Ana Cecília da Silva

Ela não sabe chutar uma bola e era sempre eliminada nas olimpíadas de matemática na escola. O destino a fez jornalista, afinal a única coisa que sabe fazer bem é contar histórias. Ela podia estar fazendo terapia para se tornar uma pessoa melhor, mas escolheu o jornalismo como divã para as aventuras e desventuras da vida. Ana Cecília escreve também no jornalistaeprafalarmal.blogspot.com.br.

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O amor de Antônia

Era sempre início da manhã quando eu passava por sua janela no andar térreo daquele prédio. Ela, como que desperta junto aos primeiros raios de sol, já estava a postos para mais um dia que veria passar enquadrado pela janela do quarto, tal qual a música de Adriana Calcanhoto.  Porém, essa visão não parecia entristecê-la, com seu bordado à mão e um sorriso no rosto, estava sempre disposta a mostrar os dentes a quem quer que fosse, mesmo que em seu coração carregasse tristeza.

Em 1930, nascia Antônia da Silva Braga, filha dos comerciantes Vitorino e Maria Madalena. Falante e alegre, acredita que sua vida daria um livro, afinal, hoje, aos 84 anos, não lhe restam muitas coisas com o que ocupar o tempo a não ser suas recordações. Reconstruir memórias afetivas, lembranças e sentimentos para assim se reencontrar consigo mesma e com o passado que não conseguiu esquecer. É como se a lembrança pudesse dar sentido à vida, embora nem tudo fosse glória.

Nascida em Maragogi, cidade litorânea de Alagoas, Antônia viveu no lugar até os 06 anos de idade, quando foi com a família para Porto Calvo, onde ficou até os 17. Lá, ela foi muito feliz. “Minha infância foi maravilhosa, eu tinha meus amigos e meus irmãos ainda comigo. Eu adorava brincar de garrafão e de queimado. Também gostava de estudar, era uma boa aluna, e de fazer travessuras no colégio”, conta sorrindo.

Aos 17, Antônia mudou-se para Palmares, em Pernambuco, quando seu pai resolveu se tornar político. “Fomos embora, mas eu só fazia chorar de saudade do amor que deixei em Porto Calvo. O amor que começou quando eu tinha 12 anos e que resiste até hoje, mesmo depois de mais de 70 anos”.

“O nome dele é Valdir”, diz Antônia com o brilho nos olhos que só os apaixonados têm. Aquele fora o único amor de sua vida, embora tenha se casado com outro – segundo ela, o maior erro de sua vida.

Valdir, talvez, tenha sido o divisor de águas na vida de Antônia. Depois de conhecê-lo, ela ficou dividida entre passado e presente e, mesmo depois de 72 anos, Valdir ainda a faz suspirar. “Até as irmãs dele me chamam de cunhada até hoje e eu sinto uma saudade tão grande que aperta o peito. É como se eu me sentasse nessa janela e esperasse ele voltar”, conta emocionada. Os enamorados se comunicaram por cartas por quase cinco anos. “Toda semana tinha carta. Toda a saudade ia no papel e, vez ou outra, algumas lágrimas”.

Pergunto então por Valdir, onde está agora? “Tive um aborrecimento em casa com meus pais e meus irmãos e eu disse que me casaria com o primeiro homem que aparecesse querendo casar, caso Valdir não assumisse logo o noivado e o casamento. Ele não assumiu, quis esperar um pouco mais e os aborrecimentos em casa foram aumentando e eu acabei me casando com o Barbosa, fazendeiro amigo do meu pai”. Eis a escolha que faz o coração de Antônia, até hoje, apertar de arrependimento.

Antônia teve sete filhos com Barbosa, mas só quatro estão vivos. Se foi feliz? Dos 23 anos que passou ao lado dele, apenas nos seis primeiros. Ela acredita que casou com o homem errado. “Foi por pura má criação que casei, por birra mesmo… Pra me livrar dos comentários e aborrecimentos em casa, mas nunca foi amor. Eu acabei causando o mal para mim mesma”, confessa.

Não conseguindo conter as lágrimas, Antônia revela que sua melhor lembrança é o Valdir, assim como a pior. “Eu nunca esqueci dele e nunca vou esquecer. Foi a melhor coisa da minha vida. Como também não esqueço do dia em que ele se foi para sempre, ele morreu há um ano na véspera de natal. Foi o pior natal da minha vida. Me senti viúva. Ali se foi uma parte de mim”.

Dividida entre sua rotina de bordar, cozinhar e ver o tempo passar pela janela, Antônia diz que não é mais feliz. Além de a vida ter levado uma de suas únicas alegrias, também lhe trouxe a diabetes. “Hoje minhas únicas alegrias são meus filhos e minhas lembranças. Fora isso, nada tenho”.

