Francisco Ribeiro

É jornalista. E-mail: chicoribeiro@msn.com

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Por entre as sombras

O investigador particular mais famoso de Maceió, Luiz Cavendish, mede por volta de 1,90m, tem porte robusto, cabelos pretos e pele morena. É provável que essa descrição seja a mais próxima da aparência física do detetive Luiz que o leitor terá – exceto, claro, venha a contratar os seus serviços futuramente. Pois, para preservar o sigilo profissional, imagens suas são vetadas. De certa forma, é preciso compreender o não existir como parte de sua condição: estar sempre sozinho, em silêncio, a espreita atrás do poste, invisível. Um fantasma.

Com anúncios estampados nos classificados de jornais e pintados em algumas dezenas de paredes espalhadas pela cidade ou até mesmo através dos seus perfis nas redes sociais, encontrar os contatos do detetive Luiz não foi uma tarefa difícil. Com o número em mãos, foi marcada uma entrevista para a penúltima sexta-feira de junho, por volta das 14h, na praça de alimentação do shopping situado no bairro da Cruz das Almas. O encontro constituiu um verdadeiro interrogatório sobre o seu ofício, imortalizado pela figura de Sherlock Holmes e pelos romances policias de Agatha Christie.

A atividade do detetive é, sobretudo, a arte de enxergar as sutilezas, adiantou Luiz, cuja voz grave, deu contornos de seriedade a toda entrevista. Tanto na literatura, como na vida real, é por meio da observação atenta dos detalhes que o enigma se desfaz. O mistério, afinal, repousa nos pequenos gestos, na rispidez durante um jantar ou nos breves minutos que o marido passa em frente ao volante olhando para o vazio, antes de seguir para o trabalho. “Às vezes, o que é mínimo para você”, pontuou ele, “para a gente, não é”.

Ainda que mais pela intuição, do que através de métodos elaborados, aos oito anos de idade, ele solucionou o primeiro caso de que tem lembrança: o da morte de sua mãe.

— Quando mamãe ficou doente, eu ia sempre visitá-la com meu avô e outros parentes no hospital. Até que um dia, questionei o porquê das visitas terem parado de acontecer. Eles disseram que minha mãe tinha piorado e iria se operar, mas assim que ela se recuperasse, eu voltaria a vê-la. Porém, comecei a desconfiar. E passei a escutar as conversas dos meus parentes escondido. Foi assim que ouvi meu avô e minha tia combinando o feitio da missa de sétimo dia. Naquele momento, eu nem tive noção, mas resolver aquele mistério foi algo importante, que me elucidou uma dúvida, um anseio que tinha em relação a minha mãe.

A descoberta do falecimento de sua mãe, na verdade, o fez compreender ainda garoto que a resolução de uma investigação não traz à tona o entendimento sobre quem as pessoas são ou as causas de suas ações (muitas vezes, nem elas sabem), mas entrega nas mãos delas a autonomia da escolha. “Acho que foi aí que me aflorou a vontade de trabalhar com isso. E tentar ajudar a outras pessoas que vivem mentiras”.

Por volta dos 15 anos, Luiz passou a procurar os detetives que divulgavam seus serviços nas páginas dos classificados dos jornais de Brasília (cidade onde morou por alguns anos). O reencontro com a prática da investigação foi menos pelo acaso, e mais pelo desejo de conceder aos outros o que não lhe foi dado quando criança: a possibilidade da decisão. Para ele, o de despedir-se de sua mãe.

A partir do contato com os profissionais atuantes na área, ele descobriu os trâmites necessários para tornar-se um profissional do ramo. Primeiro, teria que atingir a maioridade. E segundo, formar-se num curso específico, que lhe daria os conhecimentos básicos necessários para executar a atividade.

Ao completar 18 anos – época em que fixou residência em Maceió –, Luiz pode, enfim, iniciar os estudos num curso por correspondência. “Infelizmente, o material deixou muito a desejar. A formação deveria ser multidisciplinar”, avaliou. Após concluí-lo, ele investiu em anúncios em jornais.

— Muitas pessoas ligavam para confidenciar seus problemas, perguntar como funcionava o trabalho. Só 30 dias depois, eu fechei o meu primeiro serviço.

