Ana Cecília da Silva

Ela não sabe chutar uma bola e era sempre eliminada nas olimpíadas de matemática na escola. O destino a fez jornalista, afinal a única coisa que sabe fazer bem é contar histórias. Ela podia estar fazendo terapia para se tornar uma pessoa melhor, mas escolheu o jornalismo como divã para as aventuras e desventuras da vida. Ana Cecília escreve também no jornalistaeprafalarmal.blogspot.com.br.

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ANDRÉ, UM PRESENTE DE FILHO

Esta é a história de André, mas também é a da Mauricéa. Ambas se confundem, uma é escrita junto a outra, entrelaçando-se e renovando-se. É uma história de mãe e filho, de amor incondicional e, acima de tudo, de doação. Eram 14 horas quando cheguei à casa de André, em um condomínio de apartamentos no bairro do Tabuleiro. Na sala de estar, ele corria de um lado para o outro. Parecia feliz e carregava nas mãos um catálogo de fotografias, volta e meia perguntava à mãe quem eram as pessoas naquelas imagens. Até que André sentou no sofá por um breve momento e, em seguida,tornou a correr e perguntar insistente sobre as fotos. Ele tem 12 anos e é autista. E, sobretudo, o motivo da felicidade de Mauricéa, sua mãe.

As primeiras expectativas de Mauricéa Ferreira da Silva, 39 anos, foram iguais as de tantas mulheres quando descobrem, especialmente, a primeira gravidez: planos e infinitas expectativas para a criança que encherá qualquer família de orgulho.

No dia do parto, há 12 anos, o sonho de colocar André no mundo, ouvir o choro dele e tê-lo ao alcance dos olhos pela primeira vez não aconteceu. André foi direto para a incubadora. Ele não se mexia, nem chorava. Logo que pôde, Mauricéa tentou amamentá-lo, mas, mesmo com estimulação médica não conseguiu. Foi aí que as dúvidas e o medo tomaram conta dos seus pensamentos: “O que será que está acontecendo com meu filho?”, “Por que ele não mama e nem chora?”.

O tempo foi passando e quando André estava com três anos de idade começou a demonstrar os primeiros traços do autismo. Ele chorava muito, gritava demais e era inquieto todo o tempo. Sem saber, nesse momento começava a maior aventura da vida de Mauricéa, adentrar em um mundo até então desconhecido.

Orientada por um parente, Mauricéa levou o pequeno garoto a um psiquiatra, onde as suspeitas de autismo se confirmaram. Mauricéa ficou em choque logo que soube do diagnóstico. Ela se sentia perdida, pois não sabia o que era a síndrome. “Eu não sabia o que era aquilo direito, mas com o tempo fui aprendendo, não tive tempo de ficar me lamentando, pois meu filho precisava mais que tudo de mim. Conheço várias pessoas que ficam de luto, mas o que eu sabia era que a expectativa que eu criei não existia e que por isso eu precisava me adaptara uma nova realidade”, afirmou.

André passa a semana ao lado da mãe. O pai trabalha no interior de Alagoas e só está em casa aos fins de semana. Mauricéa não trabalha fora, dedicando toda a sua atenção ao filho. André chegou para realizar seu sonho de ser mãe e também para inverter suas prioridades. Hoje ela se diz uma pessoa melhor.

Todas as manhãs ela leva André à escola, onde cursa a 5ª série. Já durante a tarde, a mãe o acompanha às terapias, onde ele aprende atividades da vida diária, como se vestir, lavar mãos, pentear os cabelos, o que para alguém com autismo são atividades complexas. André conta ainda com acompanhamento de fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais, psicólogos e pratica educação física adaptada.

A mãe de André atribui o progresso do filho ao fato de ter encarado o autismo de frente. “Se eu tivesse recuado no início ele não estaria como está agora, aprendendo a ser independente. Quando se encara com compromisso, abre-se um leque de possibilidades e eu mudei como ser humano. Dou todo o suporte que ele precisa”, diz.

