Elayne Pontual

Idealizou o Vidas Anônimas porque acredita que as histórias mais extraordinárias ainda não foram contadas e que as pessoas mais incríveis nunca foram ouvidas.

ok

Pezão anda sonhando

Quem é Jeberson Santos de Oliveira? Ninguém sabe. Agora mude a pergunta para “quem é Pezão?” e possivelmente você terá uma resposta. Pezão embarca nos coletivos de Maceió cantando as músicas da banda de vaquejada 100 Parêa, sua favorita e, enquanto as pernas pensam o melhor caminho, a música faz seu coração caminhar a esmo: “Eu amo cantar!”.

Por conta de sua criatividade cômica, Pezão conquistou um punhado de tietes na capital alagoana. E, para os mais curiosos, ele revela: “Calço 44.” Pelo menos uns dois pontos dessa medida, devem ser por causa do inchaço causado pelas andanças.

O irreverente Pezão, para consolidar sua carreira, improvisou um bordão que arranca risadas de alguns passageiros. Após finalizar sua apresentação musical nos coletivos, ele implora: “Pessoá, pero amor de Deus, hoje quero comer lasanha com Coca-Cola Zero.” Com essa súplica, os corações amolecem e as moedinhas começam a pingar em suas mãos.

Nascido no município de Matriz do Camaragibe, Pezão garante que tem 42 anos, mas seu jeito de moleque e a aparência conservada denunciam apenas umas 27 revoluções completas da Terra em torno do sol. E olhe lá.

Quando criança, ajudava ao pai, Manuel Santos, a cuidar do patrimônio da família: dez cavalos e algumas carroças. “Meu pai cavava poço e ganhava um bom dinheiro com isso. Assim pôde comprar os cavalos”, lembra-se com nostalgia do tempo que, para ele, foi o melhor da vida. “A coisa que eu mais amava era cuidar daqueles bichos, dar banho, alimentar”, diz com os olhos brilhando de saudade e anseio.

Quando Pezão ainda calçava chinelos número 33, seu pai enfartou e ficou preso a uma cadeira de rodas. Por não conseguir mais trabalhar, perdeu cavalos, carroças e também o filho. Ao perceber que Manuel e sua mulher, Maria Zuleide, não tinham mais como “dar de comer” para os meninos, uma delegada conhecida da família decidiu adotar Pezão, a essa altura com seus nove anos de traquinagens. No fundo do poço que Manuel jamais imaginou cavar, estava o futuro de seu filho, que hoje vaga pelas ruas da capital em busca da desejada “brisa” do crack.

Pezão chegou à Maceió aos nove anos e um ano depois foi apresentado, por intermédio de um colega, à famosa “pedra”. Boa parte do dinheiro que ganha nos coletivos, ele entrega aos traficantes e assim, com os pés descalços, ele constrói seu descaminho.

“Queria sair dessa vida, mas me sinto fraco.”  Muitas vezes nem volta para casa e dorme nas camas de cimento das ruas. “Quando chego, a mulher diz: ‘Porque tu não larga disso? Os meninos sentem tua falta.’ Ela também sente, mas é orgulhosa pra assumir”, afirma com um sorriso deprimido no rosto.

Pezão fala da esposa e dos filhos com um olhar tão distante, que parece se perder em um doce delírio. Diz que a amada tem os olhos verdes, igual à cor de abacate ou dos mares da capital alagoana, onde hoje tenta sobreviver. “Tenta” porque desde que chegou à Maceió não se sente bem recebido. A não ser pelos “fãs do Facebook”, que postam vídeos e fotos como registro de sua cantoria nos ônibus da cidade. “Sou o melhor! Apareceu um doidinho que fica dançando por aí, mas esse não me barra, não”, é enfático quando discursa a favor de sua imagem e tanta minar a do concorrente.

Ele conta que conheceu a esposa no ônibus, enquanto vendia amendoim. Um dia, ela quase pediu divórcio, mas desistiu quando Pezão tentou se jogar de uma ponte. “Eu estava atravessando a ponte quando ela passou perto de mim com outro cara”, recorda, “daí tentei pular na mesma hora. Foi quando minha esposa segurou no meu pescoço e disse que voltaria pra mim.” Ele jura de pezões juntos que não teve medo quando tentou o suicídio, porque ali, vendo sua companheira partir, percebeu que estava perdido e sozinho no mundo. “Naquele momento eu já estava morto”, conta.

Depois do incidente da ponte, o casal fez as pazes e até hoje estão juntos. Apesar disso, Pezão sente como se não estivesse ligado a nada além do crack. “É como se eu não vivesse de verdade”, ajuíza com os olhos fitando os pés descalços e feridos. Ele lamenta os seis anos que passou na cadeia, mas assegura que os dois piores dias de sua vida foram em liberdade. “Levei duas facadas de uns maloqueiros e os hômi [polícia] uma vez deram dois tiros nas minhas pernas”, aponta as cicatrizes como um lembrete dos dias de pavor.

