Ana Cecília da Silva

Ela não sabe chutar uma bola e era sempre eliminada nas olimpíadas de matemática na escola. O destino a fez jornalista, afinal a única coisa que sabe fazer bem é contar histórias. Ela podia estar fazendo terapia para se tornar uma pessoa melhor, mas escolheu o jornalismo como divã para as aventuras e desventuras da vida. Ana Cecília escreve também no jornalistaeprafalarmal.blogspot.com.br.

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Mãe Vitória

Eram três horas da tarde quando cheguei até a casa da Mãe Vitória, mãe de santo que tem um templo de umbanda estabelecido na Vila dos Pescadores. Fui recepcionada por dois cachorros que latiram felizes quando me viram. Mãe Vitória apareceu na porta. Era uma senhora baixinha e de cabelos brancos que me recebeu com um sorriso no rosto. Logo me levou para conhecer seu lar, que era também seu local de trabalho – o espaço onde se dedica aos Orixás. No local havia uma grande mesa, búzios, velas, incensos e um trono no centro da sala, fundamento de toda casa.

Maria Vitória de Lima, a Mãe Vitória, tem 58 anos de idade e há 30 se dedica à Umbanda, religião de matriz africana que atua na orientação espiritual e doutrinária feita pelos Guias – espíritos ligados diretamente a um determinado Orixá.

Toda vestida de branco, Mãe Vitória me levou para conhecer o jardim. Perguntei por que ela estava vestida daquela maneira. A resposta veio logo em seguida: “O branco é importante em todos os momentos. A gente que lida muito com Oxalá (orixá associado à criação do mundo e da espécie humana) precisa usar a cor branca porque ela traz paz e a gente que é espírita precisa muito”.

Mãe Vitória, acomodada em uma cadeira no jardim, conta um pouco de sua trajetória de vida. “Casei nova, com 16 anos. Fiquei viúva aos 17 e com 18 casei de novo. Aos 28 fiquei viúva novamente. Desde lá não casei com mais ninguém, me dediquei à criação dos meus filhos, ao meu crescimento espiritual e a construção do meu templo”.

Nascida em União dos Palmares, na região da Serra da Barriga, Vitória confessa que já tinha visões aos cinco anos de idade, mas não tinha noção do que estava acontecendo. Algo muito comum na região da Serra é o fogo-fátuo, uma luz azulada que surge com a inflamação espontânea do gás metano, resultado da decomposição de seres vivos: como plantas e animais típicos do ambiente. Vitória acreditava que via o fenômeno em meio à serra, mas, segundo ela, aquela era a primeira demonstração de sua mediunidade

Vinda de família de origem católica, Vitória, aos 8 anos, foi estudar na cidade de Viçosa, para fazer a sua primeira comunhão. Nessa época nenhum de seus familiares dava importância aos primeiros relatos que ela fazia de suas visões.  “Até o dia da minha primeira comunhão ninguém falava nada espiritual. Eu fui coroinha, limpava a sacristia, ajudava a fazer hóstia, nunca perdia uma missa e também ajudava o padre a dar esmolas pros pedintes da cidade. Eu era muito eficiente”.

Ela conta que no dia de sua primeira comunhão, após a cerimônia, iria ter um jantar em família e que ganhou de seu tio uma caixa de sabonetes. Quando saiu da sala e foi até o quarto guardar seu presente, foi manifestada por um espírito pela primeira vez.

“Fiquei tremendo e minha fala foi mudando, as pessoas estavam assustadas. Todos muito nervosos, disseram que eu estava com uma crise de nervos. Na época eu não entendia, mas hoje sei que era a aproximação da minha espiritualidade”, relata.

O padre da cidade foi chamado para realizar um exorcismo na pequena Vitória, que além de ser diagnosticada com uma crise de nervos, poderia ter também um espírito fazendo dela encosto, segundo acreditava o padre. Foi uma noite inteira de rezas em latim e água benta.  Vitória também foi levada ao médico diversas vezes para descobrir a causa de suas alucinações repentinas.

Quando criança, ela gostava de fazer altar de santo e era muito introvertida. Tinha visões constantemente com uma mulher de branco e um homem. Costumava conversar com pessoas que não estavam ali. Era considerada doente e estranha pelos irmãos, família e amigos.

Os boatos na cidade já estavam correndo soltos. Várias pessoas vinham conversar com a mãe de Vitória e se oferecerem para levá-la a um curandeiro. Um dia o dono de uma farmácia sugeriu que a mãe de Vitória procurasse um centro espírita, pois, de acordo com ele, o problema da menina não era mental, mas espiritual.

