Ana Cecília da Silva

Ela não sabe chutar uma bola e era sempre eliminada nas olimpíadas de matemática na escola. O destino a fez jornalista, afinal a única coisa que sabe fazer bem é contar histórias. Ela podia estar fazendo terapia para se tornar uma pessoa melhor, mas escolheu o jornalismo como divã para as aventuras e desventuras da vida. Ana Cecília escreve também no jornalistaeprafalarmal.blogspot.com.br.

amaro

Comendador Amaro

Os encontros são inevitáveis e diários, por vezes mais de uma vez por dia. Pela manhã, se dirigindo ao local de trabalho, no meio da manhã para um café na copa, no almoço, no fim do expediente. Alguns combinam horários e quando não coincide de estarem no local ao mesmo tempo, sempre se perguntam um pelo outro:

— Fulano já subiu?

Amaro Inácio dos Santos, o seu Amaro, em sua cadeira, dentro do cubículo 100 x 900 cm, responde com seu melhor sorriso:

— Acabou de descer!

Dentro dos elevadores do Tribunal Regional do Trabalho de Alagoas há 18 anos, ele tem muitas histórias para contar. Embora encontre gente todos os dias, poucas já pararam para escutar o que ele diz ou para lançar um olhar mais atento sobre aquele homem de pele negra e cabelos brancos, de sorriso largo e afetuoso.

— Aprendi os horários de cada um, sei quem é cada pessoa, mas nem todos me cumprimentam.

Alguns funcionários, quando cumprimentam é com um pequeno movimento de cabeça, sem sequer balbuciar. Entram conversando, saem conversando e não interrompem o assunto um instante sequer para dirigir uma palavra, mas Amaro aprendeu a conviver com a indiferença e diz não se importar.

— Alguns entram mudos e saem calados e eu apenas aperto o botão. Acho que falta cordialidade nessas pessoas, mas isso é de cada um.

O elevador do Tribunal não demora mais que três minutos para fazer o transporte de pessoas em seus oito andares. O tempo é suficiente para Amaro brincar com as pessoas, perguntar como está sendo o dia, informar as novidades. Tudo isso, entre alguns abraços e sorrisos. Quem frequenta os elevadores do órgão sabe da energia boa que Amaro transmite.

A maneira carinhosa de trabalhar já impactou na vida dos funcionários e visitantes. “Uma vez uma senhora disse que estava triste, mas que se alegrou com meu bom-dia, ela tinha tido um dia difícil e meu gesto levou um pouco de conforto ao coração dela”, disse orgulhoso.

Com sua forma peculiar de prestar o serviço, Amaro conquistou o coração de todos, ganhando até um título, digamos incomum, de todos que trabalhavam no Tribunal. O título de Comendador, geralmente dado a reis e nobres como recompensa pelos bons serviços prestados à comunidade. O nobre coração de Amaro lhe rendeu esse reconhecimento. Mais que um simples funcionário, ele era a alegria diária de todos, que mesmo em meio às atribulações, sabiam que tinham uma dose de bom humor reservada dentro daqueles cubículos.

Nascido no povoado de Santa Luzia do Norte, Amaro garante que sua infância foi boa, apesar um pouco traumática quando, aos 10 anos, perdeu o pai, vítima de anemia e aos 11, a mãe, com câncer. Logo cedo, se viu só no mundo com seus irmãos menores. Amaro conta lacrimejando o que sentiu naquele dia que perdeu suas referências de vida. “Meu pai foi embora e depois veio buscar minha mãe, ela morreu em casa, junto de nós. Eu queria pensar que ela estava dormindo, mas ela tinha morrido, foi difícil aceitar”, conta.

Depois da morte da mãe, um dos episódios mais marcantes de sua infância, Amaro foi morar com a irmã mais velha e seus dois irmãos mais novos. Logo cedo começou a trabalhar “para não dar trabalho aos outros”. Tomou conta do galinheiro do vizinho, depois foi carregador de compras no mercado. Com 13 anos, virou ajudante de padeiro e com 14, garçom de um bar próximo ao edifício Brêda, no Centro de Maceió. Foi lá que Amaro conheceu Paulo, o dono do bar que o adotou como filho.