Há 23 anos atuando como investigador particular, Luiz explica que hoje em dia os profissionais do ramo se organizam como pequenas empresas. Na divisão de “cargos”, temos: o agenciador e o profissional de rua. A rotina é imprecisa, sem horários fixos. “Têm dias”, diz ele, “que pego no batente às 5h da manhã e só retorno para casa por volta das 3h da matina.” O perfil da clientela é de classe média para cima. “Detetive é uma profissão de luxo. É quem pode (por conta dos assédios, riscos e pressões envolvidos) e contrata quem pode, também”.

Os casos de suspeita de traição representam 60% do serviço. “Atualmente, tem crescido a busca por informações sobre filhos e menores de idade, a pedido dos próprios pais, numa tentativa de resgatá-los do envolvimento com prostituição e álcool”, ressaltou.

Casado há 10 anos e pai de três filhos (uma jovem e dois meninos), Luiz confessa que adentrar na intimidade dos seus clientes reverbera em sua vida particular.

— A gente se depara com tanta mentira, falsidade, adultério, famílias que vivem da fachada, que eu fico pensando: será que não tem ninguém que se salve? Você acaba duvidando dos próximos. Começa a ter certos receios. O importante é saber com quem você está. Pois há o risco de misturarmos a nossa vida pessoal com a do cliente.

O detetive não somente desvenda um caso. O resultado de sua investigação altera o futuro da trama que parecia já inscrito na vida dos seus clientes. Tanto para um lado, quanto para outro – ou seja, para quem contrata os serviços, como para quem é investigado –, o momento em que a verdade se impõe é inevitável, e é inevitável que muitos a temam.

— Certa vez, fiz de tudo para resolver um caso, cujo cliente estava me pagando há vários meses pelo serviço, mas ele não acreditava na traição de sua esposa. Afirmava ser uma mentira. E eu já tinha apresentado provas concretas. Foi então que elaborei uma situação para que ele visse com seus próprios olhos que estava sendo traído. Foi quando o cliente me disse que não era para ter sido daquela forma. Às vezes, temos que escutar o intrínseco do cliente. Fui contratado para tirar um peso que ele carregava. Mas nem sempre estamos preparados para a verdade.

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O dono da banca

O dia a dia de trabalho de Gesivan Rodrigues Gouveia, 67, nunca passou por grandes mudanças há mais de cinco décadas. Ele acorda diariamente às 6h, toma seu café da manhã, veste uma roupa confortável, para ter uma jornada de 12h de trabalho, e pega no batente.

A rota também se mantém a mesma. Seu Gesivan desce a Ladeira do Brito, no Farol, e segue em direção à praça Montepio, no Centro da capital. Por volta das 7h30min, sobe as portas de zinco da Banca Nacional, uma das mais tradicionais de Maceió. A rotina se repete ao longo dos mais de 360 dias do ano, sem pausa para feriados e finais de semana.

A sua trajetória pessoal se confunde com a profissional, que mantém desde os 14 anos de idade, e compõe uma parte da his­tória da cidade. Da Ditadura Militar à redemocratização, o bair­ro onde se fixou, foi palco e refletiu os momentos de tensões que repercutiram em todo o País.

Quando é convidado a resgatar alguns momentos marcantes do passado da Banca Nacional, ele costuma associar determina­do fato ao cenário político da época, a exemplo da Ditadura do general Médici e um ato a favor das bancas de jornais e revis­tas e da liberdade nos veículos de comunicação, promovido pelo alagoano Aldo Rebelo, que hoje ocupa o cargo de ministro do Esporte, reunindo cerca de três mil pessoas, nas imediações da praça Montepio.

Atrás do balcão, Gesivan testemunhou o nascimento das grandes editoras e o fechamento de importantes publicações, entre revistas e jornais. Mas nada se compara com a redução nas vendas que vem constatando depois do surgimento e da popula­rização da internet. “Todo mundo quer viver de teclar”, comenta o jornaleiro, deixando claro o pouco tato que possui com as “coi­sas digitais”.

Seu Gesivan era ainda estudante do antigo ginásio, quando foi convidado por um amigo, que prestava serviço numa distribuidora de revistas, para entrar no ramo. Uma armação improvisada – chamada de “cama de vento” – fazia o papel da banca de jornal. Nela, os amigos penduravam jornais e revistas.

Na época, já havia certa concorrência. Por esse motivo, a troca pelo ponto de venda em frente ao extinto Cine São Luiz para um ponto próximo do antigo Hotel Lopes foi crucial para que conquistasse uma freguesia exclusiva.

