Segunda-feira. O percurso que Dirlene, uma menina frágil e delicada, fazia até a sua casa não era o dos mais longos. Ela observava atenta ao vai-e-vem das pessoas durante o trajeto pelas ruas de São Luís do Quitunde. As pequenas mãos suadas revelavam a ansiedade que era tomada antes de bater à porta de número 14. Era meio-dia quando chegava da escola. O almoço já estava posto. Cada um dos sete irmãos ia ocupando seu lugar à mesa. Enquanto isso, Dona Consuelo servia as crianças.  “Filha, como foi na escola hoje? Filha, quer que eu faça seu prato?”, ouviu do pai. Dirlene era uma.

No dia seguinte, as coisas permaneciam sossegadas em casa. Mesmo assim, Dirlene parecia aflita. Ela chegou faminta naquela manhã. A comida estava na mesa. O semblante sério e a rispidez no trato com os irmãos por parte do seu pai, pressentiu a menina, indicava que a aparente tranquilidade estava prestes a acabar. “Uma hora, ele estava bom, generoso; outra hora estava mal”, rememora. Tomado por um acesso repentino de fúria, “ele arrancou a toalha da mesa. Derrubou tudo. Disse que ia matar a gente de fome”.

A cabeça da pobre criança ficava confusa, tumultuada, com as mudanças inesperadas de temperamento do seu pai. Como podia o homem que ora alisava mansamente os cabelos castanhos da pequena Dirlene, falando frases de amor, ser o mesmo indivíduo que proferia palavras violentas e tinha gestos tão rudes?

“Essa daí não vai dar para nada na vida!”. “Minha linda menina, você será uma boa médica!”. “Essa daí vai dar para prostituta!”. “Minha linda menina, você será uma ótima advogada, argumenta tão bem”. “Eu estou odiando esta menina!”. “Cadê minha filha, Consuelo? Cadê minha filhinha?”.

Ela via seu pai partir e voltar todos os dias para o trabalho. Era funcionário da extinta Sucam (Superintendência de Combate à Malária), mais conhecida como a “guarda da malária”.  No serviço, tinha contato direto com o inseticida DDT. Mais tarde, foi diagnosticado com esquizofrenia.

Ela via seu pai deixar de ser quem ele era todos os dias. O homem amoroso dava lugar a um ser rude, de atitudes explosivas. Aos poucos, abriu-se uma rachadura em Dirlene. Ela entendeu, numa espécie de pacto de silêncio, que aquele seria a regularidade do amor singular que receberia. A aceitação não veio sem dor, sem sofrimento. A menina estava quebrada.

Fez onze, doze, treze, quatorze anos e durante o decorrer do tempo ela tentou conviver com tamanha confusão. Justificou a ambiguidade do comportamento do seu pai através da metafísica. A sua mente ingênua buscou compreender aquela realidade pela lente da fé, da religião. Todo caos que se instaurou em sua vida tinha uma razão: as práticas religiosas (“a magia negra, a macumba”) da avó, do pai e, agora, dela mesma, que também as adotara. Dirlene virou duas.

Dirlene se convenceu daquela época em diante de que tinha, portanto, duas naturezas. Vivia em condição extrema. Polos norte e sul. Corpo e alma. Deus e diabo. Passou a se reconhecer apenas pelo olhar da figura paterna. Ela tornara-se aquele ser “confuso, tumultuoso”, que seu pai via nela quando estava “tomado pelo demônio”.

Aos 17 anos, Dirlene engravidou pela primeira vez. Fruto de um relacionamento com uma pessoa “muito problemática” deu à luz a uma garotinha. “Vivemos um tempo juntos, mas não deu certo e eu o deixei. Voltei para casa do meu pai, com a minha filha. Ele queria fazê-lo se casar comigo apulso. Mas eu disse que não, porque sabia de todos os problemas do pai da criança.” Anos depois, teve um casal de gêmeos. “Meu pai não queria que eu voltasse pra casa com as minhas filhas”. Por conta disso, ela teve que entregá-las para doação ainda na maternidade. “Sofri muito, quase enlouqueci”, confessou. Passado algum tempo, Dirlene se envolveu com outro rapaz, com quem teve o quarto e último filho. O garoto, assim como sua primeira filha, foi criado pelos avós. “O relacionamento [com o pai dele] também foi curto. Porque nunca fui de ter muita paciência com homem, não. Fui de achar que não dava certo e deixava pra lá. Só tinha um problema: eu engravidava e ficava com o filho.”

O período em que teve as crianças foi um dos mais conturbados de sua vida, o qual só chegou ao fim com a sua “libertação”. Por libertação, devemos entender o momento em que ela decidiu abandonar “a magia negra, a macumba”, para converter-se a religião cristã. Certa noite, enquanto caminhava pelo sítio onde morava, ouviu um anjo dizer: “Vá ser crente”. E Dirlene foi. Tornou-se Irmã. Ela encontrou em Jesus a figura paterna que nunca teve. Pelo olhar do filho de Deus, ela voltou a ser a pequena Dirlene, frágil e delicada, que ainda espera ouvir “como foi na escola hoje?”. Dirlene voltou a ser uma.

Irmã Dirlene contou parte da sua história após dar uma pausa na pregação que fazia no centro da Praça Centenário, no Farol. Era uma quinta-feira, por volta das 12h, quando sentada num dos bancos, desatou a falar sobre a cisão de sua vida. Hoje, aos 55 anos, a auxiliar de enfermagem aposentada dedica parte do seu tempo a evangelizar a palavra de Jesus, aquele que a adotou como filha.

“Passava de ônibus por aqui e o senhor Jesus dizia no meu coração para que eu viesse pregar aqui. E eu ficava medindo  a distância. Dizia: ‘Meu Deus mais essa praça é muito grande’. E pensava: ‘Como eu vou botar um som aqui?’ Um dia, vi um senhor pregando na rua com um megafone. Aí fui numa loja e comprei um. Eu não marquei o dia em que cheguei aqui, não. Eu comecei terça e quinta. Não tenho hora certa. Atualmente, estou vindo mais quinta. Já tiveram pessoas que aceitaram Jesus comigo, a gente se ajoelhou e orou para que entregassem sua vida para Cristo.”

Toda vez que Irmã Dirlene prega a salvação, ela está salvando a si mesma. Dividida ao meio, até então não ligou os pontos da sua existência. “Eu venci a batalha contra mim mesma”, acredita. Vestida com camisa azul e saia vermelha, em pé no centro da praça, as marcas da rachadura vêm à tona através de dicotomias. Corpo e alma. Deus e diabo. Amor e fúria. Céu e inferno. Loucura e razão. A senhora que todos fingem não ver e ouvir, que é tida como “louca” pela maioria, ainda é aquela criança tentando unir as suas metades. Dirlene de Oliveira Santos é duas.

Francisco Ribeiro

É jornalista. E-mail: chicoribeiro@msn.com

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