Eu me chamo Maria Alexandre da Silva. Mas meus vizinhos e colegas me conhecem apenas por Maria. Analfabeta, só sei o que é um “o”, porque tomo café no copo. Tenho 66 anos e a essa altura de minha vida maltratada carrego algumas feridas incuráveis, apesar de já terem sido medicadas pelo tempo. Aliás, de muito tempo injetado nas minhas veias, que estão à mostra no meu corpo esquelético. Mas, o que acontece, é que não existe remédio pra minha boa memória.

Ainda guardo na lembrança a chibata entrançada de couro cru do meu padrasto. Ele batia muito em mim e nos meus quatro irmãos. Eu tinha 14 anos e quase morri açoitada. Mas meu vizinho não deixou eu morrer cedo. Minha mãe via tudo. A única coisa que ela fez foi lavar os calombos nas minhas costas com água de sal.

Quando meu padrasto disse para minha mãe escolher entre mim e ele, ela o escolheu. Não ia perder o dono da casa dela por mim. Ela então me mandou ir embora. E eu fui. Peguei um lençol de saco, coloquei embaixo do braço e saí pelo mundo sem saber ler, feito uma peregrina, mendigando um lugar pra chamar de minha casa no mundo. A sorte que tive foi um rapaz que encontrei pelo caminho. Ele me ensinou a chegar ao endereço de onde minha tia morava.

Minha mãe trabalhava no curral de fumo. O estudo que ela e meu padrasto me deram foi o da enxada, da casa de farinha, dos canteiros pra cavar, da mandioca pra arrancar da terra. Apesar de tudo, não tenho rancor ou ódio deles. Mamãe ainda é viva. Tem 84 anos. Até morou comigo durante seis anos, depois que meu padrasto morreu. Ele teve um derrame. Ficou condenado há onze anos numa cama. Quem limpava as pernas de chagas dele era eu. Ele chorava muito quando me pedia perdão. Eu perdoei o Tiá. Nunca o chamei de pai. Ele nunca fora um pai. Muito menos o meu, que morreu afogado no açude do governo, quando eu só tinha cinco anos de idade. O vazio da minha vida começou aí, ao perder ele que, realmente, foi um pai para mim.

Nunca me casei, embora tenha tido três companheiros. Todos já morreram. Eu nunca tive sorte com marido. Vivi com o primeiro nove anos. Ele morreu de uma topada no pé. O dedo começou a inflamar, tomou conta do corpo e quando se falou em operação, já era tarde demais. Tive três filhos com ele. Duas meninas-mulé e um menino-homem. O meu filho morreu há quatro anos do coração e do coração eu também tenho morrido, dia após dia, depois que ele me deixou pra nunca mais voltar.

O meu segundo marido morreu de uma forte dor de cabeça. Não pude sequer olhá-lo por um segundo de eternidade. Com ele, tive nove filhos. Mas só se criou a mãe do meu neto especial.  O médico falou que ele tem 12 anos agora, mas a sabedoria dele é de uma criança de um ano de idade. Desde pequeno achava que ele não era sadio, como um sobrinho meu.

Com o terceiro companheiro não cheguei a ter filhos. Achei melhor encerrar a ligação das minhas trompas com a vida. Eu já estava ficando velha pra ter filho. Sofri muito com a morte do meu primogênito. Depois ele que morreu, vendi uma casa que tinha na Brasiliana (bairro), em Arapiraca. Fiquei sem prumo. Fui morar no povoado Barro Vermelho. Me isolei do mundo. Não queria conversar com ninguém. Só sabia chorar. Minhas filhas me ajudaram a enxugar as lágrimas que a falta de meu filho me fez e ainda faz.

Eu sou uma mulher sem sorte. Não tem nada de bom pra mim. Fiquei sozinha no mundo. Vendo frau, pipoca, chiclete, tortelete que compro lá no Centro da cidade. O sono vai embora quando paro pra pensar na vida. Acredito que tudo que Deus fez é bom, mesmo que ele tenha tirado tanto de mim. Até o café da manhã. Às vezes eu vou dormir sem saber se comerei no dia seguinte. Eu não como às vezes.

O dinheiro da vendinha só dá para pagar o aluguel, a água, a luz e o bujão, que nem sempre cozinha o feijão, o arroz e a carne de meio-dia. Ficam só 90 reais pra eu comprar de comida. E só o que esquenta religiosamente é a cabeça de tanta dívida. Eu tenho o desgosto de depender dos outros. Se meu filho ainda estivesse comigo, eu certamente seria uma mãe feliz. Não consigo falar dele sem alagar as barras de minha saia. Não, eu não consigo…

Faltam muitas coisas na minha casa, mas gente não falta. Não peço nada a minha filha, porque a carga que ela carrega já é muito pesada. Os remédios de meu neto são muito caros. Só o aluguel do canto dela é 500 reais. Eu não posso colocar em suas mãos mais essa responsabilidade.

Sou viciada em cigarro. Comecei a fumar aos cinco anos. Das irmãs, eu era a única que fumava. Minha avó sempre me mandava acender o fumo dela. Tudo meu era com ela. Eu a amava. Acho que minha avó era meu lugar no mundo, antes de ser mãe.

De vez em quando, sinto umas dores de cabeça forte. Já fiz exames de tudo quanto é coisa e nada acusou. O nome da minha doença deve ser tristeza, que se agrava com a cafeína. Tomo muito café. Suco? Só de maracujá. Bebo pouca água. Sou ruim de viver no mundo e, ainda assim, sobrevivo.

O som ligado na minha casa não é de alegria. A música que ele toca às vezes é de euforia, mas as paredes do meu teto são feitas de outra substância que pouco tem a ver com o riso. Não é fácil procurar no armário o café-da-manhã e encontrar as prateleiras vazias.

Espero (da vida), em primeiro lugar, por saúde e um pão mais suave pra comer; por uma felicidade com vida ou com morte. É isso que ainda espero, quando me sento todas as tardes na cadeira de plástico e vejo o dia escurecer.

Glória Damasceno

É uma das, muitas!, pessoas que não está na deselegante lista das 100 personalidades mais influentes do mundo, segundo a Forbes. Outro dia sonhou que era esposa do Jon Bon Jovi e acredita que isso é prenúncio para essa vida, ou para a próxima. Sabe-se lá. Escreve também, quando quer, no blog Apenas uma Fresta.

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