FOTO: RENATA BARACHO

FOTO: RENATA BARACHO

Quando Nelson espiou na televisão
O violino dedilhar cordas feito violão
Perguntou a Deus do céu, ai
Por que ele não podia tocar também a sua canção?

Perguntou a Deus do céu, ai

Por que tamanha judiação?

Então…

Da madeira fruta-pão
Adocicou as asas da vida judiada e da imaginação.
Dela nasceu a rabeca
Sua glória

Alegria

E salvação.

Aos 54 anos de idade, quando a vida é metade do caminho, Nelson dos Santos, hoje com 73 verões, criou outra forma de contar a sua história de menino dos canaviais. Sempre se maravilhava ao ver pessoas tocarem violino na televisão. Achava bonito. Queria ter um, mas ele, sua mulher, Benedita Duarte dos Santos (70), e sua prole de 10 filhos, não tinha sequer uma casa para morar, que dirá um violino para seu Nelson “tocar no meio do mundo e fazer a alegria do povo”.

A vontade era tanta de dedilhar canção que seu Nelson resolveu criar o seu próprio violino. Foi para a mata, cortou a madeira com o mesmo facão que açoitava a cana-de-açúcar e começou a dar forma à fruta-pão. Alguns dias depois, quando acertou as medidas do seu desejo, nasceu a “rabeca” – o instrumento que permitiu Nelson dos Santos tocar futuros doces, como a cana, que ajudou a adoçar os anos de dificuldade. Ele diz que a rabeca é “prima do violino” e que se chama assim, porque este foi o nome que deu certo. Certo mesmo foi o (re)nascimento dos dois. Nelson está para a rabeca, assim como a rabeca está para… Nelson dos Santos.

Há 25 anos ele não para de fazer, nem de tocar não só a rabeca, como a vida de toda a família. Largou os canaviais para viver de música. Ele, uma filha e outro filho não fazem conta de quantas rabecas suas mãos já cavaram, mas sabem que pelo mundo já espalharam mais de 5 mil. Assim como o universo tomou do tempo uma semana para ficar prontinho, a rabeca de Nelson dos Santos também. E ele garante: há quem esteja deixando o violino para voar nas cordas de sua criação.

Natural da cidadezinha alagoana de Joaquim Gomes, Nelson criou raízes no município ribeirinho de Marechal Deodoro. É inclusive lá em Marechal que uma estátua foi eternizada em homenagem ao homem, e ao instrumento, que por seu talento tornou-se, em 2009, Patrimônio Vivo de Alagoas. E entende-se por patrimônio vivo alagoano aquele que faz do conhecimento herança da cultura tradicional ou popular para as futuras gerações da terra.

O compositor e instrumentista Nelson da Rabeca tinha oito irmãos. Todos já morreram. Só ficou Nelson para compor as alegrias e tristezas de uma vida feita de cordas longas e, muitas vezes, desafinadas. Assim como o menino Nelson, seus pais também viviam no meio do mato, ceifando a cana. Morreram quando ele tinha 40 anos. O pai dele era um pai muito bom, mas só tinha um problema: não deixava o menino Nelson ir “espiar” os sanfoneiros tocar. “(Eu) Era só para trabalhar. Andar de jeito nenhum”, rememora ele. E amola na memória o que dizia: “Tá danado!”.

A casa com uma rabeca na porta a emoldurar boas-vindas, e onde mora ele e dona Benedita há 15 anos, foi comprada com o dinheiro arrecadado pelo movimento “Amigos do Nelson”, em meados da década de 90, e com o dinheiro dos shows que fez pelo país com o projeto “Sonora Brasil”, do SESC, em 2001. Na época, o dinheiro foi tão bom que até deu para comprar mais duas casinhas regaladas aos filhos.  E o sucesso de Nelson da Rabeca é tanto que já gravou CDs e até tocar na Noruega, em 2011, Nelson já cantarolou.

Passou 16 dias acompanhando e sendo acompanhado por violinos. Não entendia a fala dos noruegueses e nem eles entendiam a sua. Mas problema seria se eles, incluindo seu Nelson, não fossem “fera” no idioma universal da melodia. Viajou junto à esposa e à filha. Fez dois shows e voltou levinho ao ponto do “vento carregar”, como ele diz. Nelson não se agradou muito da comida apimentada do Reino da Noruega. Não tinha feijão, galinha; o arroz era roxo e sequer tinha um pouquinho de açúcar no café, tampouco havia uma boa farinha, que é a comida que ele mais gosta, para acompanhar. Mas ficou satisfeito em ter viajado tão longe só para fazer o que de melhor sabe: “rabequear”.

Começou a trabalhar no canavial aos sete anos. Não estudou. Não teve oportunidade. Mas lutou, lutou, lutou… E aprendeu, já com os cabelos brancos, a escrever o seu próprio nome, porque tinha vergonha de melar o dedo. Seu Nelson era mais que mancha de tinta lambuzada de digitais. Nelson dos Santos é também um nome, um conjunto de palavras, um alfabeto todinho.

Casou com Benedita aos 19 anos. Ela, na época, era uma moça de 16 primaveras, morava em uma fazenda e Nelson em outra. Um dia, quando ele foi à casa da irmã dele, lá estava a futura mãe de seus filhos. Já tinha decidido que ia sair de casa, mas casado. Chegou de mansinho e cochichou nas ideias de Benedita: “Ói, eu não tenho nada. Quem tem é meu pai. Se você quiser casar comigo, eu caso hoje mesmo.” Quinze dias depois os dois eram pareia, como até hoje – 54 anos depois. Não tinham nada, mas havia um amor inteirinho para afinar. “Nunca a troquei por outra, nem troco”. Como afirma sorrindo seu Nelson, esse pecado, nem desejo!, ele não tem.

O casamento deu tão certo que a esposa o acompanha aonde for, afinal de contas enquanto Nelson da Rabeca toca, Benedita Duarte dos Santos canta. E a junção dos três… Ah, encanta! O Nelson não é só da rabeca. É, sobretudo, o Nelson de dona Benedita. Dos dez filhos do casal, apenas um não está mais aqui para cantar as conquistas. Gilson, que era rabequeiro tal qual seu Nelson, morreu aos 20 anos vítima das drogas e da surdez que se recusa a ouvir os conselhos do bem de pai e de mãe. Aos todo, são 40 netos. E são tantos que seu Nelson não sabe dizer sem desafinar o nome de cada um. Mas fala deles com a alegria e o com a ternura de quem adora ser, além de rabequeiro, avô de coração cheio.

O menino do canavial, que não passa um dia sem receber visita, gosta mesmo é do seu povo – esse que ele “acha bom fazer amizade” e o ama por quem ele é e pelo que ele fez, e faz!, de sua sabedoria genuína. Escola nenhuma ensinaria a Nelson dos Santos com quantas rimas, cordas e notas são feitas as canções de sua rabeca. Tampouco lhe saberia dizer com que tipo de madeira seu Nelson talharia, com maestria, a história de sua vida.

Glória Damasceno

É uma das, muitas!, pessoas que não está na deselegante lista das 100 personalidades mais influentes do mundo, segundo a Forbes. Outro dia sonhou que era esposa do Jon Bon Jovi e acredita que isso é prenúncio para essa vida, ou para a próxima. Sabe-se lá. Escreve também, quando quer, no blog Apenas uma Fresta.

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