes editoras e o fechamento de importantes publicações, entre revistas e jornais. Mas nada se compara com a redução nas vendas que vem constatando depois do surgimento e da popula­rização da internet. “Todo mundo quer viver de teclar”, comenta o jornaleiro, deixando claro o pouco tato que possui com as “coi­sas digitais”.

Seu Gesivan era ainda estudante do antigo ginásio, quando foi convidado por um amigo, que prestava serviço numa distribuidora de revistas, para entrar no ramo. Uma armação improvisada – chamada de “cama de vento” – fazia o papel da banca de jornal. Nela, os amigos penduravam jornais e revistas.

Na época, já havia certa concorrência. Por esse motivo, a troca pelo ponto de venda em frente ao extinto Cine São Luiz para um ponto próximo do antigo Hotel Lopes foi crucial para que conquistasse uma freguesia exclusiva.

“Daí em diante, adotei este local de trabalho. Já fui para o centro da praça Montepio e voltei para onde estou umas duas vezes. Mas nunca me afastei daqui”, conta, ao passo que tirava dentre as páginas amareladas de um velho caderno um recorte de jornal, no qual estampava duas fotos antigas, uma da região e outra do Hotel Lopes.

Quando a editora Abril e a já extinta Chinaglia ofereceram a opção de ganhar um salário fixo ao invés do lucro pelas vendas, Gesivan preferiu ganhar pelo o que vendia. Assim, aos poucos, juntou dinheiro e construiu sua primeira banca de madeira. “Foi no tempo de Sandoval Cajú”, rememora, fazendo referência ao ex-prefeito de Maceió.

Trazendo na bagagem uma experiência de 52 anos no ramo, ele aprendeu a conquistar a clientela com a sua simpatia e, talvez, o mais importante, a transitar entre as medidas apertadas – 4 m x 3 m – da banca de jornal, em meio a quase três mil títulos que compõem o acervo.

Após concluir o segundo grau, o jornaleiro assumiu sozinho o negócio. O seu pai ficava encarregado das atividades enquanto Gesivan estava na sala de aula. “Nunca pensei em abandonar os estudos”, observa.

O horário combinado para que Gesivan Rodrigues resgatasse parte da história da Banca Nacional foi por volta das seis da noi­te. Segundo o jornaleiro, esse é o período mais tranquilo do dia, pois “o movimento começa a cair”, justifica. Contudo, a clientela não deixava de aparecer. E enquanto respondia a algumas per­guntas, homens e mulheres paravam para ouvir o que ele tinha a dizer.

“O período mais difícil foi o da ditadura militar. O golpe de 64 mudou tudo. Veio a perseguição para todas as bancas em todo o País. Aqui, não foi diferente. Aconteciam apreensões de revistas e jornais. Logo, o lucro começou a diminuir. Os policias revistavam as bancas de jornal e qualquer publicação com pala­vras que eles julgavam serem impróprias eram apreendidas.”

Gesivan foi preso duas vezes por vender publicações de es­querda, como o extinto jornal Pasquim, e revistas com conteúdo erótico. “Numa dessas prisões, o censor me disse: ‘Você está su­jando a sociedade de Maceió’. Até que o chefe dele, que compra­va revistas de mulher nua, me viu naquela situação e logo procu­rou dar um jeito. Recebi uma ordem de apreensão e ele repassou o meu nome para a Polícia Federal. Podia ter acontecido coisa pior”, recorda.

Ao contar para o seu pai esse episódio, ele revela com bom humor: “Nunca apanhei da polícia, mas, naquele dia, apanhei do meu pai”. A partir do ocorrido, dois olheiros ficaram vigiando a banca do alto do atual prédio da Secretaria de Estado da Defesa Social, no Centro. No entanto, como um amigo tinha avisado a ele sobre a situação, seu Gesivan ficou mais atento. “Quando não eram recolhidas antes de chegarem às bancas, as publicações já vinham com matérias cortadas”, lembra.

“Certa vez, a revista Veja publicou que o general Costa e Silva faleceu de uma ‘banana’ [referindo-se ao gesto] que um deputa­do federal dirigiu para ele. Toda essa edição foi apreendida”, dis­se o jornaleiro, provocando gargalhadas nos fregueses presentes.

Para manter a longa jornada de trabalho durante a semana – das 7h às 19h –, seu Gesivan conta com a ajuda de um sobrinho há mais de 40 anos, que fecha a banca às 22h. Aos domingos, a atividade é encerrada às 19h. Com o faturamento mensal, ele paga todas as contas e sustenta a sua companheira e um casal de filhos – um garoto de 15 anos e uma menina um ano mais nova.

Além do bom humor, o que mais chama a atenção da clien­tela que passa por lá é a quantidade e a variedade de publicações à venda, a exemplo dos jornais Folha de S. Paulo e Jornal do Com­mercio, além de revistas dos mais variados gêneros, incluindo a NewsWeek International.

“Eu sempre gostei de ter todas as revistas para saber o que rola na cabeça dos intelectuais do País, entre elas Cruzeiro, Fatos e Fotos, Cigarra, X9, Foto Aventura, O Risco e Tarzan. Gostava também de vender jornais da oposição e os melhores eram O Pasquim, Opinião e Movimento. Aqui, eu me sinto no palco da vida”, diz.

Foto: Elayne Pontual.

Francisco Ribeiro

É jornalista. E-mail: chicoribeiro@msn.com

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