Ana Cecília da Silva

Ela não sabe chutar uma bola e era sempre eliminada nas olimpíadas de matemática na escola. O destino a fez jornalista, afinal a única coisa que sabe fazer bem é contar histórias. Ela podia estar fazendo terapia para se tornar uma pessoa melhor, mas escolheu o jornalismo como divã para as aventuras e desventuras da vida. Ana Cecília escreve também no jornalistaeprafalarmal.blogspot.com.br.

selma

As raízes de Selma

“Aqui é três por um real”, grita uma vendedora de raízes de um lado da rua. “Venham conhecer a barraca da Zilma, aqui tem chá pra todo tipo de dor. Cura até dor de amor”, dispara a concorrente. No sol causticante de meio dia, entre vendedoras de raízes, carros, bicicletas e animais, ela vende seus artigos religiosos em uma pequena loja, por trás de um balcão. Semblante taciturno, de quem não está para conversa, e olhar atento a tudo que acontece à sua volta. Uma calma que parece conquistada com o tempo e a experiência que enxergamos em cada ruga de seu rosto.  Seu olhar fatigado é de quem já viu muita coisa nessa vida, e hoje, algo custa a lhe surpreender.

Aproximei-me de sua loja – e encontrei estátuas de orixás, chás, pós mágicos, rosários e fotos nas paredes – objetos muito utilizados em rituais de candomblé e umbanda. Fui recebida com uma imensa imagem de Iemanjá que parecia me dar boas vindas. Disse que era jornalista e me ofereci para entrar em seu universo

A princípio, ela olhou com desconfiança diante de meu pedido inusitado. Era uma mulher de poucas palavras e não costumava se abrir para estranhos, como ela mesma confessou minutos depois. É tanto que Selma mesmo assim só aceitou contar sua história, com a prerrogativa de não haver fotos. Preferia guardar as experiências dentro de si e não dividi-las com mais ninguém. Mas naquele início de tarde quente, Selma de Oliveira resolveu quebrar o silêncio.

Com 65 primaveras, Selma nasceu em Joaquim Gomes, interior de Alagoas, onde logo cedo experimentou os desenganos da vida. “Eu nunca estudei, até hoje não sei ler, por isso ainda criança fui para o batente, no sítio que minha família tinha no interior”. Conta Selma, que aos 11 anos de idade se viu abandonando o local onde nascera, mudando-se com sua família para a capital Alagoana, em busca da terra prometida.

Seu pai vendeu tudo que tinha em Joaquim Gomes e mudou-se para Maceió com mulher e quatro filhos, em busca da prosperidade que seus conterrâneos diziam ter na cidade grande. O sonho da família não durou muito, pois seu pai, encantado com a diversidade de mulheres que moravam na capital, decidiu largar esposa, filhos e ir em busca de um novo amor. Selma descobriu logo cedo que a vida não era tão doce quanto seus sonhos de criança. Agora eram apenas ela, a mãe e os irmãos, no admirável mundo que se abria diante de seus olhos ainda perdidos em meio à tanta novidade.

Ninguém sabia ler ou escrever, como então arrumar trabalho na “terra estrangeira”? Em meio ao caos, Selma e os irmãos tentaram se manter fortes e juntar os pedaços quebrados do coração de sua mãe, que chorou por dias ao ver seu marido indo embora.

Após o choque inicial, sua irmã mais velha, com 12 anos de idade, arrumou um emprego de doméstica e Selma ficou cuidando dos irmãos nos tempos que, segundo ela, foram os mais difíceis que passou. “Na época vivemos quase como mendigos, vagando pelas ruas, sem ter para onde ir. Nosso pai nos deixou sem nenhum dinheiro, mas depois fui aprendendo como são as coisas por aqui e fui vender sururu no mercado. Foi isso que ajudou a mim e a minha família”, lembra emocionada.

Com 14 anos de idade ela conheceu seu primeiro amor, com quem se casou tempos depois. “Nessa época eu tava trabalhando numa sorveteria e ele era policial que fazia a guarda na rua. Tivemos um filho juntos, mas ele foi embora porque eu não sabia dançar forró”, lembra Selma. A comerciante conta que ele só queria saber de dançar e ela, que nunca foi muito fã da dança, só sabia ficar no canto da parede, enquanto ele dançava com outras mulheres. “Ele se abusou de mim e foi embora com mais de mil”.

Se tem uma coisa da qual Selma se orgulha muito é de sua inteligência. “Eu até hoje não aprendi a ler ou escrever, mas sei muito bem o que é certo e errado nessa vida. Sou muito inteligente para os negócios”. Sua vida de empreendedora teve início com uma banca de sururu no mercado. O dinheiro que juntou vendendo sururu e o dinheiro que conseguiu trabalhando como serviços gerais na Casa de Saúde Miguel Couto deu para comprar um caminhão, onde fazia fretes e mudanças junto com ao José, seu segundo marido.