O farmacêutico deu o endereço de um Centro Espírita em Jaboatão dos Guararapes (Recife), alegando que a medicina não iria resolver o problema de sua filha. Foram para Pernambuco a mãe, Vitória e o irmão de 14 anos, Laércio.

Já no Centro, uma senhora vestida de cigana colocou a mão na cabeça de Vitória e disse que ela era médium de nascença. Vitória lembra que, naquela hora, manifestou mais uma vez sua espiritualidade.

Em Maceió, aos 17 anos, passou a frequentar o kardecismo, doutrina que lida com os espíritos que não aceitaram a passagem desse para outro mundo. Foram quatro anos de trabalhos até que Vitória entendesse o que se passava com ela e começasse a trabalhar de forma mais saudável aquilo que hoje ela considera um dom.

“Eu tinha 28 anos quando montei minha primeira casa. Comecei a ser filha de santo, frequentando um terreiro, para preparar a cabeça e o espírito. A minha casa é meu templo, que eu chamo de Tempo Abaçá Airá Obá, que mantenho há 30 anos na comunidade”, conta.

Mãe Vitória acredita que todos têm uma missão no mundo e que a dela é encaminhar pessoas (e espíritos) para o caminho do bem. Com a sensibilidade aflorada, ela sente no ar a energia das pessoas. E, contra as “energias ruins”, Vitória tem uma receita fácil: mirra, benjamim e alecrim para defumar o ambiente.

“Eu gosto de energia boa e pensamento positivo, pois o padrão de pensamento define quem anda do seu lado. Eu não evito pessoas de energia ruim, pois temos que aprender a lidar com tudo e mostrar que o caminho não é aquele, afinal, nem sempre é problema de espírito, mas de mente”. A dona do templo afirma que seu trabalho não é só fazer limpeza espiritual nas pessoas, mas que muitas vezes é preciso dar uma de psicóloga, entender os traumas e aconselhar.

Ela se orgulha de ter construído tudo sozinha e ter firmado bons laços de amizade com os moradores da Vila de Jaraguá. “Aqui não tinha nada, no lugar dessa casa havia um barraco velho e eu ergui meu lar à custa de trabalho e esforço”. A mesma alegria com que ela conta sua vida também dá lugar à tristeza quando ela pensa na possibilidade de tudo isso ruir.

Sua casa também está na mesma situação das outras casas da Vila dos Pescadores, ameaçadas de serem retiradas do local pelo município.  “Não acho que essa seja uma maneira correta de agir, os moradores da Vila mereciam uma assistência melhor e deveriam permanecer aqui”, desabafa.

A casa de Vitória, por ser um templo religioso, não pode ser removida, mas, segundo ela, sua residência está contemplada no projeto de transferência. Vitória garante que tem o documento de ocupação da União, autorização de diversos órgãos para ter ali sua casa. “Eu sei que minha casa corre riscos, mas até hoje ninguém me procurou para falar sobre isso”.

Apesar da ameaça de remoção, ela não hesita em abrir um sorriso e dizer que se orgulha de sua trajetória e da pessoa que se tornou. “Sou feliz porque gosto de trabalhar, de fazer caridade, de ajudar pessoas e foi a espiritualidade que me ensinou todos esses valores. Não acho que sou melhor que ninguém por conta do meu dom, porque o único que pode julgar nesse mundo é Deus”.

Vitória faz parte do cenário daquela região e sua história e seu templo já fazem parte da vida dos moradores de Jaraguá, que mantêm, como ela, uma relação de amizade e respeito.

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Senhora do Mar

Ao atravessar a rua e entrar na Vila já posso ouvir as crianças correndo por todos os lados. São risos e gritos de felicidade. Alguns homens conversam no bar e as mulheres separam o camarão que acabou de chegar da pesca.

Ela está sentada na porta do seu barraco, com um avental sujo e olhar perdido, como se pensasse em alguma coisa que a levasse para distante. Os cabelos brancos não deixam mentir sua idade e todas as lutas que travou para chegar até ali.

Com 66 anos nos ombros já cansados, Mariluse Alves dos Santos, marisqueira desde os 10, abre um sorriso quando me aproximo e se oferece para compartilhar comigo um pouco de sua história, que se mistura à história da Vila dos Pescadores, morada de seu coração.

Para ela, a Vila é fonte de sentimentos contraditórios, amor e medo. O embate com a municipalidade tem lhe tirado o sono, pois não sabe quando terá que sair do lugar onde criou laços e raízes que não podem ser desfeitos.

