Elayne Pontual

Idealizou o Vidas Anônimas porque acredita que as histórias mais extraordinárias ainda não foram contadas e que as pessoas mais incríveis nunca foram ouvidas.

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O Velho e o Mar

Vai, vai, pescador, filho do vento, irmão da aurora
És tão belo que nem sei se existes, pescador!
Teu rosto tem rugas para o mar onde deságua
O pranto com que matas a sede de amor do mar!
|Vinícius de Moraes|

Desde os seus 11 anos, Manoel, ou Mané, como também é conhecido, fisga a imensidão azul do mar com uma rede de pesca. Filho de pai agricultor e mãe dona de casa, escolheu a pesca como recreação e ofício quando ainda morava na praia de Maragogi, numa casa tapada de barro, arrochada de vara e coberta de palha. No fim do dia, levava meio quinhão de pescado e algum punhado de dinheiro. A mãe Maria fazia uma moqueca bem gostosa, e o pai José se esbaldava. Era uma alegria só!

Quando menino, Mané queria ser polícia. Naquele tempo tinha um comandante, o coronel Zé Pereira, marido da dona Ivanise. Ele, o coronel, se dava muito bem com o pai José e pelejou para levar Manoel pro quartel do exército. Mas não teve jeito, a mãe Maria não deixou, e o menino seguiu pescando morte de peixe.

Mané Bandeira não sabe ler, nem escrever. A primeira vez que pisou com os pés salgados numa escola, a professora lhe chamou de burro, porque ele não conseguiu decifrar a cartilha do abc. Mané ficou danado da vida e não deixou por menos. Retrucou chamando a educadora de jumenta. Ele explica o episódio, em sua defesa:

– Se ela fosse inteligente, entenderia que seu papel era me ensinar. Depois disso eu fui embora e nunca mais voltei pra escola nenhuma.

Há trinta anos, ancorou sua muda de roupas no bairro de Jaraguá, em frente à praça 18 de Copacabana, quando desquitou de Antonieta, agora sua ex-esposa. Nesta altura da vida, o amor para Mané Bandeira é mais um sonho, uma lembrança.

– Eu não sei se era eu, ou se era ela, mas o que nos afastou foi a ignorância, o orgulho – assegura, tentando desatar o nó na garganta.

Depois da separação, dormiu um tempo na casa de uns pescadores conhecidos ou dentro de botes de pesca na Vila do Jaraguá. Hoje, mora em um barraco de dois cômodos, separados por uma mureta de tijolos. Na Vila, ele tem muitos parceiros e não precisa nem cozinhar para comer. O Carlinho de Pixoré, por exemplo, é seu amigo até debaixo d’água. Quando Mané chegou na Vila, Pixoré tinha uns 15 anos e os dois são amigos até hoje.

– Aqui é bom demais. Até agora, a Vila é o melhor lugar do mundo pra mim. Aqui eu pesco e brinco com os amigos.

O barraco em que Mané Bandeira mora, está sob ameaça de demolição pela municipalidade. Se não fosse isso, de acordo com Mané, ele já teria feito umas reformas para poder viver com mais conforto. As portas estão todas comidas por cupim e a instalação elétrica é composta por fios expostos e emaranhados. A cama de Mané – uma rede amarela com tecido encardido -, seu fogão velho e uma TV de três cores, dividem o mesmo compartimento da casa. Seus materiais de pesca ficam espalhados no chão áspero de cimento. Em todo o lugar se vê cordas, bateria, viveiro e fios de náilon.

– Eu comprei porta nova e tudo, mas não coloquei ainda porque tão dizendo que vão derrubar. Minha televisão é de três cor e eu boto prástico, boto tudo e mesmo assim, de vez em quando, ainda pinga água da chuva em cima dela.