O casal estava pensando em vender o caminhão e montar um negócio próprio, mas os planos não deram muito certo. “Vendi o meu caminhão, coloquei o dinheiro no banco Produban e o banco faliu tempos depois. Quando fui retirar o dinheiro, não dava nem pra comprar um pneu. O caminhão era tudo que eu tinha”, desabafa.

“Voltei a vender no mercado, desta vez, produtos religiosos junto com meu filho que tinha uma banca de raízes”.  A princípio era só um pequeno tabuleiro junto à calçada. Logo ela conseguiu multiplicar e montar sua própria loja, que há 20 anos vende produtos para umbanda e candomblé no Mercado da Produção.

Sobre ser seguidora da doutrina, Selma é categórica. “Sou católica e não acredito nessas coisas aqui. A loja é só um negócio. Às vezes vou à igreja evangélica também quando me dá vontade. Só nunca fui a espiritismo porque nunca me deu vontade, mas medo de morto eu não tenho não, tenho medo é de gente viva”.

Selma se lembra dos pedidos inusitados que já chegaram até ela na loja. “Tem mulher que chega aqui procurando remédio pra fazer o marido ir embora. Eu indico o pó do corre-corre, o da mudança e o da pimenta corredeira. Joga na roupa, na cama e o cabra vai embora”, conta divertida e fala ainda que não entende como as coisas mudaram, já que antes as simpatias eram para prender marido. “Ainda tem aquelas que desejam prender seus maridos, mas não é como antes, aí indico os perfumes, ou pó da amarração. Sou quase como uma farmacêutica, o pai de santo que é o médico”.

A rotina é exaustiva. Selma chega à loja às 7 horas da manhã e sai às 18h, mas garante que seu maior desafio não é o dia de trabalho, mas alguns clientes. “Tem gente que chega aqui querendo liberdade demais, ficam tirando brincadeira, piadinha. Eu sou chata, não aceito brincadeira de todo mundo e às vezes me aborreço”.

Um grande retrato na parede chama a atenção de quem entra na loja. Um homem de aproximadamente 50 anos de idade, todo vestido de branco, barbudo, de óculos e com um grande chapéu. Pergunto se é algum guia espiritual da loja. “Nada, esse é o pai Maciel, um dos nossos clientes mais antigos. Há 15 anos compra meus produtos e pediu pra eu colocar uma foto dele na parede. Não me custa nada. Acho até que é pra fazer propaganda quando alguém perguntar quem é”, diz entre sorrisos.

Selma ainda desabafa, dessa vez entre lágrimas, sobre um dos recônditos mais escondidos de sua alma, que, diante de mim, começava a desabrochar. Era sobre seu segundo marido, José, hoje falecido. “José foi o amor da minha vida. A gente teve até um bar juntos, antes de eu colocar meu dinheiro da venda do caminhão no banco e perder tudo.” Selma conta que nunca havia conhecido alguém tão especial e que por esse motivo colocou o nome do bar, localizado na Chã de Jaqueira, de “Dois corações sem maldade”.

Agora com a cabeça baixa e os olhos marejados, Selma narra um dos piores momentos de sua vida, o dia que experimentou a morte de perto. Era um sábado e ela lembra como se fosse hoje. Um carro vinha na direção deles e a colisão levou José para sempre. “Passei 12 dias no hospital e não sabia que José tinha morrido. Eu não fui ao seu enterro, pois estava ‘morta’. Isso já faz 20 anos, mas eu ainda sinto como se fosse hoje”, relembra Selma enxugando as lágrimas que insistiam em cair.

Apesar da ferida ainda arder, hoje ela pode contar com o amor de quatro filhos, netos e bisnetos. Selma tenta encontrar sentido em meio à dor, fazendo de cada dia um novo nascimento, tecendo com as próprias mãos, a dor e a saudade, os caminhos de sua existência, vendo no brilho dos olhos dos seus, aquilo que precisa para continuar vivendo.

pero nova

O Picadeiro de Peró

A estrutura e os cenários são improvisados. O chão é de pedra e o palco é um tapete vermelho desgastado pelo tempo. A luz do sol é sua ribalta, que ilumina os sonhos de criança todas as segundas e quartas feiras. No fim, o espaço era o que menos importava diante do brilho nos olhos das crianças e adolescentes recém-apresentados às artes cênicas.

Em seu “picadeiro” estava ela, Peronilda Batista de Andrade, a idealizadora da ONG Sua majestade, o circo, que trouxe às crianças da Vila Emater II a possibilidade de enxergar outros caminhos. Peró, como gosta de ser chamada, já atravessou 61 primaveras e 15 delas foram dedicadas a seu projeto.