Acima de qualquer coisa, Pezão parece um homem de vontades que não se perdem com o tempo. Seu olhar é típico de um sonhador, daquele que sonha para continuar vivendo. Um cavalo e um violão, segundo ele, são as únicas coisas que o afastariam do vício. “Eu nem ia me lembrar da nóia! Nem teria tempo pra isso”, assegura arrebatado como se o pocotó e a viola estivessem ali, bem à sua frente.

Certa vez, Pezão sonhou que foi aceito como integrante de uma banda famosa e que, por conta disso, pôde comprar uma fazenda e enchê-la de cavalos. Mas acordou e, golpeado pelo absurdo de sua realidade, viu apenas o vazio da existência. Ficou triste, forçando o pensamento a lembrar do olhar acolhedor da esposa, que mais parece uma fantasia. Deitou-se, cerrou os olhos e quis viver novamente sua ilusão. Partiu.

Sem caminho marcado, longe dos campos de concreto, ele cavalgou em seu cavalo explorando cada raio de sol refletido na grama verde e tenra, cortando o vento como uma foice. E, assim, com um riso galopante, Pezão continua sonhando saudade de algo que nunca pôde viver. Tomando destinos nos coletivos da cidade, todos os dias, ele alimenta a fome – às vezes de comida, outras de ilusão -, e em algum desses caminhos de itinerário, Pezão poderá, quem sabe, chegar às terras dos sonhos. Do seu sonho.

ok6

Uma Vila, várias vidas, um lar

É o que sonhamos e desejamos
Nessa construção:
Ser seu habitante já no anteprojeto
Pois da casa somos a matéria-prima
O operário humilde e seu arquiteto.
|Gonzaga Leão|

Era sexta-feira e a tarde estava quente, meio agitada. Com o sol inflamando o juízo, desci na praça da Liberdade, em frente à Vila dos Pescadores, no bairro de Jaraguá. Por todo o lado se viam cartazes, tambores e faixas de tecido. Professores, estudantes e moradores da Vila se organizavam para iniciar o segundo ato popular em apoio à permanência da comunidade de pescadores naquele ponto da cidade.

Eu, por minha vez, estava ali para conversar com meu segundo personagem para o Especial deste blog. Naquele momento, já tinha um nome em mente: Josivan Bezerra de Azevedo, um carpinteiro naval, morador da Vila e responsável pela construção de diversas embarcações ancoradas na Praia da Avenida. Para encontrar a casa de Josivan, precisei da ajuda de uma das moradoras que, prontamente, me guiou Vila adentro.

No caminho, vi crianças brincando e catando os piolhos de seus irmãos. Os cachorros nos espiavam curiosos e alguns moradores conversavam nas portas. Em meio aos esgotos abertos como feridas, por algum motivo, aquelas pessoas pareciam realmente felizes. Talvez por conta do dia ensolarado ou simplesmente por terem umas às outras. Não sei.

Enquanto matutava sobre a vida que desconheço, a senhora com lenço sufocando os cabelos – admito não recordar seu nome –, conduzia-me cumprimentando a todos que cruzavam nosso caminho. “É aqui”, situou-me apontando uma casa bem arrumada em relação à maioria dos lares da Vila. Agradeci a gentileza e nos despedimos.

Josivan abriu a porta com cara de sono – estava cochilando na sala. Apresentei-me e perguntei se ele aceitaria conversar sobre como é seu dia a dia na Vila. Apesar de parecer um pouco tímido, ele topou de imediato, convidando-me a entrar. Quando passei da porta, a primeira coisa que me saltou aos olhos foi Branca, a gata parideira. Já em sua terceira cria, Branca amamentava os filhotes enquanto olhava para mim com seus olhos azuis e muito desconfiados.

– Ela é uma boa mãe. É carinhosa e cuidadosa – afirma Josivan, ao perceber minha troca de olhares com Branca.

Aproveito o assunto “maternidade” e pergunto se ele tem filhos. “Um, apenas”, responde com os olhos cintilando. “Seu nome é Isac e ele tem seis anos”, completa. Apesar de Isac ser seu primeiro e único filho, Josivan, aos 47 anos, já está no 10º casamento.

– Mas só casei no papel mesmo três vezes e a quarta será agora. Eu não gosto de estar só. É bom ter sempre uma companheira… Melhor do que viver só com gato – direciona o olhar para Branca, que devolve com antipatia.