Uma das maiores pedras no caminho que Mauricéa encontrou foi o preconceito das pessoas e a falta de informação que elas têm sobre o autismo. “As pessoas vêm o autismo como se fosse um bicho que está pronto pra lhe agredir, lhe bater, como se fosse uma ameaça, mas não faz diferença para mim. Eu não espero que a sociedade aceite. Eu tento abrir a mente das pessoas, mas se elas não querem entender eu não rebato, desde que não façam mal pro meu filho”.

Um dos episódios mais marcantes de preconceito aconteceu dentro de um ônibus, quando Mauricéa levava André a uma de suas terapias. “Eu estava na frente, pois a carteirinha do meu filho não tinha passado e uma senhora entrou, tinha lugar pra sentar, mas eu deixei André sentado e fiquei em pé ao seu lado. Ela passou a me ofender, perguntando como uma criança pode ir sentada e uma mãe em pé, que isso não existia. Quando desci disse que existiam deficiências que ninguém vê como a do meu filho, mas que a dela estava nítida”, contou.

Mauricéa diz ainda que seu maior medo é a intolerância das pessoas. “Logo no início dos tratamentos, eu estava em um ponto de ônibus e ele soltou da minha mão, entrou debaixo de um banco e começou a se agredir a chorar, rolando no barro. Eu o puxei, o limpei e disse que estava ali com ele. Uma multidão de gente se formou e uma das pessoas disse que com uma semana uma criança daquela melhorava na mão dela, que era falta de uma boa pisa pra deixar de ser mal educado. É dessa sociedade que eu tenho medo, por isso luto pela autonomia dele, já que não me terá pra sempre”.

Essa foi uma maneira que André encontrou de se comunicar. Quando vê multidões, ele sente-se extremamente inquieto e procura se isolar. A maneira que encontrou foi entrando debaixo do banco.

Mauricéa olha com ternura para o filho sentado no sofá. Com lágrimas nos olhos, lembra que uma das melhores lembranças que tem foi o dia em que ele a abraçou pela primeira vez. “Eu fiquei louca, eu gritava que meu filho tinha me abraçado e chorava muito de emoção. Pode parecer uma besteira, mas pra uma criança antissocial aquilo era uma alegria enorme para mim”. Ela lembra também do dia em que ele vestiu a roupa sozinho pela primeira vez, aos cinco anos de idade e quando a chamou de “mamãe” aos quatro. “São alegrias inexplicáveis, não tem dinheiro que pague”.

Enquanto conversamos, a mãe pede para André mostrar os cadernos da escola. Com orgulho, ela exibe a letra do filho e comemora por ele ser um dos melhores alunos da classe. “Ele adora estudar e tem muitas habilidades com computador. A memória dele é ótima, com três anos de idade, sem ninguém ensinar, ele já sabia todas as bandeiras dos países. Eu o considero um herói por ter chegado onde chegou, ele era uma criança muito desorganizada e hoje já consegue fazer muitas coisas sozinho”.

Em um lugar central da parede da sala, Mauricéa pendurou uma das grandes vitórias que conquistou ao lado do filho, uma comenda que ganhou em abril de 2015 da Câmara de Vereadores de Maceió por seu relevante trabalho de inclusão social, espelho para tantas outras mães de filhos autistas. “Procuro levar André em todos os espaços que frequento para que as pessoas conheçam sobre o autismo. Sempre o preparo previamente, estabeleço uma comunicação, pois antes de tudo ele é um ser humano e uma criança que precisa de satisfação. Falo com ele e olho nos olhos. Incentivo que as outras mães façam o mesmo”.

Mauricéa ainda tem um sonho que deseja muito realizar: formar-se em Serviço Social. “Ainda preciso realizar meus objetivos, mas sou uma pessoa realizada. Tento dar o meu melhor para que meu filho seja melhor e também para ajudar outras mães e outros filhos”, afirmou a mãe com convicção.