Ainda que a derrubada do barraco e as condições em que o pescador vive sejam uma preocupação, o problema mesmo é Mané Bandeira se separar do mar. Os melhores dias de sua vida foram navegando nas águas salgadas do litoral alagoano, acompanhado de seus companheiros de pesca. Ele nunca esqueceu do dia em que ferrou uma arabaiana de cinquenta quilos. Foi uma ferrada bonita, que deixou Mané sorrindo em vão. Mas hoje ele está velho, puxa uma garatéia e fica morrendo de cansaço. Quando pega uma cavala ou uma arabaiana gorda, se junta com os colegas e retira umas postas, frita ou bota no coco.

– Fica muito gostoso. É um prazer, uma alegria! Mas, meu prato favorito mesmo, é um ensopado de polvo. Aí eu como até aferventado – desata em contentamento, salivando de vontade.

O maior peixe que Mané Bandeira já pegou foi um cação. Ele estava com o Pixoré, pescando dentro do canal, quando viu o peixe nadar todo inocente, como quem vive incauto do fatal destino. Mané, pescador astuto, retirou uma banda de bonito, deu uma chumbada, quando aboiou e espiou discreto, lá estava o cação. Pesava quase uns duzentos quilos, o danado. E não é conversa de pescador não, dessas que até o mar finge acreditar. “É verdade das mais verdadeiras”, Mané garante.

Aos 75 anos velejando no mar da existência, Mané Bandeira, apesar de analfabeto, é tão experiente com as criaturas marinhas que caranguejos não lhe mordem mais as mãos, e mariscos não lhe cortam mais os pés. Além disso, diferente dos homens da terra que só viajam no mar quando escutam dentro dos búzios, ele, com sua vasta experiência, adquiriu a habilidade de enxergar no escuro o azul marinho do oceano. Seus olhos são como dois faróis acesos sob o negro asfalto de água.

Mané Bandeira sabe também o nome dos ventos. O vento Terral, por exemplo, é o velho boêmio das madrugadas, que sopra da terra para o mar. Já o Pé de Vento, é um cabra da peste que corre desgovernado, desarrumando a paisagem, mas que não dura muito tempo em sua euforia. O vento Sul faz a água correr para o Norte, e o vento Norte, faz a água correr para o Sul. Mas Mané gosta mesmo é de vento manso, daqueles que deixam o mar sossegado, dócil.

Pai de quatro filhos – Lúcia (48), José (44), Maria (40) e Claudinete (36) –, Mané Bandeira, até onde ele saiba, é avô de cinco netos. É um homem satisfeito, porque sabe que conseguiu encaminhar toda a cria para uma vida boa. O mar significa tudo para ele. É sua infância, sua história. Mané Bandeira quase não tem bens materiais, mas o mar, ele tem.

– O mar é vida e morte pra mim. Se é pra eu naufragar, que eu naufrague dentro do mar.

Do lado de cá, dá até pra imaginar Mané Bandeira saindo de seu barraco no finzinho de uma tarde morna de verão, acompanhado dos amigos Mário Bochecha, Manué, Vieirinha, Gerônimo, Francisco e, claro, o quase irmão Carlinho de Pixoré. Todos partindo com seus barcos, como flechas em direção ao alvo horizontal. Sem rumo certo. Sem bússola, sem tempo.

Na hora melancólica do crepúsculo, quando a tarde morre, o céu desbota e o firmamento se enche de astros, Mané Bandeira se deita no convés, sentindo a brisa do mar alisar seus cabelos prateados. Boiando bem longe, em águas calmas e sem naufrágios, o velho pescador se imagina num mundo de impossível travessia, numa deserta praia sem mar. E percebe que a imensidão oceânica é, sobretudo para ele, sinônimo de liberdade, de continuidade, mas nunca é fim.

O fato é que Mané Bandeira já faz parte da paisagem marítima. Seus braços abertos são menos braços, e mais horizonte. Seus cabelos brancos são menos cabelos, e mais espumas. Seu enorme coração, é menos coração e muito, mas muito mais mar. Mané Bandeira é um imenso oceano de anseios, é vida pulsando num corpo consumido pela maresia da existência.