Josivan mora na Vila desde seus 22 anos. Mas começou a frequentar a comunidade pesqueira aos onze, para trabalhar com carpintaria e pesca. Ele aprendeu a construir barcos com o falecido José Calisto, irmão de seu pai. Na Vila, moram outros homens que trabalham com carpintaria, como Josafá, Pedro e o Galego.

– Aqui não existe concorrência. Se precisar, um ajuda ao outro. Empresta ferramenta, dá um pedaço de madeira, qualquer coisa.

O dia de Josivan é de trabalho, mas a noite é reservada ao culto na Assembleia de Deus, localizada no bairro do Verde, próximo à Vila de Jaraguá. Betânia, sua atual esposa, também é evangélica.

Até então, Josivan se mostrou um homem de poucas palavras, mas quando pergunto se ele gosta de morar na Vila, a resposta é longa e cheia questionamentos:

– Pra gente [carpinteiros] é muito melhor morar aqui. Se sairmos daqui, como iremos trabalhar? Eu vou levar uma embarcação dessa como? – aponta para um barco recém montado. Como vou construir barcos em outro lugar? A gente aqui tem controle quando, por exemplo, é maré alta… recuamos as embarcações e ficamos de olho.

Apesar de tantas indagações e preocupações, na Vila, Josivan é um privilegiado. A porta de entrada de sua morada fica em frente à praia. Dali, ele pode espreitar o que acontece no mar e observar, por exemplo, os barcos que repousam na água mansa ou agitada, a depender do tempo que faz.

A casa do carpinteiro é dividida em três cômodos. A porta é de madeira e as paredes, nuas, mostram seus tijolos. Josivan tem também sua própria oficina, anexada à residência. Tijolo por tijolo, ele fez florescer, mais que um abrigo, um lar.

Ali, o carpinteiro construiu não só paredes, mas também relações, vínculos, lembranças. O cheiro de madeira e maresia, o lado preferido da cama, a luz que entra pela fresta da porta, tudo isso faz parte do que ele chama de “casa”. Cada cantinho tem seus jeitos e trejeitos. Josivan é teto, paredes e chão. Para ele, aquela casa abre as portas como quem abre os braços para receber a pessoa que se ama.

Os móveis são organizados a sua maneira. Na sala, uma mesa, algumas cadeiras e a cama da Branca, a gata. Cada coisa em seu canto, em seu lugar. Lá ele caminha livremente, até mesmo de olhos fechados, se for preciso.

Ao observar essa relação entre homem e casa, encontrei então uma resposta para as perguntas que havia feito alguns momentos atrás, enquanto a senhora de lenço me guiava até a casa de Josivan: aquelas pessoas não parecem felizes, elas são felizes. E são simplesmente por terem um lar, mesmo que a fome seja a argamassa ou que as janelas não tenham cortinas.

Ao sair da Vila, o sol já beijava o horizonte, apaziguando o calor. Com mais calma e já com saudades, então pude perceber. Os moradores da Vila realmente vivem, sentem e amam aquele lugar. Eles são a Vila e por isso a Vila é a morada deles.

Nunca me esquecerei de Josivan, Mané Bandeira, Valdomiro, Marina, as irmãs Francineide e Francinete, a marisqueira Mariluse, como também Fabiana, Vilma, Bob, além dos cachorros Negão e Paloma e os gatos Galego, Filó e Branca. Sempre que o acaso me levar àquele pedaço de Maceió, lembrarei de cada um deles e espero encontrá-los não apenas nas lembranças, mas em forma sólida, palpável.

Agora sinto como se todos, de alguma maneira, fizessem moradia não só na Vila, mas também em mim.

 

[Best_Wordpress_Gallery gallery_type=”thumbnails” theme_id=”1″ gallery_id=”4″ sort_by=”order” order_by=”asc” show_search_box=”0″ search_box_width=”180″ image_column_number=”5″ images_per_page=”15″ image_title=”none” image_enable_page=”1″ thumb_width=”180″ thumb_height=”90″ gallery_name=”Uma Vila, várias vidas, um lar” thumb_click_action=”undefined” thumb_link_target=”undefined” popup_fullscreen=”0″ popup_autoplay=”0″ popup_width=”800″ popup_height=”500″ popup_effect=”fade” popup_interval=”5″ popup_enable_filmstrip=”1″ popup_filmstrip_height=”70″ popup_enable_ctrl_btn=”1″ popup_enable_fullscreen=”1″ popup_enable_info=”1″ popup_info_always_show=”0″ popup_enable_rate=”0″ popup_enable_comment=”1″ popup_hit_counter=”0″ popup_enable_facebook=”1″ popup_enable_twitter=”1″ popup_enable_google=”1″ popup_enable_pinterest=”0″ popup_enable_tumblr=”0″ watermark_type=”none” watermark_link=”http://web-dorado.com”]

Sobre o Especial Vila dos Pescadores, veja também: 

postagemvilaespecial2