De longe, o avistei, logo ao virar à esquerda, numa das esquinas do Centro de Maceió. Enquanto seguia em sua direção, refazia em minha cabeça o roteiro da cena que se sucederia nos instantes seguintes. Agachei-me ao seu lado, toquei no seu ombro e disse: “Edmilson”, que parou imediatamente de tocar o seu pandeiro, “sou jornalista e gostaria de escrever a sua história”. Ele, mais conhecido como Ceguinho do Centro, aceitou. Mas não sem ressalvas. Pediu para que a entrevista acontecesse onde mora, no bairro do Benedito Bentes II. “Porque aqui”, alegou, “o pessoal fica de olho”.

Um dia se passou após meu primeiro contato com Edmilson naquela manhã de sol e mormaço. Era quarta-feira, por volta das 20h, quando bati à porta da sua casa. Agora sentado, confortavelmente, no velho sofá verde da pequena sala, frente a frente com ele e com nossos rostos nivelados, decifrei qual desafio estava posto. A cegueira a ser subvertida era a minha. Para enxergar Edmilson, reconheci que, ali, o cego era eu.

Engana-se quem acha que o Ceguinho do Centro não vê o mundo. A única diferença entre Edmilson e a maioria das pessoas reside na forma como ele traduz as coisas ao seu redor. Compreender sua perspectiva foi o mistério que me propus a desvendar.

“Certa vez, tive um desgosto tão grande, que até hoje não me esqueço”, relembrou, “quase que perco o ouvido”. Os dias em que ficou sem escutar através do ouvido esquerdo, devido a uma inflamação, foram os mais angustiantes da sua vida adulta. Surdo, ele perdeu o senso de direção. “Quando chegava na porta de casa, se ninguém viesse me receber, eu passava direto porque o ouvido esquerdo não ajudava”. Só então, pela primeira vez, Edmilson se viu realmente cego. “Pois é muito através do ouvir, e não do ver, que eu consigo fazer tudo”.

“Estou escuro”, concluiu ele, ainda garoto, naquele que seria o seu primeiro exercício de se perceber no mundo. Edmilson Mendes da Silva tinha cinco meses de vida quando perdeu a visão. “Foi por causa de um leite que mergulhei na escuridão”. Pedi para explicar com mais clareza. Ele o fez:

— Minha mãe disse que foi por causa de um leite, que só poderia ser ingerido quando misturado com uma vitamina; mas ele me foi dado sem. Aí, eu ceguei.

Não enxergar, para Edmilson, foi tragédia e redenção. Foi o drama da sua vida. E também a razão para que não sucumbisse aos seus reveses.

Nascido em São Bento do Una, no agreste pernambucano, ele disputava espaço com os cinco irmãos no barraco apertado em que vivia. Criado como rebento de bicho, foi vítima de maus-tratos durante toda a infância. A cegueira do menino serviu como justificativa para as surras do padrasto.

Certo dia, Edmilson sentou em frente ao casebre onde morava e desatou a cantar. Foi quando descobriu a sua voz como arma para driblar o futuro que parecia já inscrito na trama de sua vida. Daí em diante não parou mais.

Após andanças pelos municípios de Queimada Grande (PE), Canhotinho (PE) e Laranjeiras (SE), sua família fixou residência em São José da Laje (AL). Todo domingo, religiosamente, ele tocava e cantava na feira do município. “Sabe qual era o meu instrumento? Duas latas de sardinha Coqueiro”, lembrou. Desde então, este se tornou o seu ofício. Antes de seguir o texto, é preciso fazer uma pausa e explicar: Edmilson não se vê como pedinte. Ele não suplica esmola. Em troca do seu show, as pessoas lhe dão algum trocado. Edmilson, na verdade, se considera um artista.

Por volta dos dez anos, os maus-tratos tornaram-se cada vez mais constantes. “Com o dinheiro que ganhava, eu conseguia vestir minha mãe e meus seis irmãos, mas, ainda que eu fizesse de tudo pra agradar, não tinha jeito…”. A situação ficou insustentável quando voltou para casa após passar 15 dias internado devido a uma surra do seu padrasto. Diante disso, Edmilson disse a sua mãe:

— Eu num já tô lhe ajudando? Dando calçado e comida? A senhora não precisa mais nem trabalhar. Deixa esse hômi, mãe.

— Não. Eu não vou deixar o meu marido, não – deu o ultimato.

“Ela me falou isso vendo as minhas costas todas ‘lapiadas’ de corda”, recordou. Edmilson, até hoje, carrega a dúvida sobre qual cicatriz mais o machuca: a da alma (a lembrança das palavras de sua mãe) ou a do corpo (as marcas na pele das pisas de seu padrasto). “Se ela tivesse comigo, tinha morrido sem depender de hômi nenhum. Sei lá. Acho que a vida teria sido melhor. Eu, ela e meus irmãos.”

A fuga de casa foi sua única saída. Aos 12 anos, chegou a Maceió com a “roupa do couro” e um pandeiro na mão. Foi naquela época que fez um amigo fiel: o rádio. O “amansa-corno”, como costuma se referir ao portátil, resgatou Edmilson da solidão em que vivia.

