Na cozinha do apartamento onde mora João Édson de Barros, um galo-de-campina canta todas as manhãs. Para esse paulista, de 56 anos de idade, o bicho é a demonstração mais explícita da sua paixão pelo CRB, time do qual vestiu a camisa por cinco vezes, e se consagrou como um dos maiores artilheiros da história do futebol alagoano, com uma impressionante marca de 153 gols.

Com exceção de uma foto em preto e branco em que vemos João com sua filha pequena nos braços, no campo do estádio Rei Pelé, são poucos os objetos que indicam que aquele homem esguio, de aparência robusta, já foi um “superstar” dos gramados. Modesto ao falar de si mesmo, ele afirma ter “pouca vaidade”, mas não faz questão de esconder seus grandes feitos dentro de campo.

No XV de Piracicaba (SP), time em que começou sua carreira, aos 14 anos, ele recebeu o apelido pelo qual se notabilizou: Joãozinho Paulista. Ao longo de duas décadas de trajetória profissional, jogou em 21 clubes brasileiros e no Cerro Porteño, do Paraguai, e encheu as redes adversárias mais de 400 vezes, o que lhe rendeu também a alcunha de “João dos Gols”.

Aos 12 anos de idade, na cidade de Campinas, interior de São Paulo, João já mostrava o seu talento nos rachas realizados pelo time do bairro. Foi naquela época que sua fama de bom goleador nasceu. As pessoas que assistiam às partidas comentavam: “O Joãozinho tem um dom para fazer gol”. Os boatos chegaram ao ouvido do seu tio Antônio, que certa vez o levou para fazer o teste no juvenil do XV de Piracicaba. No “peneirão” com aproximadamente 200 crianças, apenas 17 foram aproveitadas. Seu nome estava na lista dos aprovados.

Pouco tempo depois, João passou a figurar no elenco profissional do clube. Mas se dentro de campo o garoto, aos poucos, ganhava seu lugar ao sol, em casa a realidade era outra. Ele teve que enfrentar a resistência dos seus pais, que não aprovavam a carreira de jogador, cabendo somente a seu tio apoiá-lo. “Era ele quem me levava aos jogos, quem me dava suporte. Quando meu pai queria me bater por conta do futebol, ele dizia que eu tinha um dom e que eu iria jogar futebol”, lembra o artilheiro.

Tudo mudou quando seu pai leu num jornal local uma matéria a respeito de uma partida entre o XV e o Portuguesa Santista, cuja chamada dizia: “Joãozinho, com 17 anos, é o único jogador mais novo no futebol paulista que vai figurar no banco do XV de Piracicaba”. O placar final foi de 1 x 0 para o time no qual jogava e o único gol da disputa foi dele. No dia seguinte, o feito de João estava em todas as rádios e canais de TV. “Foi então que meu pai sentiu que não tinha mais condições de me segurar”, rememora.

Na partida seguinte, contra o Noroeste de Bauru, encontrava- se na arquibancada uma comissão do CRB, que foi até a cidade paulista para fechar contrato com dois jogadores de renome do XV. Pouco tempo depois de João entrar em campo, marcou um gol. “No final do jogo, eles disseram para os diretores do time: ‘Libera aí esse menino que fez o gol’”. Em março de 1976, aos 18 anos, Joãozinho foi contratado pelo time do galo.

O técnico na época, Jorge Vasconcelos, subestimou o garoto por causa da aparência franzina. “Como é que vocês trazem um garoto tão novo pra jogar no CRB!”, reclamou com o presidente do time, Luiz Gonzaga Mendes de Barros, quando o viu no treino. “Não esqueci aquele comentário”.

E no clássico contra o CSA, decisão do segundo turno, o jogador Antônio Carlos, titular da posição, se machucou. Então, Itamar Dengoso disse: ‘Seu treinador, bota esse menino pra jogar que ele tem sorte de fazer gol’. O jogo foi 3×2 para nós.E eu fiz os três gols”, conta ele, que logo após a façanha tornou-se titular do time. Essa foi a oportunidade que precisava para fazer a sua carreira deslanchar. Em 13 partidas, fez 20 gols e recebeu o título de artilheiro do campeonato. “Desde então, ‘seu’ Jorge Vasconcelos passou a me chamar de ‘meu filho’”, recorda, com orgulho.

No extinto Campeonato Nacional de 1976, atual Campeonato Brasileiro, em que 64 clubes disputavam o título de campeão e vice-campeão, o CRB fez uma boa campanha e ocupou a 16o posição no ranking geral. Joãozinho Paulista fez nove gols e, por isso, despertou o interesse de times como Atlético Mineiro, Sport, Náutico, Santa Cruz e Internacional, de Porto Alegre, que comprou o passe do artilheiro por 1.540.000 cruzeiros, considerado o mais caro do Norte-Nordeste, na época. “Daí em diante, dei sequência à minha carreira profissional”, diz.

Entre os grandes campeonatos que disputou, estão a Libertadores, o Campeonato Gaúcho, o Pernambucano e o Brasileiro. Neste último, ele guarda a sua maior frustração. Na decisão do Brasileirão de 1977, João, que jogava pelo Atlético Mineiro, perdeu um pênalti e deixou escapar o título para o São Paulo, em pleno Mineirão. O time foi o vice-campeão com seis vitórias a mais do que o São Paulo. “Eu já estava no vestiário quando fui chamado pra bater o pênalti porque os jogadores mais experientes se recusaram a bater. O então técnico Barbatana praticamente me obrigou a fazer a cobrança”, lamenta.

Após o término do Campeonato Brasileiro, o artilheiro retornou a Maceió, emprestado para o CSA, mas uma contusão no pé direito, em 1978, o tirou dos gramados. Depois de recuperado, o Atlético emprestou o artilheiro dessa vez ao CRB, onde se consagrou tricampeão alagoano de 1976, 1978 e 1982. “Quem tem Joãozinho, tem tudo”, chegou a afirmar Valdir Espinosa, capitão do time no título de 76.

Nos anos 80, Joãozinho vestiu a camisa do Botafogo de Ribeirão Preto, onde, como atacante, jogou ao lado do zagueiro Paulo Nelli, do goleiro Luís Henrique e do meia Péricles. Passou também pelo Remo (Belém), Goiás e o paraguaio Cerro Porteño. Neste último, foi campeão do país em 1987. Em 1994, aos 38 anos, o ex-artilheiro encerrou sua carreira no time do coração, o CRB. Após a aposentadoria, montou uma escolinha de futebol (hoje extinta), foi auxiliar-técnico do Galo a convite dos dirigentes do clube e, recentemente, esteve afastado das atividades como treinador da categoria amadora por causa de uma contusão.

Embora tenha oficialmente pendurado as chuteiras, João não afastou-se dos gramados. Ele voltou a disputar torneios pelo time de veteranos do CRB, intitulado Master. Numa partida promovida em comemoração aos 30 anos da TV Gazeta, foi desafiado a fazer um gol “perna mole”, assim conhecido pela forma como o artilheiro dribla o seu adversário. Ao encerrar o segundo tempo, o juiz apontou para o centro de campo. Não deu outra. Gol do empate feito por Joãozinho Paulista.

Trecho da matéria “Heróis dos Gramados”, publicada na revista Graciliano, nº 19.

 

Foto: Felipe Brasil

 

Francisco Ribeiro

É jornalista. E-mail: chicoribeiro@msn.com

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