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A dor de Ubiratan

Nas noites vazias de Maceió, cheio de fome e movido pelo instinto de sobrevivência, ele veste uma “roupa especial” e parte para a luta: cola no corpo uma saia curtinha, monta num salto alto e na autoestima, cobre o rosto de maquiagem, sorrisos e coragem para, assim, garantir o pão do dia. E também o crack, sua droga favorita.

Uma pessoa danada como Ubiratan, apesar das inúmeras dificuldades, tem seus métodos de sobrevivência e quem quiser que diga que seu trabalho não é honesto. Aos 43 anos, dono de uma maturidade exausta, o que lhe importa mesmo é a consciência leve e a dele parece flutuar a cada palavra sincera.

Mesmo já tendo enfrentado situações que, segundo ele, até Deus duvida, Ubiratan alimenta um medo colossal de algo que lhe aperta o peito dia e noite. É uma dor que, na ausência de um teto, o faz sentir como se o peso do céu estrelado ruísse todo sobre sua cabeça. Essa dor se chama solidão, companheira fiel e inseparável das almas muitas vezes classificadas como perdidas. Mas não é a mesma solidão dos melancólicos, não é uma solidão escolhida e acolhida. É a solidão dos abandonados, dos excluídos e rejeitados. É um “estar só” tão absoluto e abissal que a maioria de nós sequer pode imaginar sua concretude.

No entanto, nem sempre Ubiratan esteve sozinho no mundo. Casado dez vezes, um de seus maridos era dono de restaurante e morreu num acidente de carro. Outro foi jogador do CRB – um homem belíssimo, de acordo com ele. Morou também com um matador por encomenda, que dormia amparado por três armas de fogo e o deixava cheio de preocupação. “Eu pensava: ‘meu deus, será que vão matar meu marido e me levar junto?'”. Eis que o matador morre e Ubiratan fica. Viúvo mais uma vez. No total, ele enterrou quatro dos dez esposos.

Apesar de manter seu nome de registro, aceitar sem maiores problemas pronomes masculinos e nunca ter realizado uma cirurgia para mudança de sexo, Ubiratan sempre se reconheceu no gênero feminino e logo cedo determinou o seu ser-no-mundo. Infelizmente essa atitude mudou sua vida para sempre e, aos seis anos, ele sentiu o peso da rejeição.

Tudo começou quando o padrasto percebeu sua delicadeza. Diferente dos outros dez irmãos, Ubiratan era do tipo que andava saltitando e sacudindo os quadris. Pagou caro por seus trejeitos. Castigos, surras e desprezo foram o início de uma injustiça que até hoje deixa marcas profundas, feridas abertas e alguma revolta que ele teima em esconder. “Não sou uma pessoa rancorosa e não gosto de gritar para o mundo o que acontece de ruim comigo”, confessa.

Começou a beber e a fumar aos 13 anos, quando descobriu que o homem que o batia, sequer era seu pai de sangue. Não suportando a última grande surra que levou, decidiu fugir de casa e, para manter seu sustento, foi ganhar a vida num cabaré localizado no Canaã, bairro de Maceió.

As memórias dos maus tratos provocados pelo padrasto, são sua maior perdição. Até hoje, e seus cabelos brancos são testemunhas disso, as recordações o fazem dar passos em falso e quebrar a cara em quedas homéricas. Mas, apesar do excesso de dor, Ubiratan improvisa sua existência e segue atenuando o sofrimento como pode. Difícil é imaginar qual fio invisível suporta um corpo já tão enfraquecido. É mais um desses mistérios que só a vida é capaz de inventar.

Aos 18 anos, ele foi procurado pela mãe que, arrependida, queria oferecer uma existência digna ao filho. Ubiratan trocaria as noites na “casa de amor” por dias inteiros em um salão de beleza. Trocaria calcinhas sexys por um avental, camisinhas por luvas, pesadelos por esperança.