Natural de Maceió, Peró já morou no Rio de Janeiro, no Peru e em Belo Horizonte, onde fez escola de artes plásticas. Formada em Teatro pela Universidade Federal de Alagoas, ela nunca pensou em se aproximar do circo, até que conheceu o ator global Marcos Frota. Marcos a convidou para ser produtora de seu espetáculo Grande Circo Popular do Brasil. Ela iria produzir cenários, figurinos e dirigir o espetáculo por 15 dias, que se transformaram em 15 anos sem que Peró percebesse.

O circo de Marcos Frota estava em uma turnê no estado do Maranhão quando Peró recebeu um telefonema que mudaria sua vida. Do outro lado da linha, alguém anunciava que o Cirque Du Soleil viria para o Brasil e que precisava de voluntários para participar de um projeto de circo social chamado Jovens do Mundo. Era a chance de sua vida, mas antes de se atirar nessa nova oportunidade ela precisava resolver algumas questões.

“Eu fiquei preocupada com meus filhos, Pablo tinha 12 anos e Rafael 4, que mora com o pai, e eu me preocupava com os estudos deles, mas Pablo me apoiou e disse que eu não me preocupasse, que corresse atrás do meu sonho”, conta.

Peró deixou tudo para trás, inclusive seu trabalho com Marcos Frota. O projeto Jovens no Mundo ficou na cidade de Recife onde Peró passou dois meses trabalhando como voluntária no circo social, conceito que ela nunca tinha ouvido falar antes, mas que agora sabia que essa era a resposta para o anseio que há muito tempo tinha, o de conseguir transformar vidas através da arte. “Apesar do pouco tempo que passei lá, aprendi muito e hoje posso ajudar jovens a trilhar caminhos melhores para suas vidas”, conta.

O projeto veio para Maceió, mas não teve o apoio e incentivo governamental que precisava para permanecer na capital alagoana. Quando o projeto acabou na cidade, Peró não sabia o que fazer para continuar transmitindo conhecimento para os meninos que tanto precisavam de iniciativas como aquelas. Foi aí, reunindo muita coragem decidiu que fundaria sua primeira escola de circo, para ajudar as crianças carentes da região da Vila Emater II, antigo lixão de Maceió.

Desde 2000, a ONG desenvolve trabalhos de arte-educação, construindo cidadania e resgatando a cultura do circo na cidade. Peró resgata vidas esquecidas em meio ao lixo, dando a cada uma delas a possibilidade de sonhar e serem protagonistas de seu espetáculo.

“Através do lúdico mostramos que outro tipo de vida é possível, que o estudo é importante, pois não trabalhamos só com circo, mas também com música, dança, canto, além de desenvolver atividades como oficinas de leitura e matemática”, comemora.

Peró com os olhos marejados já se sente recompensada por ver aqueles meninos que ela educou e que anos atrás não tinham nenhuma perspectiva de vida. Alguns hoje são bons pais, mães, educadores, reconhecidos na vida profissional, elogiados e, sobretudo, devolvem para os mais jovens no projeto, por meio de trabalho voluntário, tudo aquilo que aprenderam.

Ela conta que no início,  o projeto já sofreu muito preconceito de pais e mães das crianças que achavam que circo era “coisa de veado e sapatão”, mas os frutos da ONG foram aos poucos dissolvendo o véu de preconceito que cegava esses olhos.

Peró garante que seu principal aprendizado ocorre diariamente com as histórias de vida das crianças assistidas pela Sua Majestade ,O Circo. “Esses meninos não reclamam da vida como nós, eles moram em uma região sem saneamento, de difícil acesso, sem médico e mesmo assim não reclamam de nada. eles são felizes e eu aprendo com eles isso diariamente.”

Quando vê aquelas crianças correndo e sorrindo debaixo das árvores, Peró se lembra de um passado distante onde seus filhos que tinham a mesma idade daqueles pequeninos. Hoje, Pablo, o mais velho, está com 33 anos e Rafael com 26 e que assim como a mãe, doam um pouco de seu tempo oferecendo sorrisos àquelas crianças que veem ali um pedaço do paraíso, onde era possível ser feliz. Pablo ensina informática e Rafael matemática. Peró se sente satisfeita por eles também representarem esse parêntese no mundo daqueles pequenos seres. “Eu ensinei que todos devemos dar um pouco do que temos para aqueles que não têm nada”.

Atualmente, Peró está afastada da ONG por problemas de saúde, mas não se preocupa com a direção da Sua Majestade, O Circo, pois confia nos meninos que formou e que participam do projeto desde pequenos.

Pergunto quem é Peró e ela faz questão de dizer que sua vida é dedicada à ONG, que há 15 anos abraça com a ternura e a garra que só os fortes têm.