Contudo, oito dias depois, se viu obrigado pela polícia a retornar para sua casa. Desesperado, pediu ajuda a um padre que desfez a sina de sua existência. O pároco arranjou uma vaga na Escola Estadual de Cegos Cyro Accioly.

De segunda a sexta, até o fim da tarde, ele era visto na sala de aula aprendendo Braile. E à noite, das 19 às 21h, cantava e tocava na Praça do Bonfim, no bairro do Poço. A transição entre a época da escola até os dias de trabalho no Centro não foi fácil. Sua chegada ao novo local de trabalho foi a duras penas. “Eu fui muito perseguido ali”, revelou.

“O dono do bar situado em frente à Igreja do Livramento jogava água gelada em mim alegando que eu estava atrapalhando o seu negócio. Ele também pagou funcionários para chutar as minhas costas. A dor era tamanha que eu parava de cantar”, contou com voz mansa, como se falasse em terceira pessoa. “Os donos das lojas Casas Lavor e Leite Bastos também se incomodavam com a minha presença. Reclamavam do barulho”.

— Hoje em dia, parou – pontuou. Eu acho que alguns lojistas só me veem porque tem olho na cara. Eles não apoiam o meu trabalho.

Aos 50 anos, Edmilson contabiliza mais de três décadas de trabalho no Centro. Sua jornada é de segunda a sexta, das 10 às 16h. Sem pausa para almoço. Às vezes, também nas vésperas de feriados. Quem avisa o fim do expediente é o radinho que carrega sempre ao seu lado. Com o dinheiro que recebe, sustenta seus três filhos – Renato, 11, Ana Caroline, 9, e Ana Carla, 6, – e mais dois meninos, frutos do primeiro casamento de sua atual mulher, Maria do Carmo. A casinha de dois quartos, sala e cozinha, explicou Edmilson, foi doada pelo Governo Federal, através de um programa que destinava residências populares para deficientes visuais.

A voz tranquila de Edmilson chama a atenção. Ele fala como quem não guarda mágoas, porque, aliás, parece desconhecer o que seja isso. “Minha mãe já morreu e eu pedi muito a Deus que perdoasse ela, porque eu acho que por mais ruim que a mãe seja, andou com a gente nove meses no ventre. Mas o meu padrasto é difícil perdoar. Acho que ele fez demais.”

— Maceió foi boa com o senhor?
— Pra todo mundo que vem fazer entrevista comigo, eu digo: ‘Foi aqui onde eu comecei toda a minha vida’. Quiseram, inclusive, me levar pro Caldeirão do Hulk, mas eu já respondi pras pessoas dizendo que não queria. Porque o Deus de lá é o mesmo daqui. E não quero sair daqui sem família, sem ninguém lá fora. Eu adoro aqui. É Deus no céu, Maceió na terra.

— O senhor está satisfeito com a sua vida?
— Tô. Sofri muito, mas você que luta por aí sabe que a vida não é fácil. Mas, hoje, tô no céu. Hoje a coisa melhorou.

— O senhor tem curiosidade de ver o mundo?
— Não. Porque nesse mundo corrompido pelo egoísmo, pelo preconceito, por tanta coisa que você vê errada e não pode dar jeito, eu prefiro não ver.

— Qual a pior coisa de trabalhar na rua?
— O preconceito e o fato de acharem que eu sou aposentado. Por isso, muitos não colaboram.

— E a melhor?
— Receber o carinho do público. Muita gente que vem do Sul do País elogia o meu trabalho.

— Quem escreve as suas músicas?
— Minha cabeça. Eu não sei se elas são bonitas, mas o povo gosta.

— O que os seus filhos acham do seu trabalho?
— O Renato tem vergonha de mim como pai. Mas não me sinto triste. Porque eu acho que ninguém muda ninguém. Cada cabeça é um mundo. De certa forma, eu até já tô acostumado, porque o meu pai biológico teve vergonha de mim, quando ele disse para minha mãe que iria levar dois dos meus irmãos e não a mim, por eu ser cego. Eu lembro que ela falou: ‘Ou leva todos ou nenhum’. Ficamos.

Edmilson ainda conta que seu sonho é mudar-se para um bairro mais próximo do Centro. Enquanto seu desejo não se concretiza, o Ceguinho segue a vida. Assim como vem fazendo há cinco décadas. “Quer ver eu feliz?”, perguntou. “É quando chega o final de semana, porque eu fico aqui, só numa boa, curtindo uma musiquinha pra descontrair e a mulher tratando galinha pro almoço”, respondeu, sem disfarçar o sorriso. Para concluir a entrevista, questionei:

— O mundo é bom?
— Pra quem sabe viver. O mundo é uma escola. Uma lição.

— E qual lição o senhor aprendeu?
— Uma lição boa, muito boa, essa que eu vivo. Acho que não teria melhor.

Foto: Natália Agra.

Francisco Ribeiro

É jornalista. E-mail: chicoribeiro@msn.com

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