Praia, sol, água de coco, férias, derivados e traduzidos, são hashtags ultra-dominantes, principalmente, nos finais de semana de aficionados pelo verão. Mas dentre todos os destaques da estação mais quente do ano (se é que há inverno ao pé do frio em Maceió), um mulato baixinho, que atende pelo nome artístico de “Carlinhos de Jesus” é a maior sensação da Praia de Ponta Verde. José Carlos Silva (46) é “o cara”, como afirmou com entusiasmo Cristiano Lima, cliente do ambulante oriundo de Cajueiro, município que brada no hino sua gente “brava”, como o Carlinhos. Sabe aquele cara que não deixa a cerveja ou o refrigerante esquentar? Ao menos neste quesito, este cara é o Carlinhos de Jesus. Para o barman Cristiano, Carlinhos é “o homem da areia” e pela quantidade de cadeiras ocupadas, e marcadas pelo nome do rei do pedaço, em plena terça-feira, não há quem duvide.

Assim como o “sistema” (caderno onde o Carlinhos anota o consumo da clientela) não lhe abandona, o sorriso e a simpatia também não o deixam de lado. Filho de uma prole de seis irmãos, seus pais trabalhavam na roça. Estudou “muito pouco”, até o 3º ano primário, porque não teve oportunidade de fazer da escola, seu caminho. Quando moço, trabalhou na construção civil operando guincho, mas depois ficou desempregado e, como um peixe fora d’água – já que afirma pouco tomar banho de mar –, foi parar na praia vendendo água de coco e caldo de cana. E tomando banho de atlântico ou não, sempre usa o protetor solar para não deixar tudo a cargo da melanina. Há mais de 20 anos Carlinhos fez da areia seu barzinho ao ar livre. É por meio desse ofício que ele mantém a família, feita de esposa, dois filhos e uma neta. Na casa dele, a única que não trabalha é a companheira, que conheceu quando tinha 17 anos e vive até hoje, 22 anos depois do encontro. Quando questionado se preferia trabalhar com gente ou com máquina, Carlinhos foi imediato: “Com gente. Eu amo aquilo que eu faço.” Não à toa, o ambulante tem cliente de anos, fiel ao ponto de só ir à praia, quando é dia de Carlinhos, como é o caso do oficial da marinha mercante, Tony Pereira – o também idealizador das camisas estampadas de “Carlinhos de Jesus” e do jargão “Carlinhos já vai…”.

A alcunha do autônomo é puro “marketing”, assim como se tornou o hábito de tratar a si na 3ª pessoa do singular. “O Carlinhos já vai…” é a resposta oficial quando alguém grita por mais uma no padrão gelo duplo. Em geral, de quarta a domingo, chega à praia às 7h-7h30 e só vai embora quando o céu é pôr-do-sol. Mas aproveita as férias, alta temporada, para faturar mais. Segundo confessa, herdou o sotaque diferenciado do público. Atende todo mundo: do mais pobre ao mais rico. Atende também aos gringos. Com ousadia e alegria, desenrola italiano e “argentino”. Mas admite que ainda “não se deu com o inglês”, embora isso não seja empecilho. Ninguém deixa de ser atendido pelo Carlinhos de Jesus por falta de idioma em comum. O gesto é universal e, assim, os não-entendidos são então compreendidos.

Ao todo, Carlinhos arma na areia 40 cadeiras, 20 guarda-sois, mais 5 jogos de mesa com 4 cadeirinhas cada – números que em um instante o atendimento de Carlinhos de Jesus dá conta. Ao final da tarde, tudo é guardado no estacionamento. Indagado sobre qual era o segredo de tanto sucesso, ele respondeu que o “sorriso de Carlinhos”, e o tratamento sem diferenciações, é a razão de voltar para casa com a certeza de que amanhã suas cadeiras não estarão vazias. Serão, mais uma vez, composição de um autêntico dia de: #praia, #verão, #férias e, em se tratando do trecho Ponta Verde, #CarlinhosDeJesus.

 

 

 

Glória Damasceno

É uma das, muitas!, pessoas que não está na deselegante lista das 100 personalidades mais influentes do mundo, segundo a Forbes. Outro dia sonhou que era esposa do Jon Bon Jovi e acredita que isso é prenúncio para essa vida, ou para a próxima. Sabe-se lá. Escreve também, quando quer, no blog Apenas uma Fresta.

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