Ela se considera um espelho para outras mães. “Quando dou o meu melhor por meu filho, eu inspiro outras mães a também darem seu melhor. Isso é uma grande responsabilidade, mas me sinto muito grata por poder, em meu anonimato, fazer tantas coisas pelas pessoas”. André, mais que um filho, é um presente que diariamente transmite amor e ensina importantes lições sobre cuidado, entrega e paciência. André é borboleta  que aos poucos desabrocha de seu casulo.

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Os 835 filhos de Célia

Em uma grande casa de tijolo aparente na Ponta Verde, bairro nobre da capital alagoana, vive Célia Maria dos Santos, o marido, com quem é casada há 32 anos, e suas duas filhas. A casa de primeiro andar é dividida entre seu lar e o Projeto Vaso Novo, que fundou há oito anos. Na garagem da casa podemos encontrar brinquedos, roupas, objetos domésticos e bijuterias penduradas na parede. São doações de voluntários para o bazar que seria realizado dali a alguns dias.

No andar de cima, Célia mostra a casa onde vive com a família. Nas paredes, na varanda e em um pequeno altar montado na sala podemos encontrar imagens de Nossa Senhora Aparecida, santa de quem é devota. Célia não trabalha fora, dividindo-se entre as tarefas domésticas e os cuidados com o projeto.

Na poltrona onde estava sentada, ela fala que gosta de meditar e rezar quando se sente angustiada. É nesse momento que Célia me confessa sobre sua antiga vida “em sociedade”, como gosta de se referir, onde ela ocupava o tempo entre eventos sociais de pessoas ditas importantes, roupas caras e viagens internacionais. Com 53 anos de estrada e muitas experiências, ela afirma que somente há oito que encontrou algo que pode chamar de verdadeira felicidade, não vendo mais nenhum sentido na antiga vida que levava, de uma dama da sociedade.

A transição entre o antes e o agora, se deu às 10 da manhã, enquanto ela caminhava na Praia de Ponta Verde e encontrou na areia uma imagem de Nossa Senhora Aparecida. A imagem estava destroçada e ela resolveu levar para casa e restaurá-la. No caminho de volta e com os pedaços da imagem nas mãos, Célia viu moradores de rua caídos nas calçadas e os pedestres desviando deles como se fossem obstáculos, aquilo passou a incomodá-la profundamente, como nunca havia incomodado e ela resolveu então, ser pescadora de homens, resgatando-os daquele mar de invisibilidade.

“Naquele momento eu senti algo muito profundo, uma transformação interior e comecei a me envolver com a causa dos moradores de rua e dependentes químicos. Eu não podia aceitar seres humanos sendo tratados assim, isso choca a gente. Se somos irmãos uns dos outros, como podemos ignorar?”, questionou.

Célia passou a cumprimentá-los, a conversar com eles. Procurou saber de suas necessidades, desejos, medos. Todas as sextas-feiras ela leva um café da manhã e realiza um momento de oração com aqueles que ela já adotou como filhos, sejam crianças, jovens, adultos ou idosos. Além do trabalho às sextas-feiras, ela também ajuda a manter algumas dessas pessoas em clínicas de reabilitação para dependentes químicos. “Eu não pago as clínicas, mas tenho despesas para mantê-los lá”, diz.

Foi no bairro do Vergel que Célia passou a infância ao lado de seus pais e irmãos, um período que ela não gosta de lembrar, pois além das privações financeiras, chegando a não ter o que comer, ainda existia a falta de afeto por parte de seu pai, o que a fez criar muitas mágoas ao longo da vida. “Eu não recebia amor, afeto e carinho, não foi um período bom da minha vida, fiquei com muitas mágoas. Eu acho que tudo o que eu não tive quando criança estou resgatando agora. Além do amor que dedico á minha família, também sinto a necessidade de ampliar esse amor para o meu próximo, por isso me envolvi tanto com a causa dos moradores de rua, seres extremamente desamparados”, diz, tentando enxugar as lágrimas que insistiam em cair.