Antônia também fala do fim da vida de forma natural, ela sabe da finitude dos seres e, diferente de muitos, vê nisso um processo natural. “A gente morre de qualquer jeito, até dormindo, não adianta ter medo. Eu não desejo a morte, mas aceito quando ela vier e não me desespero”.

Enquanto o momento não vem, Antônia continua em sua janela, vendo a vida e a banda passar, sorrindo-me todas as manhãs como se buscasse fora a alegria que não existe dentro dela.

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Arthur: um gol de placa

Era quarta-feira, eu tinha marcado um horário para conhecer Arthur Ytalo, na escolinha de futebol onde treinava. Nos encontramos às três da tarde e eu estava ansiosa para dar rosto àquela criança que todos falavam ser a revelação do futebol. Ele ainda não jogava em um grande time e nem estava escalado para campeonatos. Ele era apenas um menino, um pequeno, um gigante, que todas segundas e quartas-feiras encontrava aquilo que gostava de chamar de “sentido para a vida”.

Quando cheguei no Rei do Society, escolinha de futebol localizada no Sítio São Jorge, Arthur estava sentado em um banco esperando seu treino começar. Outros meninos menores jogavam bola e ouviam atentos às ordens do treinador. Os gritos de felicidade vinham quando a bola tocava o fundo da rede. Arthur não se movia, apenas observava todo o vaivém com os olhos.

Aproximei-me. Ele, tímido, estranhou minha curiosidade por sua vida. “Afinal, o que posso ter de especial?”, questionou sem tirar os olhos da pequena bola que ia e vinha nos pés dos pequenos jogadores.

A idade era pouca, apenas 14 anos, mas sua existência, marcada por tantas experiências precoces, parecia já se estender por uma eternidade. Arthur era filho das ruas, da cama de cimento e do céu estrelado e via na bola a sua única redenção. Para ele, não havia alegria fora dos gramados. “O momento que eu mais gosto da minha vida é vir pra cá jogar futebol, fora isso não vejo graça”, confessa enquanto abre um sorriso sem jeito.

Seu talento foi descoberto nas ruas por um agente social, Fabrício Sobral, enquanto o pequeno jogava futebol num campo improvisado na Praia da Avenida. Fabrício também pode ser chamado de anjo da guarda de Arthur, quem lhe estendeu a mão e ofereceu a chance de seguir com o futebol, ou melhor, começar a traçar um caminho diferente daquele que o futuro parecia lhe reservar. Arthur agarrou a chance sem pensar duas vezes.

Há seis meses correndo atrás dos seus sonhos, Arthur diz que não tem ídolos no futebol, mas torce pelo CSA e São Paulo. Sua melhor lembrança de vida, ao longo desses 14 anos, foi um gol que marcou contra a equipe infantil do Corinthians Alagoano. Nesse momento, um sorriso largo se abre e ele lembra com orgulho da suada conquista.

Chegar até ali não foi nada fácil. Atualmente, Arthur mora com a mãe e uma tia em uma favela de Maceió. Segundo ele, em sua casa só há um fogão pequeno e uns móveis velhos, a geladeira queimou. Quem dá comida é o vizinho, amigo da família. A mãe é viciada em drogas e se assemelha à morte, ainda em vida. Ele evita falar sobre o presente e o passado, estes não eram dos mais agradáveis. Arthur fala de sonho e de futuro. O pequeno gigante deixa escapar que um dia ainda quer ver toda a torcida gritando seu nome após fazer um gol de placa.

Arthur comenta que além da mãe e da tia, também tinha uma irmã, mas que há dois anos ela se foi. Seus olhos enchem de lágrimas e as pequenas mãos se apertam uma na outra quando se lembra da forma prematura como sua irmã partiu. “Foi estuprada e morta” e logo interrompe a narrativa. Apesar da dor, ele fala com ingenuidade do modo como tudo ocorreu. Uma ingenuidade infantil, de quem não entendia como pode existir tamanha crueldade.

Ele se despede. O treino já ia começar. Guarda seus pertences em uma mochila, inclusive um terço que retira do pescoço com todo o cuidado. “Quem te deu esse terço, Arthur?”, pergunto. “Uma mulher que conheci na igreja na época que eu passei na rua”. Sem olhar para trás, se manda para o campo como um foguete.

O pequeno atacante logo abre um sorriso iluminado como aquele fim de tarde que se anunciava atrás das árvores. Ele corre ritmado, parecia um samba, uma bossa, um poema, uma imagem. O sorriso que carrega agora nada mais é do que a felicidade de estar exatamente onde gostaria, no lugar em que melhor se encaixa: o campo de futebol.

 

Foto: Pei Fon/Secom Maceió.