“Daí em diante, adotei este local de trabalho. Já fui para o centro da praça Montepio e voltei para onde estou umas duas vezes. Mas nunca me afastei daqui”, conta, ao passo que tirava dentre as páginas amareladas de um velho caderno um recorte de jornal, no qual estampava duas fotos antigas, uma da região e outra do Hotel Lopes.

Quando a editora Abril e a já extinta Chinaglia ofereceram a opção de ganhar um salário fixo ao invés do lucro pelas vendas, Gesivan preferiu ganhar pelo o que vendia. Assim, aos poucos, juntou dinheiro e construiu sua primeira banca de madeira. “Foi no tempo de Sandoval Cajú”, rememora, fazendo referência ao ex-prefeito de Maceió.

Trazendo na bagagem uma experiência de 52 anos no ramo, ele aprendeu a conquistar a clientela com a sua simpatia e, talvez, o mais importante, a transitar entre as medidas apertadas – 4 m x 3 m – da banca de jornal, em meio a quase três mil títulos que compõem o acervo.

Após concluir o segundo grau, o jornaleiro assumiu sozinho o negócio. O seu pai ficava encarregado das atividades enquanto Gesivan estava na sala de aula. “Nunca pensei em abandonar os estudos”, observa.

O horário combinado para que Gesivan Rodrigues resgatasse parte da história da Banca Nacional foi por volta das seis da noi­te. Segundo o jornaleiro, esse é o período mais tranquilo do dia, pois “o movimento começa a cair”, justifica. Contudo, a clientela não deixava de aparecer. E enquanto respondia a algumas per­guntas, homens e mulheres paravam para ouvir o que ele tinha a dizer.

“O período mais difícil foi o da ditadura militar. O golpe de 64 mudou tudo. Veio a perseguição para todas as bancas em todo o País. Aqui, não foi diferente. Aconteciam apreensões de revistas e jornais. Logo, o lucro começou a diminuir. Os policias revistavam as bancas de jornal e qualquer publicação com pala­vras que eles julgavam serem impróprias eram apreendidas.”

Gesivan foi preso duas vezes por vender publicações de es­querda, como o extinto jornal Pasquim, e revistas com conteúdo erótico. “Numa dessas prisões, o censor me disse: ‘Você está su­jando a sociedade de Maceió’. Até que o chefe dele, que compra­va revistas de mulher nua, me viu naquela situação e logo procu­rou dar um jeito. Recebi uma ordem de apreensão e ele repassou o meu nome para a Polícia Federal. Podia ter acontecido coisa pior”, recorda.

Ao contar para o seu pai esse episódio, ele revela com bom humor: “Nunca apanhei da polícia, mas, naquele dia, apanhei do meu pai”. A partir do ocorrido, dois olheiros ficaram vigiando a banca do alto do atual prédio da Secretaria de Estado da Defesa Social, no Centro. No entanto, como um amigo tinha avisado a ele sobre a situação, seu Gesivan ficou mais atento. “Quando não eram recolhidas antes de chegarem às bancas, as publicações já vinham com matérias cortadas”, lembra.

“Certa vez, a revista Veja publicou que o general Costa e Silva faleceu de uma ‘banana’ [referindo-se ao gesto] que um deputa­do federal dirigiu para ele. Toda essa edição foi apreendida”, dis­se o jornaleiro, provocando gargalhadas nos fregueses presentes.

Para manter a longa jornada de trabalho durante a semana – das 7h às 19h –, seu Gesivan conta com a ajuda de um sobrinho há mais de 40 anos, que fecha a banca às 22h. Aos domingos, a atividade é encerrada às 19h. Com o faturamento mensal, ele paga todas as contas e sustenta a sua companheira e um casal de filhos – um garoto de 15 anos e uma menina um ano mais nova.

Além do bom humor, o que mais chama a atenção da clien­tela que passa por lá é a quantidade e a variedade de publicações à venda, a exemplo dos jornais Folha de S. Paulo e Jornal do Com­mercio, além de revistas dos mais variados gêneros, incluindo a NewsWeek International.

“Eu sempre gostei de ter todas as revistas para saber o que rola na cabeça dos intelectuais do País, entre elas Cruzeiro, Fatos e Fotos, Cigarra, X9, Foto Aventura, O Risco e Tarzan. Gostava também de vender jornais da oposição e os melhores eram O Pasquim, Opinião e Movimento. Aqui, eu me sinto no palco da vida”, diz.

Foto: Elayne Pontual.