Há 56 anos na Vila, Mariluse, filha de mãe marisqueira e pai estivador, conta que desde cedo aprendeu o ofício da mãe, que perdeu de forma prematura, aos 10 anos de idade.  Aos 14 anos, sem rumo, resolveu casar e construir sua própria família. Diógenes, seu ex-marido, lhe deu 10 filhos e 30 netos.

O amor não foi suficiente para manter o casal junto quando as dificuldades começaram a aparecer. “Eu sempre trabalhei com peixe e camarão e foi com isso que criei meus filhos. Meu ex-marido não queria trabalhar, só queria ficar em casa de vida boa e eu não sou mulher disso, não contei conversa e me separei. Vivo até hoje sozinha e sou feliz assim”.

Todos os dias, Mariluse sai às 3 horas da manhã para o mercado do Jacintinho, onde vende seus produtos. Às 13 horas, volta para casa. “Ontem vendi 150 quilos de camarão”, conta orgulhosa. Foi com o pescado que conseguiu criar os filhos. Todos seguiram seus passos, sendo pescadores e marisqueiras. Nesse momento, ela se lembra do filho caçula, que aos 23 anos ficou paraplégico depois de ter ingerido veneno.

A senhora do mar conta, com tristeza, o episódio. “Ele ficou assim, porque três meninos daqui colocaram veneno na bebida dele. Os nervos dele encolheram, quase morre, passou três meses em coma. Já foi desenganado pelos médicos, mas o céu não me enganou. Deus trouxe meu filho de volta”, disse com um brilho de esperança nos olhos.

Graças à fisioterapia, o filho de Mariluse já consegue comer, falar e sentar. Sobre os rapazes que praticaram o ato, ela prefere não falar em vingança, por maior que seja sua dor. “Um deles foi assassinado, o outro está preso e o terceiro não sei onde anda. A vida está se encarregando de mostrar para eles que o mal que fizeram um dia volta”.

Enquanto conversávamos, um rapaz nos observava encostado na parede. Era Naldo, um morador da Vila. Mariluse conta que Naldo, aos 26 anos de idade, não tinha documentos, apenas há alguns dias havia tirado sua carteira de identidade. Perguntei como eles faziam para saber da idade. “Um bocado de gente não sabe a idade, nem tem documento. A gente só sabe quando viu nascer. Fora isso, apenas deduzimos”.

Mariluse não conseguiu terminar os estudos, pois a pesca ocupava todo o seu tempo, mas garante que tudo que sabe hoje aprendeu sozinha. Lê algumas coisas, faz conta das embarcações, calcula preços e conhece seus direitos e os da coletividade como ninguém. A senhora do mar confessa que já passou por muita discriminação por ser marisqueira, moradora da Vila dos Pescadores e analfabeta, mas reforça também que nunca baixou a cabeça para ninguém, adquirindo respeito dos moradores da comunidade. Em 2001 e 2007 foi presidente da Colônia dos Pescadores de Jaraguá.

“No dia em que o ministro da pesca veio pra cidade fui chamada para representar a colônia. Conheço governador, secretário, trabalho com tudo. Disseram que eu não podia fazer nada porque não sabia ler, mas provei que tenho mais conhecimento que muita gente”, conta.

Sobre a possível mudança de local, Mariluse diz se sentir um peixe fora d’água, pois o trabalho dela é ali, junto com seu povo e suas raízes. O trabalho da pesca é dividido em dois turnos, um pela manhã e outro pela madrugada. A marisqueira questiona como eles vão guardar suas embarcações e materiais de trabalho de maneira segura.

“Não temos sono pra dormir e fome pra comer. Dia e noite só pensamos nisso. Eu fui contemplada com um apartamento, mas meus filhos não. E é neles que eu penso, assim como penso nos filhos de todos daqui”.

Com a voz embargada, a senhora do mar confessa que muitos ali não têm mais família e que os outros moradores da Vila são seu sustento afetivo, o fio invisível que os liga a um sentimento muito próximo daquilo que é chamado de afeto. O sofrimento dos outros é o seu sofrimento. Ela tem medo do amanhã, como nunca teve antes.

Mariluse, forte como um timoneiro, não se entrega e garante que, enquanto houver vida pulsando em suas veias, não deixará que morra dentro dela a compaixão e a solidariedade com que ela se dedica a seu povo e suas raízes. “O ser humano tem que pensar no bem comum, pois só assim pode ser chamado de humano”.

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