Paulo colocou Amaro para estudar, porque criança não podia ficar fora da escola. Terminou seus estudos no Colégio Cônego Machado, no bairro do Farol. Nessa época, Amaro não queria ser muita coisa, a não ser um adolescente barbudo de 18 anos para assistir filmes proibidos e se parecer com um homem mais velho Só aos 20 anos que ele escolheu uma profissão: queria ser economista!

— Era meu desejo, mas perdi no vestibular. Então decidi fazer curso técnico de contabilidade, aqui em Maceió mesmo, na Escola Técnica do Comércio de Maceió.

Amaro não conseguiu concluir o curso e acredita que o motivo de tudo foi ter encontrado uma namorada na mesma sala que estudava e que isso teria tirado sua concentração. “A gente saia muito da aula, quando chegava a hora da prova eu não sabia de nada. Perdi o ano e perdi a namorada também por outros motivos. Perdi tudo e depois nunca mais quis saber de estudo”. Descontraído e sempre com um sorriso no rosto como se as vicissitudes da vida não tivessem lhe atingido de nenhuma forma, Amaro sente pena de ter perdido os estudos, mas não a namorada.

Amaro foi trabalhar no Tribunal em 1996. A princípio iria fazer a limpeza do prédio, mas acabou ficando com a vaga de ascensorista. “Eu adoro minha profissão e faço tudo com prazer”, afirma sorridente. E antes que eu pudesse fazer qualquer pergunta ele completa: “Quem chega aqui de cara emburrada não sabe viver, porque problemas devem ser deixados em casa. Eu faço isso e por isso só chego aqui de bom humor”.

O maior sonho do ascensorista é ter sua casa própria, pois o local que mora não lhe permite ter paz e tranquilidade. “As pessoas fazem muito barulho e brigam muito”, mas nem por isso Amaro se sente uma pessoa amargurada e infeliz. Pelo contrário, agradece a tudo que lhe foi dado e também ao que foi tirado, pois “tudo faz parte da vida”, como gosta de dizer.

O comendador chega em casa cansado do trabalho e diz que não tem tempo para refletir sobre o seu dia a dia. Apenas vive, como se uma força o movesse. Nem no futuro ele pensa. O único medo que ele tem é o da morte. “Eu moro só. Já pensou se morro fechado em casa e ninguém me encontra?”, Amaro prefere deixar a possibilidade da morte em um horizonte distante.

Sobre a felicidade, Amaro acredita que só estar vivo já uma felicidade. Não liga para posses, dinheiro ou status. Sente-se realizado sendo exatamente quem é, desde que tenha saúde, paz e trabalho para se ocupar.

Comendador Amaro, altaneiro, exibe com orgulho sua farda e seu bótom. Tem até diploma na parede com o título. Se ele ganhou dinheiro com isso?

— Nada, nem ganhei dinheiro, nem tenho vaidade com isso, to até querendo vender, se tiver alguém interessado troco por uma casa – Responde sempre bem humorado.

Para ele, o segredo da felicidade está na forma como lidamos com as dificuldades. E não há nenhuma fórmula mágica. Aliás, a única receita é resolver os problemas que tem solução, e os que não têm a gente coloca no fundo da gaveta e continua vivendo.

dona tereza

A bela da tarde

É assustador perceber que somos finitos. Mais assustador ainda é saber que alguns veem nesse destino a única salvação para suas vidas. Uma espécie de vida através da morte.  Ninguém se desapega da vida de forma natural, ninguém parece conformado com essa perspectiva, com a possibilidade de dormir e não mais acordar ou quem sabe sair na rua e não saber se vai voltar pra casa. Alguns preferem não falar, outros têm medo, quase ninguém a admite como um processo natural da vida. Mas nada me surpreende mais que os idosos, em especial, alguns que desejam de forma muito íntima que suas horas sejam abreviadas.

– Dona Tereza, o que é envelhecer?

–  É uma angústia, um nó no peito, não sei bem explicar….

– A senhora é feliz?

– Sou, tenho que dizer que sou. Com 90 anos de idade não me restam muitas coisas, então ainda posso mentir que sou feliz.

– A senhora tem sonhos?

– Tenho não minha filha! Já passei dessa fase faz tempo…

– E medo da morte?

– Medo nenhum. Quero mais é que Deus se lembre de mim e me leve logo desse mundo.

