FOTO: GLÓRIA DAMASCENO

FOTO: GLÓRIA DAMASCENO

Joana Maria de Lima veio ao mundo para extrair da força dos braços a vida. Em agosto deste ano (2015), a chefe de parteira, lendária do município de São José da Tapera, alto sertão de Alagoas, completou 90 anos de idade. Há apenas oito tinha deixado o ofício. A vida de Dona Joaninha, como é conhecida, não teve sossego um só dia, enquanto velhice era futuro distante. Mas até o último novembro, que devir era presente, Joaninha via os dias nascerem entre os espaços de algumas telhas, as frestas da janela da sala e a porta, quando aberta.

“Não dormia um sono”. Chegava em casa, tomava um banho e partia rumo às contrações do útero, onde quer que elas estivessem. Também não importava como chegaria. “Onde entrava carro, era carro. Onde entrava cavalo, era cavalo.” Em virtude dessas andanças, herdou da disposição e da coragem juvenil algumas quedas. Amargava também problemas nas articulações e algumas dores de cabeça. Às vezes, as mulheres chegavam a sua porta. Não dava tempo de levar ao hospital e ali mesmo, depois de forrar o tapete, o rebento nascia.

Mas tantos tombos, e cansaço, eram recompensados quando no peito de suas mãos batia um coração feito de pequenezas, como é o corpinho de um recém-nascido. Afirmava nunca ter tido a tristeza de fechar os olhos de uma mãe ou de um filho. As mãos de Joana Maria de Lima deram à luz ao nascimento. Unicamente.

Nascida em 1925 na cidade de Custódia, localizada no estado de Pernambuco, Dona Joaninha – morena baixinha – veio parar nas casas de taipa taperenses por intermédio de um cunhado. Era a mais velha dos cinco irmãos. Desses, apenas uma irmã está viva para contar o que fez da vida, como Joana Maria nos legou sua história de plena simplicidade e sabedoria. E Joaninha fez tanto que, segundo ela, buscaram-na para salvar as gestantes alagoanas.

“As parteiras (de São José da Tapera) estavam (à época) matando muitas mulheres, porque passava da hora da criança nascer”, explicava o motivo dos óbitos. E conclui dizendo que apesar de ser bem-quista e respeitada pela comunidade médica do sertão, ela era motivo de muita inveja entre as parteiras nativas de Tapera. Todas, de sua Era, já morreram.

Por ironia do destino, Joana Maria morava ao lado da igreja da senhora que tudo lhe ensinou – em uma casinha pequena onde vivia com uma nora e alguns netos. Quando chegou à Tapera, sua casa era de aluguel.

O ofício do parto, na contramão das expectativas, não foi ensinado pela mãe, que também era chefe de parteira e dizia antes de morrer que não queria ver a filha seguir os passos de suas mãos. Aos 14 anos e 3 dias de casada, Dona Joaninha fez o primeiro parto de um número que sequer a lucidez das lembranças permitia contar com exatidão. “E quem conta?” indagava-se sorrindo.

Mas se recordava bem do dia em que chegou uma mulher a sua casa passando mal. Estava prestes a parir. “Quem me conduziu (no parto) não era gente desta terra”, falava com naturalidade. E com a mesma tranquilidade anunciava de que terras vinha a senhora que lhe guiou até o último nascimento de seu ofício: “Era Nossa Senhora do Céu.”

O coração de Dona Joaninha disparou. “Nossa senhora do Bom Parto disse que ia me ensinar, porque eu era muito sabida e que ia me acompanhar até quando Deus quiser.” Joana Maria de Lima morava em Custódia, quando “Nossa Senhora Parteira do Céu” sentenciou a vida dela. “Aí ela (a santa) clareou o quarto, conversou foi muito mais eu.” Contudo, de acordo com Dona Joaninha, Nossa Senhora do Bom Parto lhe pediu apenas uma coisa: que não dissesse a ninguém o que conversavam. Era proibido. E o que fora proibido, sempre será.

Antes de cada nascimento, Dona Joaninha fazia uma oração especial – as penitências de Nossa Senhora Parteira do Céu. Todo o procedimento era feito com luva. E afirmava: “Nunca recebi um tostão. Vivi, e vivo até hoje, dos poderes de Deus.” A sua casa, chegava “galinha, farinha… A feira toda!” Quem quisesse lhe dar “um agrado”, ela recebia. Mas nunca cobrou nada. “É ofício da parteira não cobrar.”

Da vida reclamava, além das dores da idade, a crueza do esquecimento: “Eu pensava que quando eu adoecesse, eu seria acolhida, já que cuidei do mundo.” Joana Maria de Lima sentia-se esquecida, ainda que tenha feito parte de um momento marcante da vida de tanta gente.

Também não sabia dizer “quanto” estudou, mas sabe que foi pouco. “O povo não deixava”, atestava achando graça. Dona Joaninha era bem-humorada. Dos 6 filhos que teve, apenas dois não nasceram das mãos da mãe de Joana Maria. Nasceram das suas próprias mãos. “As mulheres tudo chorando, sem saber o que fazer (nos dias dos nascimentos). Eu disse: chega pra lá! Deixe eu ter sozinha…” Sozinha teve e sozinha terminou de criar as crianças.

O marido morreu há mais de 30 anos. Mesmo contrariada, casou com ele depois de três meses de namoro. “Ômi, eu me casei, porque a sorte veio pra eu me casar. Mas eu não queria, não.” Contudo, todo mundo dizia que o futuro esposo era um “rapaz direito”. Aos 89 anos, ela assegurava que o marido era bom. “Ele nunca me judiou.” Apesar dele ter tido o defeito de “raparigar”, ela sentia saudade e vagueava de sua cadeira de balanço, na sala de estar, e não-estar, olhares absortos pela porta escancarada. Há pessoas de entranhas. Inesquecíveis, como o esposo para ela. E ela para uma geração inteira.

Joana Maria de Lima há aproximadamente 20 dias, por curso natural de tudo que finda, fechou o único par de olhos de sua história: os seus. A suposição ausente de dúvidas é de que ela, enfim, esteja ao lado de quem tudo lhe ensinou, Nossa Senhora Parteira do Céu.

Glória Damasceno

É uma das, muitas!, pessoas que não está na deselegante lista das 100 personalidades mais influentes do mundo, segundo a Forbes. Outro dia sonhou que era esposa do Jon Bon Jovi e acredita que isso é prenúncio para essa vida, ou para a próxima. Sabe-se lá. Escreve também, quando quer, no blog Apenas uma Fresta.

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