Ela, que já tinha duas filhas, se viu mãe de mais 835. “Comecei colocando nomes, idades e locais onde eu encontrava os meninos, mas depois não deu pra fazer mais isso, a equipe era pequena. Uns se perderam no caminho, outros foram presos, outros tantos morreram, mas como mãe deles, eles sempre voltam para o mesmo lugar quando precisam”.

Para manter essa família, Célia realiza uma feira da pechincha três vezes ao ano para arrecadar fundos, além de contar com doações dos que conhecem o projeto. O dinheiro que o Projeto Vaso Novo tem em caixa serve para os mais diversos fins, comprar comida, remédio ou mesmo funerais quando um dos meninos morre. Julgamentos, acusações também não fazem parte dessa família. A mãe de 835 filhos não quer saber o que eles fizeram antes de chegar ali, ela apenas os acolhe, com amor de mãe, que só sossega quando vê o filho feliz. Ela nada pergunta sobre passado ou presente, apenas estende a mão àqueles que ela encontra nas esquinas da cidade, sem nenhum amparo.

Célia confessa que depois que começou a realizar o trabalho muitas amigas de antigamente a deixaram de lado. “Estou fazendo minha parte, tem que goste e quem não goste. Algumas pessoas me excluíram de seus círculos sociais, não me chamam mais pra festas. Eu era da sociedade, vivia em festas, viagens, mas nada disso faz mais sentido pra mim, nem mesmo essas pessoas, eu não vou levar nada disso, então espero que enquanto estiver aqui possa fazer algo de bom pelos outros”, disse.

Nada lhe falta em termos materiais e hoje ela finalmente afirma ter encontrado o sentido para a vida, por meio do amor ao próximo, o amor que cura, salva, liberta e constrói pontes. Que a faz acordar todos os dias com a certeza de estar no caminho certo, no caminho que seu coração pediu pra seguir, mesmo em meio ao preconceito e a dificuldade, que ela sente na pele quando resolve levá-los à missa e sente os olhares tortos para suas roupas esfarrapadas e seus cabelos sujos. A presença dos meninos incomoda, assim como incomoda nas ruas, praças e calçadas, onde são vistos apenas como empecilhos.

Muitos não dão credibilidade ao projeto, segundo Célia, pois julgam que moradores de rua são marginais, portanto há uma discriminação muito grande, principalmente quando são dependentes químicos. “As pessoas falam que vou amanhecer morta e me dizem para cuidar de velhinhos que é mais seguro e bonito, eu não me importo com o que dizem, eu nunca vou deixar de estar junto dos meus filhos”.

Um dia um dos seus filhos de rua falou “Mãe, a gente não é copo descartável, a gente é copo de cristal”. Esta frase marcou Célia profundamente, deixando-a orgulhosa por saber que o amor que está transmitindo está ganhando o caminho do coração. Ela também se sentia descartável, mas aquelas palavras a levantou e sempre a faz sorrir quando o desânimo vem bater à sua porta, geralmente durante as madrugadas insones.

Sobre a morte, Célia conhece de perto e lembra um de seus filhos de rua em especial, que se foi há cinco anos. Ele chamava-se Sérgio e foi assassinado na rua. “Ele me disse para nunca desistir do que estou fazendo”. Ele morreu, assim como tantos outros, que para ela eram especiais e que para outros, apenas estatística e uma nota curta no jornal. Muitos já disseram que se Célia morrer, eles não vão mais existir também, porque não terão mais a fonte do amor verdadeiro, o amor que transborda, que acolhe e afaga. Célia quer ser exatamente essa mão, essa mãe de coração.

No fim do relato, Célia estava em lágrimas e eu tinha diante de mim duas mulheres. A Célia de antes estava distante e quase não existia diante da Célia de agora. A Célia de sentimentos à flor da pele, de sorrisos e lágrimas nos olhos, que choravam de felicidade e também de tristeza por não ser onipotente na alegria e nem presente em todas as dores do mundo, que ela carregava como se fossem suas.