Tereza Barbosa nasceu na praia de Boa Viagem. Em 1930 começava sua vida, ao lado de seus 3 irmãos, filhos de pai carpinteiro e mãe costureira. Era uma moça jovem, loira, de olhos azuis, que cabe perfeitamente na canção do poeta pernambucano Alceu Valença: Eu lembro da moça bonita da praia de boa viagem, a moça no meio da tarde de um domingo azul, azul era a belle de jour, era a bela da tarde…

Desde cedo aprendeu o ofício materno.  Era uma moça cheia de sonhos, sempre desejou ter sua própria família. E aos 20 anos de idade conheceu aquele que seria seu marido e veio com ele para Maceió. Teve dois filhos. Eduardo e Paulo.

Na capital alagoana, continuou trabalhando como costureira, trabalhando muito, na tentativa de dar uma vida digna para seu seus filhos. Fato que lhe rendeu problemas de coluna e uma aposentadoria por invalidez aos 40 anos de idade. Para o Estado era considerada inválida e por um bom tempo Tereza se sentiu assim. Inadequada, ainda jovem, mas sem um lugar no mundo.

A doença fez o espírito jovem e sonhador de Tereza se sentir menor. Ainda mais quando 10 anos depois seu companheiro morreu. Morte prematura, morte dolorida, daquelas que deixa a vida menos doce. Foi a segunda vez que Tereza lidou com a morte tão de perto, tristeza igual só sentiu quando seus pais foram embora.

Ainda tinha seus filhos e por eles iria viver. Eduardo se formou engenheiro e Paulo, dentista. “Eu tinha conseguido encaminhar bem os meninos, eles eram tudo pra mim, só queria que eles fossem felizes”, diz Tereza com um sorriso no rosto.

Paulo foi morar em São Paulo e Eduardo tinha ficado em Maceió. Tereza morou com Eduardo e a nora por um bom tempo, até que a terceira “morte” a atingiu. Teve um derrame que lhe roubou os movimentos das mãos e dos pés. Agora tinha uma alma presa a um corpo inerte. Além da doença, a velhice também chegou para Tereza. Seu rosto foi adquirindo cada vez mais cavidades e entradas. Os cabelos iam ficando brancos e apareciam a cada ano no mês de dezembro.

A vida ia ficando mais difícil. Todas as atividades básicas que costumava fazer com rapidez foram ficando cada vez mais penosas. Não podia comer sozinha, nem tomar banho e nem andar. Cansada de dar trabalho para seu filho, decidiu que era hora de partir. Iria para um abrigo.

A princípio seu filho não concordou, mas Tereza o convenceu que ele precisava viver a vida dele e que no abrigo iria ficar bem, teria alguém que cuidasse dela. Eduardo iria embora para Recife e Tereza achou melhor partir porque não queria dar trabalho e morria de medo de morar em apartamento. “Aquelas casinhas, uma em cima da outra, tão alto, tenho muito medo. E se cair?”, diz bem humorada.

Hoje, com 90 anos, Dona Tereza não tem mais sonhos, nem saúde. Vive em um abrigo, junto a outras senhoras. Umas mais moças, outras mais velhas, outras que não aguentaram esse mundo e sucumbiram à loucura, outras nem sequer sabem que ainda vivem, parecem à espera da morte com o olhar perdido no horizonte.

Tudo ali tem aquele cheiro característico dos idosos, tudo ali cheira a saudade, a tempo, a lembranças. Cada pedaço daquela casa traz alegria e tristeza em suas paredes. Cada olhar traz uma história. Tereza é mais um pedaço de solidão. Ela é mais uma. Como cada uma daquelas doces meninas. Todas já passaram dos 80. Algumas nem lembram mais quem são e nem qual seu lugar no mundo. Outras sabem no que acreditar, para elas ter fé é como um coringa, uma sorte, um privilégio.

Dona Margarida, Maria das Neves e Sandra são só algumas protagonistas dessa história. Cada uma com o rosto enrugado e com alma de menina. São mulheres que só procuram uma coisa: amor e carinho. Fazem festa quando chega visita, pedem abraço e afeto e uns minutos de atenção.

Entre elas ainda existe lucidez, mas nenhum apego à vida. Nem esperança. Seus mundos se resumem a esperar que a doce morte as levasse. Para elas, não é possível outra vida. É tudo uma espera, pelo momento em que seu dia chegará, onde a amarga morte as alcançaria com compaixão.