“Eu vou cantar um pouquinho para deixar minha história. Essa é minha profissão, com ela é que eu tenho vitória. Fiquei muito satisfeito com a gravação da Glória!” De Repente na ponta da língua, e dedos ao violão, surgem na paisagem da Praia de Pajuçara Gildo Alagoano e Diocleciano Xavier de Lima, dois repentistas que me chamaram logo a atenção. Vinham conversando pela calçada, de olhos grudados no chão, contornando os carros estacionados na orla e os automóveis do vem-e-vão. Na ânsia de não perder tempo, fui ao encontro das violas, que já apontavam na minha direção. Me apresentei e sem hesitar, os próximos minutos foram de narração:

Há mais de 35 anos a dupla, que preferiu fazer do nome próprio o nome de profissão, faz do improviso, ganha pão. “Não temos nada gravado no juízo”, afirma Diocleciano. “O Repente é um dom da natureza dado por Deus. Se não tiver, não canta de jeito nenhum”, adverte o senhor de fala mansa, nascido em Caruaru, cidade do Estado de Pernambuco. Mas faz tanto tempo que ele se mudou para Maceió, a convite de um colega para cantar juntos, que até já se considera alagoano. Pai de seis filhos, três meninas e três meninos, só a filha mais velha é formada. Porém, garante que “leitura” toda a sua prole teve, e tem!, mais que ele. “Hoje meus filhos têm casa, carro, moto, emprego… Criei minha família nos braços da viola”, que faz cócegas nos dedos enquanto o Violeiro rememora.

A jornada de Diocleciano só começa às 9h da manhã. E bem como o dia dele, tarde para muita gente, a vida de cantador também se desenrolou já depois da mocidade: aos 40 anos da segunda estrofe. Aposentado, frisa que “tem turista que dá pouca atenção” e que antigamente o troco da rima era melhor: “O bolso do turista era mais generoso. Até 100 reais, de uma vez, já ganhamos. Mas isso faz tempo!”, embora sublinhe que o que vale mesmo é o reconhecimento. E não se engane: eles tocam pra todo mundo. Sem distinção. Pode ser gaúcho, alagoano, pintado de azul e branco, feio ou bonitão. Que por falar em beleza, até hoje Diocleciano não sabe como Gildo se casou. “É feio demais, moça!”, brinca em confissão. Mas o amigo cantador justifica: “Mas naquele tempo nois era outro, né?!” Digo eu: Como não?!

Gildo Alagoano, de 74 anos, é pai de nove filhos e filho também é do município de São José da Laje, situado ao litoral norte alagoano. Mas mora em União dos Palmares, cidade conhecida por abrigar em suas terras a famigerada Serra da Barriga, cenário do primeiro grito de liberdade do grande líder quilombola Zumbi dos Palmares. Gildo, tal qual o líder símbolo de resistência, é negro, forte, e diferente de Zumbi, baixinho. Além da viola, ele carrega também uma barriga que, bem como seu ofício, desafia os botões da camisa de manga curta. Trabalhou muitos anos em uma usina de metalúrgica. Mudou-se para São Paulo aos 35 anos de idade, mas não dava para manter a vida com um salário que mal pagava as cordas da viola.

Essa mistura de poesia e música criou raízes em solo nordestino. O cantarolar do Repente costuma vir acompanhado. Se for por um pandeiro, é “Coco de Embolada”. Se o acompanhante é o violão do caipira, o certo é chamar por “Cantoria”. E se não tiver acompanhamento musical, o Repente, também chamado de Desafio, recebe o nome de “Entoada, toada ou aboio”. Ei lá, boizinho!

O Desafio na vida de Gildo chegou nas asas do famoso cordel “Pavão Misterioso” e nos folhetos que lia na feira quando menino. Por causa do Pavão, diria Ednardo, compositor brasileiro, conterrâneo de Fagner e Belchior, o Repentista ainda “guarda no leque o moleque de eterno brincar”. Mas quem narra, na ocasião, é Diocleciano, o 1º tesoureiro da Associação dos Violeiros e Trovadores de Alagoas (AVTA), que até cantar para Doutores, já cantarolou. “Eles ficaram de boca aberta!” e com a vontade de saber rimar.

A AVTA foi criada em 20 de janeiro de 1976 pelo pernambucano Raul Vicente de Queiroz, mestre violeiro e repentista, que em 2010, foi agraciado como Patrimônio Vivo. Atualmente em Alagoas, segundo Elias Procópio, diretor cultural e tesoureiro da Associação, só existem dez profissionais da viola. “Mas amadores tem uns 20!” E explica numa linha só a diferença entre o repentista profissional e o amador: “O cantador profissional tem que viver da viola”, afirma Procópio. Ao ano, são realizados, “de certeza!”, doze encontros de violeiros. “É disso pra mais! Tem uns que a gente realiza e não dá muito certo”, confessa.

No tempo de Elias menino, todo aluno tinha uma história em cordel pra ler. “Hoje, ele [o estudante] não sabe o que é cultura popular” e conclui dizendo que em Recife quem faz os festivais de cordel são os próprios universitários. “Até autógrafo pedem a gente”, surpreende-se.

Vida que segue! Separado há mais de 30 anos, o trovador Diocleciano de 80 anos, ainda tem a “lesa ilusão” de encontrar um novo amor, como o que um dia rimou no Repente. “É difícil arranjar uma mulher que veste saia”, quis dizer, “mulher competente”. E o que é ser uma mulher competente? Para o artista, “nem toda mulher que veste saia é mulher; nem todo homem que veste calça é homem”. Foi essa a explicação. Mas acredita no sentimento, como eu acreditei naquele vento que soprou no meu pensamento. Eu tinha que estar embaixo daquele coqueiro pra esperar o Repente, de repente!, passar, mas não sem antes gravar algumas estrofes de improviso pro Vidas Anônimas no meu celular.

Glória Damasceno

É uma das, muitas!, pessoas que não está na deselegante lista das 100 personalidades mais influentes do mundo, segundo a Forbes. Outro dia sonhou que era esposa do Jon Bon Jovi e acredita que isso é prenúncio para essa vida, ou para a próxima. Sabe-se lá. Escreve também, quando quer, no blog Apenas uma Fresta.

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