Era quarta-feira, eu tinha marcado um horário para conhecer Arthur Ytalo, na escolinha de futebol onde treinava. Nos encontramos às três da tarde e eu estava ansiosa para dar rosto àquela criança que todos falavam ser a revelação do futebol. Ele ainda não jogava em um grande time e nem estava escalado para campeonatos. Ele era apenas um menino, um pequeno, um gigante, que todas segundas e quartas-feiras encontrava aquilo que gostava de chamar de “sentido para a vida”.

Quando cheguei no Rei do Society, escolinha de futebol localizada no Sítio São Jorge, Arthur estava sentado em um banco esperando seu treino começar. Outros meninos menores jogavam bola e ouviam atentos às ordens do treinador. Os gritos de felicidade vinham quando a bola tocava o fundo da rede. Arthur não se movia, apenas observava todo o vaivém com os olhos.

Aproximei-me. Ele, tímido, estranhou minha curiosidade por sua vida. “Afinal, o que posso ter de especial?”, questionou sem tirar os olhos da pequena bola que ia e vinha nos pés dos pequenos jogadores.

A idade era pouca, apenas 14 anos, mas sua existência, marcada por tantas experiências precoces, parecia já se estender por uma eternidade. Arthur era filho das ruas, da cama de cimento e do céu estrelado e via na bola a sua única redenção. Para ele, não havia alegria fora dos gramados. “O momento que eu mais gosto da minha vida é vir pra cá jogar futebol, fora isso não vejo graça”, confessa enquanto abre um sorriso sem jeito.

Seu talento foi descoberto nas ruas por um agente social, Fabrício Sobral, enquanto o pequeno jogava futebol num campo improvisado na Praia da Avenida. Fabrício também pode ser chamado de anjo da guarda de Arthur, quem lhe estendeu a mão e ofereceu a chance de seguir com o futebol, ou melhor, começar a traçar um caminho diferente daquele que o futuro parecia lhe reservar. Arthur agarrou a chance sem pensar duas vezes.

Há seis meses correndo atrás dos seus sonhos, Arthur diz que não tem ídolos no futebol, mas torce pelo CSA e São Paulo. Sua melhor lembrança de vida, ao longo desses 14 anos, foi um gol que marcou contra a equipe infantil do Corinthians Alagoano. Nesse momento, um sorriso largo se abre e ele lembra com orgulho da suada conquista.

Chegar até ali não foi nada fácil. Atualmente, Arthur mora com a mãe e uma tia em uma favela de Maceió. Segundo ele, em sua casa só há um fogão pequeno e uns móveis velhos, a geladeira queimou. Quem dá comida é o vizinho, amigo da família. A mãe é viciada em drogas e se assemelha à morte, ainda em vida. Ele evita falar sobre o presente e o passado, estes não eram dos mais agradáveis. Arthur fala de sonho e de futuro. O pequeno gigante deixa escapar que um dia ainda quer ver toda a torcida gritando seu nome após fazer um gol de placa.

Arthur comenta que além da mãe e da tia, também tinha uma irmã, mas que há dois anos ela se foi. Seus olhos enchem de lágrimas e as pequenas mãos se apertam uma na outra quando se lembra da forma prematura como sua irmã partiu. “Foi estuprada e morta” e logo interrompe a narrativa. Apesar da dor, ele fala com ingenuidade do modo como tudo ocorreu. Uma ingenuidade infantil, de quem não entendia como pode existir tamanha crueldade.

Ele se despede. O treino já ia começar. Guarda seus pertences em uma mochila, inclusive um terço que retira do pescoço com todo o cuidado. “Quem te deu esse terço, Arthur?”, pergunto. “Uma mulher que conheci na igreja na época que eu passei na rua”. Sem olhar para trás, se manda para o campo como um foguete.

O pequeno atacante logo abre um sorriso iluminado como aquele fim de tarde que se anunciava atrás das árvores. Ele corre ritmado, parecia um samba, uma bossa, um poema, uma imagem. O sorriso que carrega agora nada mais é do que a felicidade de estar exatamente onde gostaria, no lugar em que melhor se encaixa: o campo de futebol.

 

Foto: Pei Fon/Secom Maceió.

Ana Cecília da Silva

Ela não sabe chutar uma bola e era sempre eliminada nas olimpíadas de matemática na escola. O destino a fez jornalista, afinal a única coisa que sabe fazer bem é contar histórias. Ela podia estar fazendo terapia para se tornar uma pessoa melhor, mas escolheu o jornalismo como divã para as aventuras e desventuras da vida. Ana Cecília escreve também no jornalistaeprafalarmal.blogspot.com.br.

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