Tudo parecia encaminhá-lo ao paraíso quando a vida resolveu lhe pregar uma grande peça, arrancando de seus braços o escudo protetor, alguém que foi capaz de reconhecer as próprias falhas, lutar contra a intolerância e contra qualquer um que tentasse machucá-lo. A mãe de Ubiratan faleceu levando com ela todos os sonhos onde as águas eram mais limpas e calmas, a tempestade era brisa, a indiferença zelo e a brutalidade delicadeza.

Passado algum tempo, seu padrasto também faleceu, deixando para Ubiratan cada parede da casa que escondeu do mundo as agressões físicas e verbais investidas contra ele. Cada metro quadrado do chão onde Ubiratan corria para fugir da dor. Ubiratan herdou todas as noites de lágrimas e pensamentos confusos sobre o porquê de tanta violência e incompreensão. Naquele lugar, as lembranças ficaram tão vivas que ele quase pôde sentir no corpo o impacto de tudo que ali o atingiu e o feriu.

Não suportou. Vendeu a casa e gastou todo o dinheiro com drogas.

Sem abrigo, foi morar na rua. Se fosse possível, vendia também as calçadas e paredes imundas das praças e becos de Maceió para alimentar o vício no crack, mas a rua não tem dono e nela ninguém é de ninguém. E é aí que mora o perigo. Além da fome e solidão, a vulnerabilidade. Entregue aos riscos e ameaças, desamparado,Ubiratan passou por situações de quase morte: já levou quatro facadas e certa vez caiu, intoxicado e alucinado, de uma cisterna de 45 metros de altura. Outro dia caiu de uma moto e quebrou o nariz, agora torto e amassado. “Só Falta eu levar um tiro. Mas isso não vai acontecer, se Deus quiser”, roga aos céus, contando a própria vida ao apontar as cicatrizes no corpo e na alma.

Mesmo depois de tanto tormento, Ubiratan consegue achar mais motivos para acreditar em Deus do que para duvidar. E a explicação está numa Sexta-feira Santa, quando, vagando pelos entornos da Praça dos Martírios, no Centro da cidade, encontrou e foi encontrado por Luciano de Araújo Alves, o frei Luciano.

Ubiratan foi visto, durante muito tempo, apenas por olhares cegos, agressivos e estereotipados. No entanto, bastou um olhar atencioso e sensato, para que Luciano reconhecesse as feridas causadas pela indiferença. De tanto conviver com os abandonados, o frei sabe identificar facilmente as vítimas da desigualdade, sem precisar observar as camadas de sujeira que os cobre ou se incomodar com o mal cheiro que exalam. Parece fácil, mas esse olhar não é o mesmo de quem passa e apenas olha. É o olhar de quem enxerga e sem palavra diz que compreende, manifesta que ali tem alguém igual. Reconhece o homem ou a mulher e sente que aquela dor lhe diz respeito.

Durante muito tempo Ubiratan acreditou que a bondade já não existia. Através do olhar de Luciano, ele reconheceu em si e no próximo o afeto e a benevolência. Sepultou-se com sua mãe, mas ressuscitou, como Jesus de Nazaré para os cristãos, naquela Sexta-feira Santa.

Ubiratan Joel Marcolino da Silva foi levado em junho de 2013 por Frei Luciano para a Casa de Ranquines, fraternidade de acolhimento de moradores de rua. Sem ingerir bebidas alcoólicas ou qualquer outra droga, Ubiratan serviu em média 200 refeições por dia, dentre café da manhã, almoço e jantar, para cerca de 208 desabrigados como ele.

Hoje, Ubiratan está novamente nas ruas. Fugiu porque a dor de existir falou mais alto e trouxe junto a ela a saudade da euforia provocada pelo consumo do crack. Os amigos da Fraternidade sentem sua falta e ainda esperam por seu retorno, afinal, foi na Casa de Ranquines que ele teve a oportunidade de oferecer aos outros o que durante muito tempo não teve para si. Lá, Ubiratan dividiu a esperança que conquistou com muito esforço, foi um exemplo a ser seguido e isso ninguém pode lhe tirar.